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Opinião História do Oeste

Surge com Abreu o novo Paraná

O exemplo de uma escritora argentina que deu valor às Cataratas e o admirável planejamento de um técnico insuperável

22/08/2021 às 10h13
Por: Alceu Sperança
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Victória Aguirre e as Cataratas do Iguaçu que ela valorizou
Victória Aguirre e as Cataratas do Iguaçu que ela valorizou

No fim do século XIX, enquanto o governo tentava fortalecer a brasilidade no interior, do outro lado da fronteira vinha uma importante lição aos paranaenses e ao Brasil, trazida pela escritora portenha Victória Aguirre Anchorena (1860–1927).

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Sobrinha do famoso pintor Prilidiano Pueyrredón (1823−1870), Victória Aguirre foi precursora, por sua ação cultural e beneficente, das mais importantes personagens femininas de uma nação que a partir dela teria como ícones a pampiana Evita Perón (1919−1952) e as Mães da Plaza de Mayo.

Em 1898 ela participava da primeira caravana de visitação turística às Cataratas do Iguaçu. Aos 38 anos, Victória Aguirre já era uma expressão importante em seu país. A escritora ficou inconformada por não haver uma boa estrada até os maravilhosos saltos.

Foi assim que ela tomou a decisão de patrocinar a construção de uma rodovia para permitir o acesso de turistas de todo o mundo às Cataratas.

A empresa argentina Nuñes y Gibaja, que também operava no Brasil, entrou com mais dinheiro, máquinas e pessoal para concluir a obra, que era de seu interesse. A estrada permitiria fácil acesso ao hotel que a empresa mantinha no lado platino das Cataratas.

O nome da escritora benemérita do turismo foi escolhido pelas autoridades argentinas para batizar o porto localizado na tríplice fronteira – Puerto Aguirre –, que viria dar origem à atual cidade de Puerto Iguazu.

Mais que São Paulo

Nas eleições presidenciais de 1898 vão às urnas 462 mil eleitores, delas saindo o segundo presidente civil da República: o rico fazendeiro paulista Manuel Ferraz de Campos Sales (1841−1913).

Cândido Ferreira de Abreu, o supersecretário estadual dos Negócios de Viação, Obras Públicas e Colonização do Paraná, assumiria, nesse período de entra-e-sai de governantes, um papel decisivo de comando no processo de interiorização administrativa do Estado.

São Paulo, por exemplo, oferecia aos imigrantes a oportunidade de ser mão-de-obra substituta para os escravos, mas Abreu queria lhes oferecer algo bem mais sugestivo: não só um emprego temporário, a cada safra, mas a oportunidade de enriquecer.

Nos últimos meses do século XIX, Abreu vinha de uma gestão magnífica à frente da Prefeitura de Curitiba e daria também uma importante contribuição ao Estado do Paraná, estabelecendo uma forma inteligente de atrair ao Paraná os imigrantes mais bem preparados e ambiciosos.

No comando das áreas mais importantes na administração do Paraná de então – estradas, obras públicas e colonização −, Cândido de Abreu oferecia aos imigrantes a oportunidade que jamais conseguiriam se mantendo na condição de mão-de-obra barata a serviço dos poderosos cafeicultores paulistas e seu “sistema egoísta de colonização”.

Ganham aqui, gastam lá

“Ao viajante observador não escapará, por certo, a enorme quantidade de colonos que regressam à Pátria, depois de na safra do café terem adquirido um insignificante pecúlio” (Cândido de Abreu, em Relatórios da Secretaria de Negócios de Viação, Obras Públicas e Colonização do Estado do Paraná, 1899).

Gastando em seu país o pouco que recebiam, os imigrantes retornavam a São Paulo para a safra seguinte, recorrendo às passagens pagas pelos fazendeiros no porto de embarque.

“Estou convencido que o colono retira-se de São Paulo e vai despender longe dali o que ganhou, porque não encontra terra para adquirir e estabelecer-se”, afirmava o secretário.

