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Opinião História do Oeste

O esboço da Marcha para Oeste

Imperador viajava sem interesse em governar e a princesa Isabel governava mas não saía do palácio. Com isso, o projeto de uma ferrovia até Assunção foi abandonado

11/07/2021 09h35
Por: Alceu Sperança
Amazonas Marcondes ganhou do primo Jesuíno a navegação do Rio Iguaçu
Amazonas Marcondes ganhou do primo Jesuíno a navegação do Rio Iguaçu

Construir uma ferrovia rumo ao nada – o Oeste do Paraná de meados do século XIX – era uma necessidade estratégica, mas o Império em 1878 vivia o início da decadência do imperador Pedro II, que preferia viajar pelo país para ser homenageado enquanto passeava.

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Mas o entusiasmo dos áulicos não bastava para disfarçar seu cansaço e indiferença pelos assuntos de governo. No palácio imperial, quem reinava era a princesa Isabel de Bragança e Bourbon, 32 anos, casada com o nobre francês Conde d’Eu.

O Oeste do Paraná estava descartado dos planos do governo. A região se limitava aos portos controlados por argentinos e ingleses no Rio Paraná e amplas áreas de extração de erva-mate onde os trabalhadores – os mensus – eram proibidos de fixar moradia.

A ferrovia, com o traçado Paranaguá–Curitiba–Ponta Grossa–Guarapuava–Assunção, era uma proposta extremamente ambiciosa numa época em que Foz do Iguaçu e Cascavel ainda nem existiam.

Havia um imenso e despovoado sertão a vencer e por isso o projeto não passou do papel, mas lançaria os fundamentos de uma futura rodovia “transbrasiliana”, “estratégica” ou BR-277.

O sistema funcionava

O início de 1878 foi de troca geral de governo. O conservador Duque de Caxias entregava a administração do Brasil ao liberal João Lins Vieira Cansanção (1810–1906), o Visconde de Sinimbu.

Como funcionava o governo nessa época? Depois das eleições, elitistas e fraudadas, o imperador nomeava como presidente do Conselho (algo como um primeiro-ministro) um dos líderes do partido majoritário no parlamento, que ali escolhia os ministros para lhe garantir a governabilidade.

O sistema funcionava: mesmo que o governo fracassasse, era culpa dos políticos, nunca do imperador. Exercendo o Poder Moderador, ele nomeava como presidente do Conselho o líder indicado pelo partido vencedor nas eleições.

No Paraná, o governante de plantão dependia de nomeação pelo Império. Assim, com a volta dos liberais ao governo em 1878, o poder no Paraná foi concedido a Jesuíno Marcondes.

Ligado à elite política paulista e a Antônio de Sá Camargo, o Visconde Guarapuava, Marcondes foi ministro de d. Pedro II – o primeiro paranaense a exercer essa função, ainda em 1864.

Elite desprezava a indústria

Dentro ou fora do palácio regional, Marcondes governou como grande líder do Paraná dessa época até o fim do Império. Quando algum gestor era dispensado ou ia embora, ele voltava ao governo para preparar o cargo para outro indicado seu.

Em 23 de março de 1878, por exemplo, ele passou o governo ao baiano Rodrigo Otávio de Oliveira Menezes (1839–1882), que deu sequência à política de criação de colônias de imigrantes ao redor de Curitiba e no interior do Paraná, experiência bem-sucedida com Adolfo Lamenha Lins.

Menezes se incomodava com o desinteresse das elites paranaenses pelo desenvolvimento industrial. A seu ver, o Paraná possuía “riquezas as mais variadas e desejáveis”, mas vivia uma situação de “lamentável pobreza e consequente atraso”.

Mais concretamente que a fantasiosa ferrovia já se projetava o avanço ao Oeste tendo como eixo a Estrada de Mato Grosso, cujo trajeto, segundo Menezes, seria a “artéria principal do movimento comercial da Província”.

Começando no porto de Antonina, “sob a denominação de Graciosa e atravessando esta cidade dirige-se ao Rio Paraná, no extremo Oeste”.

Terra para quem se esforçasse por ela

O início da marcha para o Oeste começa em meio a discussões sobre problemas agrários que já poderiam estar resolvidos no fim do século XIX.

O empresário ponta-grossense Cândido de Almeida e Souza dirigiu nessa época proposta ao governo provincial para melhor aproveitamento das terras devolutas, criticando a única forma permitida para a aquisição de terras no Brasil: a compra.

Nos EUA, que prosperavam, o Homestead Act, de 1862, permitia a posse das terras depois de cultivá-las por cinco anos. Os escravos libertos, por sua vez, depois da Guerra Civil (1861–1865) ganhavam 40 acres de terras e uma mula.

Para Cândido de Almeida, no entanto, só ricos poderiam obter terras no Paraná, por imposição de um decreto de 1874, o que representava excluir os paranaenses e outros brasileiros pobres do acesso à terra:

– Conhecemos grande número de famílias de conduta irrepreensível que não têm um palmo de terra de seu para cultivar; vivem, como agregados, em terras alheias, ou perdem na indolência as forças e atividade que convenientemente aplicadas poderiam ser tão úteis à sua Pátria.

Marcondes: mimo ao primo

Esses argumentos não sensibilizaram o trono imperial e o presidente provincial Rodrigo Otávio Menezes, ao encerrar seu governo, devolve a gestão no final de março de 1879 ao líder Jesuíno Marcondes.

Ele voltava a assumir o governo por poucos dias, até preparar a vinda do próximo administrador nomeado, mas nesse interim fez a mediação para que um decreto imperial concedesse ao coronel Amazonas de Araújo Marcondes (1845−1924) concessão para explorar a navegação do Rio Iguaçu.

O sobrenome Marcondes explica a decisão de Jesuíno de entregar o controle do rio ao primo Amazonas, então com 34 anos.

Jesuíno Marcondes voltou a transmitir o comando provincial a mais um baiano que veio governar o Paraná: o jovem Manoel Pinto de Souza Dantas Filho (1852–1937), que assumiu em abril de 1879.

Com a ocupação do Sudoeste em pleno andamento e fortalecida pela navegação oficializada no Rio Iguaçu, em 14 de abril de 1879 é criado o Município de Palmas.

 Governo imperial não ajudava

Na virada para 1880 já estava bem debatida a proposta de fundar uma colônia militar na tríplice fronteira. A Guerra do Paraguai deu motivos estratégicos suficientes à iniciativa e a crescente presença britânica, a partir da Argentina, foi um excelente motivo adicional.

Aliás, a Lei 601, de 18 de setembro de 1850, bem anterior à guerra, assim como sua regulamentação, de 30 de janeiro de 1854, já dispunham que “dentro da zona de dez léguas contíguas aos limites do Império com países estrangeiros e em terras devolutas, que o governo pretende povoar, estabelecer-se-ão Colônias Militares”.

Mas esse projeto não se concretizou no governo provincial de Manoel Dantas Filho, que logo foi embora, em agosto de 1880, passando o João José Pedrosa (1844–1882).

Como um político em eterna campanha eleitoral, em 1880 o imperador Pedro II continuava obcecado em viajar. Vindo ao Paraná para uma inauguração, a caravana do imperador viajou 600 km levando uma claque para puxar os gritos de aplausos.

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Alceu Sperança
Sobre Alceu Sperança
Jornalista e escritor.
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