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Cultura História do Oeste

Estrada Boiadeira e militares rebeldes

Nos anos 1920, o esforço estadual para dotar o interior de infraestrutura de transportes, o avanço da colonização e o tenentismo

07/11/2021 às 09h24
Por: Alceu Sperança
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Lord Lovat veio ao Brasil cobrar dívida e estendeu o domínio inglês por um terço do Paraná
Lord Lovat veio ao Brasil cobrar dívida e estendeu o domínio inglês por um terço do Paraná

Fazendo levantamentos topográficos de toda a área, a Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco) estabelece em 1920 a posse sobre as terras. Ficam de fora as glebas ainda incorporadas ao patrimônio da Companhia Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande e que se destinam teoricamente à construção da Estrada de Ferro Oeste do Paraná.

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Também se excluem os latifúndios dominados pelas obrages Domingo Barthe, Nuñes y Gibaja, Maderas del Alto Paraná, Julio T. Allica e Matte Laranjeira.

Os colonos que chegam a essas terras liberadas nos anos seguintes começam a se fixar ao longo da Estrada Estratégica e já não são mais apenas os estrangeiros transplantados de seus países.

São principalmente filhos daqueles que chegaram ao Sul nos anos finais do século XIX, então no processo de povoar vazios demográficos e criar uma agricultura de abastecimento.

Ao contrário das fantasiosas teses que consideram esse um fenômeno espontâneo, as autoridades estaduais desde o início da República procuram estimular a colonização com “imigrantes que tenham certo capital, fundando cooperativas e empresas agrícolas”, segundo a historiadora Oksana Boruszenko.

 

Alcançando Campo Mourão

A falha do governo foi confiar que as colonizadoras plantariam a infraestrutura necessária. Por sua vez, as empresas traziam os colonos confiando que a pressão social faria a autoridade estadual entrar em ação para dotar a região da infraestrutura necessária.

Nessa época, Manoel Mendes de Camargo leva adiante as obras da Estrada Boiadeira, que avança de Pitanga a Campo Mourão por um traçado próprio. A partir daí o empreiteiro seguiu os termos do contrato firmado com o governador Affonso Alves de Camargo: seguir até o Porto Xavier da Silva, no Rio Paraná, aproveitando o traçado seguido pelos antigos construtores – Colle, Weiss & Cia.

A inauguração da Estrada Boiadeira se dá em 1921, com a passagem das primeiras tropas de mulas vindas do Rio Grande do Sul e, em sentido contrário, de uma tropa de bois trazida do Mato Grosso pelo próprio construtor Mendes de Camargo.

 

Encruzilhada dos Gomes entra na história

No Médio-Oeste, Antônio José Elias (1869–1944) adquire uma área do projeto Braviaco e começa suas atividades rurais nos arredores da Encruzilhada dos Gomes, onde no futuro começará a se formar a cidade de Cascavel.

O ano de 1922, além dos avanços ferroviários, marcou uma reviravolta na política de atração de imigrantes, que até então havia sido a menina dos olhos dos governantes paranaenses. Caetano Munhoz da Rocha decidiu que não valia a pena investir na atração de imigrantes. Manifestou-se “contrário em principio à imigração estipendiada pelos cofres públicos”:

− Não acho justo nem razoável que se gaste com o estrangeiro o que poderia ser aplicado em escolas e estradas, em benefício dos nacionais, os verdadeiros povoadores e desbravadores dos nossos sertões (...).

Rocha optou por apoiar “toda a iniciativa particular para povoamento do nosso extenso e rico território já fazendo concessões de acordo com a lei nº 1.642 de 1916, já facilitando a demarcação de lotes para os nacionais ou estrangeiros que os requerem diretamente”.

 

Censura à imprensa e banqueiros exigentes

Hitler se sentiria à vontade no Brasil. Ele foi preso na Europa, mas o senador paulista Adolfo Gordo (1858−1929) dava nome à lei aprovada para impor censura à imprensa brasileira. É neste cenário que lorde Edwin Montagu (1879−1924), ex-secretário do Tesouro da Inglaterra, chega ao Brasil no fim de 1923 para monitorar as contas nacionais.

Acompanhado por Charles Addis (1861−1945), diretor do Banco da Inglaterra e presidente do Hong-Kong and Shangai Banking (HSBC), Montagu traz um personagem que em breve será decisivo no desenvolvimento capitalista no Paraná − Simon Joseph Fraser (1871–1933), o Lorde Lovat. Agrônomo e diretor da Sudan Cotton Plantations Syndicate, Lorde Lovat queria produzir aqui o algodão que a indústria têxtil inglesa pagava caro para importar em larga escala.

 A intenção era transformar parte da volumosa dívida brasileira em terras. Nelas, sua empresa produziria o algodão pretendido. É a dívida nacional, portanto, que traz a principal colonizadora do Norte do Paraná.

 

Maus conselhos ao presidente

Os agentes ingleses da Missão Montagu aconselharam o presidente Bernardes no início de 1924 a demitir em massa, privatizar o Banco do Brasil e eliminar as aposentadorias. Com o governo pautado pelos interesses britânicos, aumenta o desagrado dos operários e dos militares.

Lorde Lovat, um dos membros da Missão Montagu, começa 1924 visitando no Paraná o major Barbosa Ferraz, latifundiário paulista que reinava no Norte Pioneiro.

Em companhia do engenheiro Gastão de Mesquita Filho e do prefeito de Jacarezinho, o campineiro Willie Davids (1893−1944), Lovat veio conhecer a região de Cambará, onde o café já florescia e ele ambicionava obter amplas áreas para plantar algodão.

Mesmo sabendo dessa firme intenção do visitante inglês, o habilidoso Mesquita deu corda a Lovat durante um jogo de bilhar. Alimentava o propósito de convencê-lo a desenvolver outro negócio: criar infraestrutura para agregar valor a terras que seriam de grande proveito com vias de escoamento para a produção agrícola.

 

Tacada certa de Mesquita

Sobre a mesa de bilhar de Barbosa Ferraz, Mesquita abriu um mapa e mostrou ao lorde inglês o traçado dos primeiros quilômetros de ferrovia em construção. Ela seria, como no sonho de André Rebouças desprezado pelo imperador d. Pedro II, a espinha dorsal de um ambicioso plano de colonização:

“Nada mais era do que o Traçado Cincinato Braga (1864−1953, parlamentar paulista), de ligação com o Paraguai, que anos antes havia sido proposto no Congresso e que não chegara a ser aprovado, embora fosse muito mais conveniente procurar atingir esse país via Cambará e Guaíra. Ao expor o plano eu ia desvendando a Lovat a possibilidade de obter lucros e ao mesmo tempo servir ao País através da abertura da estrada de ferro e da concomitante colonização nacional das terras por elas cortadas” (Mesquita Filho, citado em Colonização e Desenvolvimento do Norte do Paraná, Rubens Rodrigues dos Santos et alia).

Na cena política nacional, os militares rebeldes exigiam que o governo Bernardes instituísse o voto secreto. Pediam a descentralização do poder, moralização e independência do Legislativo, obrigatoriedade do ensino primário e qualificação profissional para os trabalhadores.

Uma pauta nada revolucionária, afinal. Mas para as forças retrógradas que apoiavam o governo era inaceitável e merecia ser tratada com muita violência. E bombas.

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