É a partir daí que os imigrantes, que já manifestavam sensação de progresso na capital, começam a ter essa mesma perspectiva no interior. Assim, é na esteira da política de enriquecer imigrantes formulada por Abreu que os primeiros habitantes de Irati chegam, em 1899.

Explica-se nesse ânimo pela colonização do interior paranaense porque os estrangeiros que iniciaram no centro do Paraná o povoamento de Reserva (franceses, depois eslavos) deram à sua colônia o nome de Cândido de Abreu, hoje sede de um tradicional município paranaense.

Ferrovia, eterno projeto

As ferrovias também figuram com destaque nos planos de Abreu para integrar o Paraná de Norte a Sul, Leste a Oeste. Na trilha dessa estratégia, Timóteo de Souza Feijó, em abril de 1899, recebe concessão para construir uma ferrovia ligando Guarapuava às Sete Quedas.

O governo consegue no Congresso Legislativo do Paraná autorização a Feijó para construir uma estrada que teria 30 metros de largura, dos quais os 15 metros do centro limpos e destocados.

A estrada de ferro que se pretende construir no centro dessa estrada partiria de Guarapuava, seguindo até a foz do Rio Ivaí e daí às Sete Quedas, percorrendo a região entre os rios Piquiri e Ivaí, pelo divisor de águas dos dois vales. Um bom projeto que seus sucessores não levaram adiante.

Os trilhos se desenvolviam só no sentido Norte-Sul. Começa a operar com oficinas de manutenção a estação da Estrada de Ferro São Paulo−Rio Grande em Ponta Grossa, dando impulso à colonização do Centro-Sul do Paraná.

Nos últimos instantes do século XIX o Estado também já começava a se destacar na produção industrial de madeira. Suas 64 serrarias apresentavam um volume de produção suficiente para assumir uma ainda modesta mas já honrosa quarta posição na receita do Estado.

O novo século

1900. Começa o século XX, em que o Paraná assumirá uma posição de destaque entre os estados mais importantes do País. Deixará de ser apenas uma sombra paulista para ter sua própria identidade.

É assim que, ansiosos pela riqueza oferecida pelo secretário Cândido de Abreu, os imigrantes chegam maciçamente, agora vindos principalmente da Itália.

O censo de 1900 revela um Brasil de 17,3 milhões de habitantes, 74% dos quais analfabetos e com uma expectativa de vida de 33,7 anos. O Paraná estava com ainda escassos 327.136 habitantes.

O interior também revela dinamismo e vitalidade nesse início de século. Para evitar esta sangria e os demais problemas que ameaçavam a indústria ervateira, Vicente Machado, com sua liderança de ex-governador, parlamentar e em vias de novamente retornar ao governo, propõe uma polêmica medida, que vai sacudir a economia sul-americana.

O estabelecimento do monopólio estatal da erva-mate defendido por Machado iria detonar uma reação furiosa entre os interesses anglo-argentinos solidamente estabelecidos nas barrancas do Rio Paraná.

Estratégias das obrages

Em represália à proposta de Vicente Machado, a companhia Nuñes y Gibaja transferiu seu trabalho de exploração com a madeira para o lado argentino das Cataratas do Iguaçu.

Com isso, o monopólio estatal da erva-mate provocou uma consequência inicialmente não calculada pelas lideranças paranaenses. Obrigou os interesses privados que ganhavam muito com a exploração desimpedida do mate a aumentar sua aposta na extração da madeira para compensar as perdas.

Foi a partir daí que a empresa Nuñes y Gibaja se tornou a principal divulgadora da beleza das Cataratas do Iguaçu, praticamente iniciando a exploração comercial do turismo na região.

Mas o obragero franco-argentino Domingo Barthe preferiu um caminho bem diferente: a parceria com brasileiros influentes. Ele iria se aliar ao coronel Manoel José da Costa Lisboa na aquisição de uma área que no futuro seria muito cobiçada e objeto de interesse para grileiros e posseiros.

É um título provisório que assegurava direito a 10 mil hectares de terras devolutas comprados nas áreas de Entre Rios, Paz e Tormenta, então situados na porção Oeste do município de Guarapuava, que se estendia até o Rio Paraná.

 

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