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Opinião História do Oeste

O conto do tesouro jesuíta

O gênio do Barão do Rio Branco e a esperteza do cacique Bandeira estão na origem do Oeste desenvolvido pelo trabalho dos imigrantes

27/06/2021 às 10h03
Por: Alceu Sperança
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Barão do Rio Branco, o estadista que maravilhou o mundo com sua habilidade para dialogar e resolver problemas
Barão do Rio Branco, o estadista que maravilhou o mundo com sua habilidade para dialogar e resolver problemas

 

Em abril 1870, depois de várias trocas rápidas de governantes da Província do Paraná, Antônio Luís Afonso de Carvalho transmite o comando a Agostinho Ermelino de Leão, que desta vez permaneceria por mais tempo nas funções.

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A essa altura, o Império dá sinais de abalo e o movimento republicano já começa a se expandir pelo País. Panfletos pró-República são lançados abertamente.

Em dezembro, Ermelino de Leão entrega o governo ao fluminense Venâncio José de Oliveira Lisboa (1834–1903), um dos governantes que por maior tempo administrou o Paraná no Segundo Reinado.

Lisboa conquistara grande confiança nos centros do poder imperial: além do Paraná, governou a Paraíba, Bahia e Minas Gerais

Em seu governo o café se expande pelo interior paulista e invade também o Norte do Paraná. A cafeicultura, por suas diversas etapas, requeria grande quantidade de mão de obra, mas o Paraná tinha escassez de jovens trabalhadores.  

Brasil se oferece aos estrangeiros

No início da atração de imigrantes havia facilidades e vantagens para aventureiros e militares, mas a cafeicultura moldou o interesse por atrair famílias inteiras.

Havia um contrato padrão, de um ano e revogável, que engajava todos os familiares: “O migrante ganha salário-base proporcional aos pés de café a seu cargo, prêmios, suplementos pela carpa (limpeza) e colheita, um lote para plantar milho, mandioca, feijão, ou licença para o plantio intercalar” (Almir Ribeiro, História do Brasil, Segundo Reinado).

Com o esgotamento do ciclo tropeiro, as autoridades paranaenses se viram na obrigação de construir uma agricultura que fosse além dos limitados modelos tentados com as primeiras e desassistidas colônias de imigrantes.

O governo pretendia atrair colonos em massa. Para isso, prometia o custeio das viagens dos migrantes e criou um organismo para dirigir o fluxo migratório. A diplomacia brasileira recorreu a agências de propaganda, promovendo recrutamento em vários países europeus.

Paranhos, o gênio

A atividade mais importante da política externa das décadas finais do século XIX era aliciar multidões de colonos estrangeiros para povoar as terras férteis do Brasil e fazê-las produzir.

José Maria da Silva Paranhos (1819–1880), o Visconde do Rio Branco, foi um dos artífices da política de atração de estrangeiros.

Ele assumiu o governo do Brasil em 7 de março de 1871, em substituição a José Antônio Pimenta Bueno (1803–1878), o menino abandonado que se tornou ministro e Marquês de São Vicente.

Em seu governo, Paranhos retomou no Paraná o projeto de ocupação do interior, cabendo à administração provincial paranaense a criação da Comarca de Guarapuava e a divisão da Província do Paraná em três distritos de Obras Públicas: 1° Distrito – Comarcas de Paranaguá e Curitiba; 2° Distrito – Comarcas do Príncipe e Castro; 3° Distrito – Comarca de Guarapuava.

O terceiro distrito compreendia os atuais Oeste e Sudoeste do Paraná, abrangendo na época também o Oeste de Santa Catarina, que fazia parte do Paraná.

O drama italiano

A unificação da Itália, que se completa em 1871, não favoreceu a equalização do desenvolvimento do País, regionalmente desigual entre Norte e Sul. A pobreza crescente, a resistência do Vaticano à perda das terras que antes controlava e guerras fracassadas começam a expulsar as famílias italianas para o Novo Mundo. 

É na expectativa de atrair parte desses colonos europeus que o governador Venâncio Lisboa irá desenvolver por dois anos uma administração até então rara, na medida em que os governos anteriores duravam em geral poucos meses.

Os italianos começam a chegar, provenientes do Norte de seu país, acrescentando à população paranaense bons operários, artesãos e outros profissionais especializados.

Depois do genocídio, o vazio

O Brasil de então é litorâneo, costeiro, e tem o interior despovoado. O primeiro censo demográfico nacional, em 1872, revela que toda a população brasileira não chegava a dez milhões de pessoas.

Mais de um milhão e meio eram escravos e o Paraná se apresenta como quase nada nesse contexto: meros 100 mil habitantes.

Esvaziado de seus índios, perdendo escravos para as fazendas paulistas e jovens para as guerras no Sul, é fácil compreender porque ocupar o vazio demográfico criado pela matança de nativos foi a maior preocupação de Venâncio Lisboa.

Terminada a Guerra do Paraguai, que estancou em parte a atração de imigrantes, o problema que resta no interior, afora a falta de estrutura, é a resistência indígena, esporádica mas tenaz.

Ainda mais ameaçador, pela alta influência barriga-verde no Rio de Janeiro, há o assédio de Santa Catarina, que pretende tomar todo o Sudoeste do Paraná, então colado ao Noroeste do Rio Grande do Sul.

Cacique Bandeira, o esperto

No desafio de criar interesse pelo interior, quem ousasse ir em frente e ocupar os vazios do Paraná receberia o apoio das autoridades. Foi o que aconteceu com o guarapuavano Norberto Mendes Cordeiro, que se apresentava como “comendador amansador de índios” (Pedro Altoé, Campina da Lagoa – Estrela do Vale do Piquiri).

Por essa época vivia no interior paranaense o cacique Índio Bandeira. Uma espécie de herói da região, esse nativo catequizado absorveu os estratagemas dos brancos e os usava para seus negócios.

Além de iniciar a cobrança de pedágio no interior paranaense, ao aplicar nos ambiciosos exploradores de origem europeia o “conto do tesouro dos jesuítas” passou à história como o desbravador dos Campos do Mourão, região entre as duas margens do Rio Piquiri e o Rio Paraná.

A partir das informações do Índio Bandeira, Mendes Cordeiro vai procurar o “Campo do Abarrancamento” ou “Campinas Vitorianas”, de que os nativos diziam maravilhas. É o início da exploração do Vale do Piquiri.

Em breve, Mendes Cordeiro e seus sócios agropecuaristas vão registrar ali a posse de 60 mil hectares como “Campos de Criar”, começando a desenhar no mapa a futura cidade de Campo Mourão.

Tratado de limites

Data também dessa época, em 1872, o tratado de limites entre Brasil e Paraguai, que vai disciplinar a ocupação da área e atrair maior atenção ao território fronteiriço.

Foz do Iguaçu ainda não viria tão cedo, mas os primeiros sinais de Guaíra já surgiam com a aquisição de terras na região por parte da Companhia Matte Laranjeira.

Quando Venâncio Lisboa encerra seu governo, no início de 1873, deixa em pleno desenvolvimento o projeto de fazer avançar o povoamento do interior paranaense, a maior necessidade que se apresentara ao final do conflito com o Paraguai.

 

 

 

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