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Opinião História do Oeste

Pandemia, luto e presidente louco

Há um século, a gripe espanhola matava o presidente eleito. O novo presidente foi considerado louco e a crise tomou conta do país

17/10/2021 às 19h21
Por: Alceu Sperança
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Há um século, pessoas usando máscaras para se proteger da pandemia. O presidente Rodrigues Alves morreu e o novo presidente, Delfim Moreira, ficou louco
Há um século, pessoas usando máscaras para se proteger da pandemia. O presidente Rodrigues Alves morreu e o novo presidente, Delfim Moreira, ficou louco

Em 1917 ainda não se dava importância alguma à Encruzilhada dos Gomes, futura Cascavel, então apenas um ponto de passagem de ervateiros. Antes que a cidade de Cascavel brotasse ainda viriam duas revoluções.

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A Encruzilhada resultou da estrada ervateira aberta em 1895 pela família do coronel Augusto Gomes de Oliveira, ligando Catanduvas a Lopeí. Por isso, “dos Gomes”.

Mais próximo dos antigos traçados estava o pouso tropeiro do Rio Cascavel, também cortado pela estrada dos Gomes, que para construí-la receberam cinco mil alqueires de terras em pagamento, a serviço da obrage Nuñez y Gibaja.

A Rodovia Estratégica, que em breve iria passar pela Encruzilhada dos Gomes em um novo traçado, encontrava-se no mais completo abandono, não oferecendo condições nem mesmo ao tráfego de carroças. Eram tempos, definitivamente, muito ruins.

O engenheiro Francisco Natel de Camargo começou as obras da Estratégica em Guarapuava e seguiu em direção à Colônia Mallet (futura Laranjeiras do Sul), onde já havia um pequeno povoado, com estação telegráfica e alguns estabelecimentos comerciais. “Se desmatava e após era feito o corte, serviço de terra que sofria alargamento do antigo leito a força de chibanca, a pé, a razão de 560 réis o quilômetro” (Sandálio dos Santos, Memórias).

 

Novos traçados

Alcançaram Catanduvas rapidamente, já que a estrada inicial havia estacionado ali. Agora o trabalho seria bem mais difícil: não se tratava mais de reabrir uma estrada abandonada, mas de abrir a nova rodovia, justamente quando começava o terreno mais acidentado e difícil, com diversos rios e ribeirões.

A partir de Rio do Salto, os construtores aproveitam restos de uma antiga picada tropeira. Daí, sob a supervisão do engenheiro Moisés de Marcondes, os trabalhos seguem até a abertura da Picada do Benjamim (Boa Vista, mais tarde Céu Azul).

Em Boa Vista, a estrada se une à linha telegráfica, levantada em 1906. Nesse ponto, os serviços de construção passam à direção do prefeito de Foz do Iguaçu, coronel Jorge Schimmelpfeng, cuja turma de trabalho partira da fronteira abrindo seu caminho carroçável.

Ao se encontrar, as duas turmas completam a ligação rodoviária do litoral à fronteira. Em breve os caminhões e os automóveis estariam fazendo todo esse percurso. Tantos detalhes se tornaram possíveis por ter sido registrados por Alípio de Souza Leal (1889–1974), que trabalhou como feitor na equipe de Natel de Camargo. 

Segundo ele, na construção da rodovia a partir de Foz do Iguaçu até Boa Vista o traçado foi bastante modificado. O primeiro, herança dos militares, cortava todos os afluentes do Rio Iguaçu, tornando as viagens bastante penosas. Não raro os viajantes eram obrigados a acampar junto a atoleiros.

O novo trajeto foi projetado em função do divisor de águas e é praticamente o mesmo da atual BR-277.

 

Navegação toda estrangeira

A Argentina investia firme na navegação do Rio Paraná, chegando a promover até a drenagem no leito para a passagem de navios de maior calado.

Ao Norte de Foz do Iguaçu, o Rio Paraná tinha vários portos: Bela Vista, de Hygino Alegre; Sol de Maio, de Juan Cafferata; Santa Helena, de Domingo Barthe; Jejuy, de Eugenio Cafferata; Felicidade, Britânia e Rio Branco, da Fazenda Britânia; São Francisco, de Nuñez y Gibaja; Artaza, de Julio Allica; e Mendes, da Empresa Mate Laranjeira.

“Todos esses portos são abastecidos pela Argentina com os seus navios. Uma navegação nacional seria recebida ali com grande satisfação dos nossos patrícios que dia a dia se sentem mais afastados da comunhão nacional” (Júlio Nogueira, Do Rio ao Iguassu e ao Guayra).

