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Opinião História do Oeste

Crédito abre posse da região a interesses ingleses

Indisponível aos índios, escravos e imigrantes pobres, compra a prazo facilitou o domínio do Oeste pelos capitalistas estrangeiros

05/07/2021 às 12h08
Por: Alceu Sperança
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Imigrantes russos ficaram indignados com as terras ruins que receberam, mas Joaquim Bento culpou um suíço a serviço de argentinos
Imigrantes russos ficaram indignados com as terras ruins que receberam, mas Joaquim Bento culpou um suíço a serviço de argentinos

O governo de Venâncio José Lisboa não chegou a iniciar de fato a colonização do Oeste, mas iniciou o conjunto de normas que logo iria se tornar útil com a crise na Europa que favoreceu a atração de imigrantes.

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Deixando o Paraná no início de 1873, o fluminense Lisboa transferiu provisoriamente o governo ao paranaense Manoel Antônio Guimarães (1813–1893).

Nascido em Paranaguá, Guimarães, Barão e depois Visconde de Nácar, poderoso ervateiro e político da ala conservadora, não permaneceu longo tempo no governo. Não era fácil conciliar monarquistas conservadores e republicanos liberais.

Foi em meio à intensificação da propaganda republicana que Guimarães entregou em junho de 1873 o governo do Paraná ao paulista Frederico José Cardoso de Araújo Abranches (1844–1903).

No governo, Abranches manifestou preocupação sobretudo com a infraestrutura para “o desenvolvimento da agricultura, pois as estradas da província são as suas artérias – é por elas que giram seu sangue, o seu futuro, a sua vida, isto é os produtos da indústria e do trabalho”.

 

Origem dos latifúndios

Um fator decisivo para o interesse capitalista no Oeste veio na metade da década de 1870, quando o Paraná recebeu uma inovação especial: o sistema de crédito, ou seja, a compra das terras devolutas com pagamento a prazo.

Essa modalidade de aquisição ficou limitada às Províncias do Paraná, Amazonas, Pará e Mato Grosso pelo Decreto Federal nº 5655, de 3 de junho de 1874, cuja inspiração era motivar a colonização dos espaços vazios, ou seja, as regiões nas quais os índios foram massacrados ou expulsos.

Depois das antigas concessões de sesmarias aos amigos dos reis e das grandes ocupações dos campos paranaenses via expulsão de índios, empresas colonizadoras e grandes negociantes nacionais e estrangeiros começariam a adquirir amplos latifúndios por meio do crédito.

A lei do crédito especial estipulava que o governo poderia vender a prazo terras nessas regiões e também doar áreas na faixa de fronteira, cláusula destinada a estimular os sobreviventes à Guerra do Paraguai a participar com seu trabalho da ocupação do território.

No entanto, a regra serviu sobretudo  para estimular a formação das obrages controladas por interesses anglo-argentinos: empresas pouco dedicadas à colonização mas avidamente entregues à extração da erva-mate e da madeira.   

 

A vaca inspiradora

Adquiriu contornos de lenda um episódio ocorrido com o presidente provincial (governador) Adolfo Lamenha Lins logo ao chegar ao Paraná em maio de 1875, quando veio para substituir Frederico Abranches.

Não havia ainda iluminação pública nem mesmo em Curitiba. Ao tentar se dirigir à noite para a catedral, o governador trombou com uma vaca. Esse desagradável episódio teria sido o fator responsável pelo seu plano de iluminar a cidade com lampiões.

Nascido no Recife (PE) a 27 de junho de 1845, Lamenha Lins foi promotor público em Alagoas. Partidário da libertação dos escravos, governou o Piauí entre 1873 e 1874. Como governador do Paraná, estabeleceu núcleos de imigração nos grandes centros, sistema que, sendo adotado pelo governo imperial, deu origem às colônias Santa Cândida, Orleans, D. Pedro, Tomás Coelho, Lamenha, Santo Inácio e Riviera no Paraná.

 

Ações em família

Lamenha Lins acreditava que o estabelecimento dos imigrantes em localidades próximas às estradas carroçáveis já existentes, como a Graciosa, garantiria o êxito do núcleo colonial agrícola.

O núcleo estaria ligado, através de uma estrada secundária (a ser construída pelos próprios colonos com os subsídios do governo), a uma estrada principal que possibilitaria a circulação de mercadorias (lenha e produtos da lavoura) para o abastecimento da cidade. Linz fez experimentos nesse sentido entre Curitiba e o litoral.

Nessa época, além dos interesses estrangeiros, também eram privilegiadas ações em família. Na política, nos empreendimentos e até na aventura se encontram no Paraná sólidos arranjos familiares.

Prosseguindo de onde os irmãos Keller pararam, atrapalhados pela Guerra do Paraguai, o capitão Nestor Borba e seu irmão Telêmaco (1840−1918) partiram em 4 de dezembro de 1875 rumo ao Oeste selvagem.

Nessa viagem de reconhecimento pela região, Nestor Borba registrou em janeiro de 1876 o achamento das ruínas da Ciudad Real del Guayrá, junto à foz do Rio Piquiri. Guayrá apareceu em 1557, criada pelo capitão espanhol Ruy Diaz de Melgarejo (c.1509–c.1585).

 

Sinais do passado

Guayrá (ou Guairá) foi a região defendida ao longo de décadas pelo cacique Guairacá. A cidade espanhola foi destruída pelos bandeirantes portugueses em 1631. Dali os espanhóis se transferiram para o atual Rio Grande do Sul, onde criaram suas novas missões com os índios Guaranis catequizados que levaram do futuro Paraná.

Ainda mais importantes que os registros de Nestor Borba sobre as ruínas encontradas foram suas anotações técnicas sobre o potencial das Sete Quedas e recomendações para desenvolver o Noroeste do Paraná, mas ainda por muitos anos a região passaria ao largo dos planos do Império.

Mesmo assim, a ousada missão dos irmãos Borba ficou associada aos futuros projetos que iriam dar na hidrelétrica de Itaipu e na primeira iniciativa contemplando a necessidade de construir uma ferrovia cortando o Paraná de Leste a Oeste.

 

Mutretas e corrupção

O período inicial da formação paranaense, mais de planos que efetivação, foi também vergonhoso. Os grandes barões da terra vendiam ao governo, para fins de colonização, as piores áreas, ficando com as melhores para especulação.

Encerrando seu governo em julho de 1877, Lamenha Lins deixou marcada positivamente sua passagem pela história paranaense, que logo iria se cobrir de suspeitas de corrupção e tramoias em prejuízo dos imigrantes.

Como de hábito, o poderoso ervateiro Manoel Guimarães deu posse ao novo governador: o mineiro Joaquim Bento de Oliveira Júnior (1846–1878). Em sua gestão estourou o ruidoso caso da debandada de imigrantes russos que foram traídos pelos políticos responsáveis pela instalação dos imigrantes.

O governador foi à Assembleia da Província do Paraná ao se despedir do governo, em 7 de fevereiro de 1878, alegando que um “indivíduo de nacionalidade suíça e por nome Lucas Albert Preisswerk, declarou e reconheceu-se ser emissário argentino expressamente comissionado para seduzir os colonos russos, já acenando-lhes com vantagens extraordinárias, já procurando desacreditar o nosso País”.    

Nesse caso, segundo o governo, a evasão dos russos seria fruto de uma trama argentina e não das péssimas terras que os estrangeiros recebiam nas remotas e desassistidas colônias paranaenses.

Joaquim Bento morreu em São Paulo um mês depois de deixar o Paraná.

 

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