
O que começou como uma denúncia isolada contra um padre de Cascavel transformou-se em um dos maiores escândalos da história recente da Igreja Católica no Paraná. Em poucos dias, o caso ganhou dimensões inesperadas: mais vítimas surgiram (já são 11), o nome de um arcebispo já falecido foi incluído nas investigações e até um acidente de trânsito antigo voltou ao debate, agora sob suspeita de acobertamento.
Na quinta-feira (28), o secretário estadual de Segurança, Coronel Hudson Leôncio Teixeira, esteve pessoalmente em Cascavel para acompanhar os desdobramentos, ao lado da delegada Thaís Zanatta, do Nucria, que conduz as investigações.
A prisão do padre Genivaldo
O padre Genivaldo Oliveira dos Santos, de 42 anos, foi preso no último domingo (24), durante a operação “Lobo em Pele de Cordeiro”, deflagrada pela Polícia Civil. Ele é acusado de abusar de adolescentes, jovens seminaristas e até fiéis em situação de vulnerabilidade. Os mandados de busca e apreensão cumpridos em sua residência e na clínica onde atuava apreenderam computadores, celulares e brinquedos eletrônicos.
Ordenado em 2013, Genivaldo construiu carreira marcada pela atuação pastoral, projetos de comunicação religiosa, como a web rádio “Deus é maravilhoso”, e publicações literárias. Até ser afastado no início deste mês de agosto, exercia funções na Arquidiocese de Cascavel e recentemente havia sido transferido para a Paróquia São Roque, em Santa Lúcia.
A escalada das denúncias
O inquérito foi instaurado em julho, após relatório de inteligência da Polícia Militar apontar indícios de abusos. Inicialmente, três vítimas foram identificadas. Poucos dias depois, o Nucria confirmou oito vítimas do padre e três do ex-arcebispo Dom Mauro Aparecido dos Santos, falecido em 2021.
Segundo os relatos, os abusos ocorriam em paróquias, no seminário e até em uma clínica de terapias. Jovens em situação de fragilidade eram atraídos com presentes, dinheiro, comida e videogames. Em alguns casos, houve relatos de dopagem com medicamentos ou derivados de maconha.
O depoimento mais impactante veio de um seminarista, em vídeo divulgado pela imprensa, relatando abusos cometidos pelo próprio Dom Mauro, então arcebispo de Cascavel. O caso ganhou ainda mais gravidade com a revelação de um boletim de ocorrência de 2008, em que a mãe de uma criança de três anos denunciava estupro ocorrido em uma creche ligada a instituições religiosas.
Silêncio e acordos internos
As investigações revelam que parte das denúncias teria sido abafada. Um dos ex-seminaristas relatou ter assinado um termo de silêncio em 2011, a pedido da Arquidiocese, após sofrer tentativa de abuso ainda no seminário. Especialistas consultados pela imprensa avaliam que esses documentos podem configurar tentativa de ocultação de crimes.
O secretário de Segurança Hudson Teixeira questionou publicamente por que, mesmo após a morte do arcebispo em 2021 e diante de denúncias reapresentadas à Igreja, nenhuma providência concreta havia sido tomada.
Um acidente nunca esclarecido
Outro episódio ressurgiu com força: o atropelamento que matou Luiz Edimar dos Santos, em 2019. O carro envolvido pertencia ao padre Genivaldo. Familiares afirmam que, no dia do acidente, o sacerdote estava acompanhado de um vereador e que houve manobra para evitar perícia no veículo.
O caso, na época, não resultou em inquérito formal. Agora, será reaberto pela Polícia Civil e poderá arrastar mais gente para dentro do escândalo.
A defesa e a posição da Igreja
A defesa de Genivaldo alega que o padre é inocente e que as provas ainda são frágeis, baseadas principalmente em relatos. Os advogados lembram que a Constituição garante a presunção de inocência e criticam o “julgamento midiático” que, segundo eles, já estaria condenando o religioso antes de decisão judicial.
A Arquidiocese de Cascavel, em nota, afirmou colaborar com as investigações e diz que seguiu protocolos do Vaticano ao afastar o padre.
O atual arcebispo, Dom José Mário Angonese, declarou que a Igreja deseja a verdade e que, se confirmadas as acusações, o sacerdote poderá ser reduzido ao estado laical, ou seja, perder a condição de padre.
Estado acompanha de perto
A presença do secretário de Segurança em Cascavel sinaliza a gravidade do caso. O Coronel Hudson afirmou que todas as responsabilidades serão apuradas e que o Estado cobrará explicações sobre a falta de providências anteriores.
A delegada Thaís Zanatta reforçou que há ainda cerca de 20 pessoas a serem ouvidas e que novas vítimas podem aparecer. Entre as pessoas a serem ouvidas estão outros padres que atuam em Cascavel.
Por enquanto as investigações focam no envolvimento do padre e ainda nem começar a investigar os casos descobertos envolvendo o arcebispo falecido.
Cronologia do caso
2008 – Boletim de ocorrência registra estupro de uma criança de três anos em creche religiosa. Caso será reaberto.
2010 – Seminarista denuncia tentativa de abuso. Arquidiocese teria imposto termo de silêncio.
2012-2013 – Relatos de seminaristas acusam Dom Mauro, então arcebispo, de assédios.
2019 – Atropelamento em Cascavel, envolvendo carro do padre Genivaldo, deixa uma vítima fatal. Caso ficou sem esclarecimentos.
2024 – Vítima tenta suicídio, o que leva Polícia Militar a iniciar relatório de inteligência.
2025 – Operação “Lobo em Pele de Cordeiro” prende o padre e desencadeia a maior crise da Igreja em Cascavel.