Nessa época, Pato Branco passa a se destacar no mapa do Paraná com a formação de sua Colônia Nacional, oficializada em maio de 1918. É o Sudoeste que se desenha como região após o trauma do Contestado.

O governo do Paraná também desdobra sua política para o interior e celebra com estardalhaço, em 8 de setembro de 1918, um acordo com a Companhia de Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande para a construção da ansiada via férrea entre Ponta Grossa e Guarapuava, com prolongamento previsto até Foz do Iguaçu.

 

Famílias inteiras doentes

A extensão jamais passou do papel aos trilhos porque a obra sequer seria iniciada: todos os trabalhos de construção de estradas foram prejudicados pela Gripe Espanhola, que atacou o Paraná com força.

“Foi enorme a mortalidade, pois não havia assistência médica. Em diversas casas ficaram todos acamados, sem ter quem pudesse alcançar ao menos água para mitigar a sede” (José Bischoff, Sombras do Passado).

Famílias inteiras sucumbiam ao mal. A peste mostrou com especial agressividade a tremenda escassez de recursos médicos com que os pioneiros trabalhavam no eixo Guarapuava−Foz do Iguaçu.

Apesar da epidemia, a companhia Alegretti se dispôs a levar adiante seu projeto de colonização às margens do Rio Paraná. A rigor, era mais necessidade que ousadia. Na época, a colonização da Serra Gaúcha alcançava um ponto de saturação, como Jorge Schimmelpfeng já havia previsto.

Colonos de Antônio Prado, Guaporé, Bento Gonçalves e Caxias do Sul começavam sua marcha rumo às terras do Norte, muitos deles se dirigindo, inicialmente, ao Norte do próprio Rio Grande do Sul, depois a Santa Catarina e em seguida ao Paraná.

 

Problemas sociais, greves e revoluções

O ex-presidente Rodrigues Alves é reeleito para seu segundo mandato em 1º de março de 1918 quase por unanimidade: 386.467 votos contra reduzidos 1.258 votos obtidos pelo também ex-presidente Nilo Peçanha.

A consagradora reeleição deveria se completar com a posse, em 15 de novembro, mas Alves também é acometido pela Gripe Espanhola. Quem toma posse interinamente é o mineiro Delfim Moreira (1868−1920), seu vice-presidente.

Moreira, contudo, também está doente. Apático, não dá conta das tarefas de governo, exercido na prática pelo ministro Afrânio de Melo Franco (1870−1943), também mineiro. Tido por louco, terá um governo curto e desastroso.

Agravam-se os problemas sociais e em resposta eclodem greves por todo o País. O mundo em geral vive rápidas mudanças e a rendição da Alemanha, em novembro de 1918, começa a pôr um fim na I Guerra Mundial.

Com a guerra e depois dela, a expansão do capitalismo para o interior do Brasil terá um grande salto com a procura pela madeira necessária à reconstrução do Velho Mundo em ruínas.

“Subiu vertiginosamente o volume das nossas exportações, além de que produtos até então praticamente desprezados foram utilizados para satisfazer a fome de matérias-primas dos beligerantes. (...) fornecemos a ambos os bandos em luta e em quantidades muito maiores o teríamos feito, não fosse tão precária nossa rede de transportes internos” (Limeira Tejo, Retrato Sincero do Brasil).

 

Presidente ganhou sem campanha eleitoral

Para cobrir de luto esse período tão difícil, Rodrigues Alves, o presidente reeleito com uma das votações mais extraordinárias de todos os tempos, não poderá exercer um só dia de seu segundo mandato, morrendo em 16 de janeiro de 1919.

A lei determinava a convocação de novas eleições presidenciais, realizadas em 13 de abril. Um novo fenômeno ocorre e será o único do gênero em toda a história.

O candidato paraibano Epitácio Pessoa (1865−1942) estava ausente do país. A serviço do governo, participava na França da Conferência de Versalhes; Sem sequer voltar ao país para fazer campanha, Pessoa derrotou o célebre baiano Rui Barbosa por 286.373 votos a 116.414.

Vencer a eleição presidencial sem sair da Europa nem fazer campanha eleitoral foi fácil. Difícil seria governar um País em processo de crescente rebeldia militar e popular contra os maus costumes políticos.

O tenentismo surge então como poderosa força dinâmica na sociedade brasileira no momento em que o desenvolvimento industrial produzia um movimento sindical aguerrido.

O País começava a viver um clima pré-revolucionário, sentindo a influência das mudanças que ocorriam na Europa no pós-I Guerra.

 

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