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Cultura História do Oeste

Governo incapaz, militares em ação

Começava em julho de 1924 a principal rebelião tenentista, movimento revolucionário que ocupou o Oeste do Paraná por sete meses

14/11/2021 às 08h50
Por: Alceu Sperança
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Revolucionários paulistas na Serra do Medeiros, em 1924
Revolucionários paulistas na Serra do Medeiros, em 1924

O primeiro semestre de 1924 foi de pressões militares, respondidas pelo governo com indiferença. Frente ao descaso do governo e o agravamento da situação social, os rebeldes decidem tomar o poder. O tenentismo se insere em definitivo na história do Brasil.

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Os primeiros tiros são disparados na madrugada de 5 de julho de 1924. Os 3.500 revolucionários rebeldes em armas que tomam São Paulo serão logo implacavelmente cercados por 14 mil homens das forças legalistas.

As tropas do governo bombardeiam fortemente a capital paulista. O arcebispo d. Duarte Leopoldo e Silva (1867−1930) pede em vão ao presidente Arthur Bernardes que pare de jogar bombas contra São Paulo.

Em 11 de julho são contados cerca de 1.800 prédios destruídos, 503 mortos e 4.876 feridos. Enquanto o Exército retoma o controle de São Paulo e faz dez mil prisões, os rebeldes fogem rumo ao Oeste.

Em Bela Vista, fracassa o levante para tomar o Estado de Mato Grosso, que ainda incorporava o atual MS. Seguem-se levantes em todo o País. Em Curitiba não havia condições políticas, mas no interior do Paraná havia simpatia pelos rebeldes, o que explica a fácil ocupação do Oeste e a permanência dos revolucionários na região por sete meses.

Exploração estrangeira

Nos meses anteriores à fuga dos soldados rebeldes paulistas rumo ao Mato Grosso, nos domínios estrangeiros do Oeste também havia notícias de revoltas.

Eram crescentes os atritos entre os empregados do “imperador da fronteira”, Júlio T. Allica, submetidos a um regime de semiescravidão, e o exército particular desse latifúndio – as comissiones. Os acontecimentos nacionais, progressivamente dramáticos, logo irão também ameaçar seus interesses na região.

O governo federal tomara algum tempo antes dos eventos revolucionários a iniciativa de determinar a construção de um ramal telegráfico de Lopeí a Porto São Francisco.

A obra, de 51 quilômetros, chegou a ser iniciada, mas logo foi interrompida. Com a eclosão do levante armado em São Paulo e a iminência do avanço das tropas revolucionárias sobre a região, veio a ordem de retomar os trabalhos em ritmo acelerado.

O posto telefônico do entreposto ervateiro de Lopeí, que depois será a origem dos Correios em Cascavel, inicia operações, incluindo telégrafo, em 9 de setembro.

À espera de Prestes

O comando revolucionário procura se instalar no Mato Grosso com a intenção de prolongar a luta e assim permitir às tropas que viriam do Rio Grande do Sul em apoio – a base da futura Coluna Prestes – somar-se aos contingentes paulistas na tentativa de virar o jogo contra as forças legalistas.

A coluna paulista, contida pelas tropas governistas, é empurrada para o Sul. Vai tomar os portos do Rio Paraná, inclusive Foz do Iguaçu, enquanto parte das forças se deslocará de Guaíra, pela região de Cascavel, cuja cidade ainda não existia – só começará a se formar em março de 1930 –, para resistir às forças governistas enquanto aguarda a coluna gaúcha.

A estratégia dos sublevados se tornaria vitoriosa – ou teria possibilidades para tal – não fosse a fidelidade do presidente (governador) paranaense, Caetano Munhoz da Rocha, ao governo da União.

No final de fevereiro de 1924, Caetano Munhoz da Rocha inicia um novo mandato no governo do Paraná, que ficará ainda mais seis anos nas mãos da oligarquia Camargo−Munhoz.

Caetano trazia como vice-governador o ex-deputado Marins Alves de Camargo (1882−1962), irmão de seu antecessor (e posteriormente sucessor), Affonso Alves de Camargo. João Moreira Garcez, igualmente, tem o mandato renovado por mais quatro anos como prefeito de Curitiba.

Moeda brasileira sem valor

No interior, além da expansão da cafeicultura ao Norte, Miguel Matte, com capital argentino, constitui a Companhia Florestal do Paraná, tendo facilidades para adquirir glebas junto à antiga Colônia Militar do Iguaçu. Tinha o compromisso de colonizar assumido em contrato firmado com o governo paranaense.

Em Foz do Iguaçu, a Prefeitura tentava superar a forte presença estrangeira na região emitindo sua própria moeda. Era uma espécie de vale de pagamento que, a exemplo do carcomido dinheiro brasileiro, não tinha crédito junto à população.

“Ninguém o recebia. As próprias instituições brasileiras, como o correio, a prefeitura ou a receita, quando precisavam remeter a verba respectiva para Curitiba, enviavam, inicialmente, o peso argentino recolhido dos contribuintes ou usuários para o consulado brasileiro em Posadas. Ali, o consulado brasileiro convertia o peso para moeda brasileira, para em seguida ser o mesmo remetido para Curitiba” (Ruy Christovam Wachowicz, Obrageros, Mensus e Colonos).

Primeira unidade motorizada das forças terrestres brasileiras, a coluna organizada por Dilermando recebeu o nome de Regimento Provisório de Cavalaria. Foi composta por efetivos da Força Militar do Paraná e civis cedidos pela Brazil Railway Co, empresa do estadunidense Percival Farquhar.

Provisório e improvisado

O RPC era formado por 60 homens, 38 veículos e uma centena de cavalos. Concentrando voluntários em Ponta Grossa, o contingente chegou a cerca de 150 homens somando os militares com os civis em armas.

Deslocando-se no leito da Estrada Estratégica, o RPC deixou a cidade às 6h da manhã do dia 27 de julho, precedido por um destacamento de segurança. O Regimento vai inicialmente a Catanduvas e daí a Santa Tereza, na época um depósito da Companhia Domingos Barthe. Desloca-se até a Picada do Benjamin (Céu Azul), de onde seguiria aos portos do Noroeste.

Naquela mesma data, os 3.500 revolucionários comandados por Isidoro Dias Lopes (1865−1949) e Miguel Costa (1885−1959) abandonam São Paulo, que controlavam desde o 5 de julho, e rumam para Oeste, com apoio dos ferroviários.

Por sua vez, chegando a Santa Helena em 2 de agosto, o RCP se desloca pela estrada de ferro da Companhia Matte Laranjeira rumo a Guaíra, onde se instalou dois dias depois, recebendo reforço de 23 homens do destacamento policial de Foz do Iguaçu, sob o comando do tenente Artur Borges Maciel.

Os legalistas foram ao rio Paraná com a missão de castigar os rebeldes e saíram tosquiados: logo perderiam posições, portos e até a ferrovia. Como os revolucionários não conseguiram se instalar no Mato Grosso, decidiram optar pelos caminhos fluviais do Sul.

Agiram rápido e bem. Os 500 homens da linha de vanguarda sob o comando do coronel João Francisco apresaram cinco navios da Companhia de Navegação São Paulo–Mato Grosso e ocuparam os portos paulistas nos quais as forças de Dilermando haviam estabelecido posições defensivas.

 Vitórias rebeldes

A primeira unidade motorizada do Exército brasileiro, portanto, apresentou um final infeliz. Os revolucionários ainda se mostravam superiores nos combates. Os dois lados aprenderam muito com as manobras no Oeste paranaense, porém.

Depois elas seriam minuciosamente estudadas nas escolas militares. Em 14 de setembro, frustrado o movimento preventivo das suas forças em Guaíra, Dilermando Cândido de Assis determina a retirada do Regimento Provisório de Cavalaria.

No dia seguinte os soldados revolucionários ocupam os portos São Francisco e Mendes. Porto Britânia cai no dia 19. Uma patrulha chefiada por Juarez Távora (1898–1975) toma Foz do Iguaçu em 24 de setembro. A esperança dos rebeldes agora está no avanço da coluna que virá do Sul.

Em 28 de outubro, jovens oficiais do 1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo (RS) se rebelam. No dia seguinte os soldados gaúchos, ao comando do capitão Luiz Carlos Prestes (1898−1990), já estão em marcha rumo ao Paraná. Aqui, entretanto, a força revolucionária paulista, dividida em duas, com parte em Foz do Iguaçu e a outra entre os sertões do Médio-Oeste e do Sudoeste, era severamente fustigada pelos governistas. Os primeiros choques frontais se dão no feriado republicano de 15 de novembro, na Serra do Medeiros.

 

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