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Cultura História do Oeste

Revolução veio para acabar com a corrupção

Mas ao não punir ninguém passou um atestado de probidade ao governo anterior e aderiu aos métodos da “velha política”

26/12/2021 às 09h21
Por: Alceu Sperança
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Mário Tourinho caiu enredado em tramas políticas, mas em seu governo surgiu Cascavel, vila que o sobrinho Luiz Carlos propôs em 1943 como capital do Território Federal do Iguaçu
Mário Tourinho caiu enredado em tramas políticas, mas em seu governo surgiu Cascavel, vila que o sobrinho Luiz Carlos propôs em 1943 como capital do Território Federal do Iguaçu

O general Mário Alves Tourinho era muito respeitado. Cursando a Escola de Tiro do Realengo (RJ), logo ao ingressar na vida militar esteve presente na proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

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Servente de metralhadora, participou da resistência na Lapa sob o comando do general Carneiro. Atuou na campanha militar do Contestado. Em 1924 fez o cerco aos rebeldes em São Paulo.

Depois dessa longa e exitosa carreira militar, pediu reforma em 1928 e foi surpreendido em seu “pijama” pela revolução de 1930, da qual um dos mais dedicados articuladores foi o irmão Plínio.

O governo lhe veio como um presente em família. Nunca havia pensado em exercer qualquer função política e também não tinha ideia de como governar, mas para honrar a indicação mergulhou no estudo das finanças do Estado.

O general Tourinho era um paranista. Logo no início de seu governo como interventor do Estado em outubro de 1930, porém, iria se confrontar com a proposta, que ele rejeitava, de transformar as regiões Oeste e Sudoeste em extensão territorial do Rio Grande do Sul.

O Paraná já havia perdido a metade da região contestada para Santa Catarina. Não aceitaria perder as regiões Oeste e Sudoeste para um território federal que retiraria sua autoridade sobre duas regiões ricas e promissoras.

 

Tropas em movimento

A revolução precisava sufocar qualquer força favorável ao governo destituído. Já com terreno livre, as tropas gaúchas avançam pelo Paraná e chegam a Ponta Grossa.

O 5º Regimento de Cavalaria Divisionária, sediado em Castro, permanecia fiel ao governo e ao recuar em direção a São Paulo destruiu trechos da ferrovia e danificou pontes.

Os governistas não tornariam fácil a ascensão dos revolucionários.  Concentram forças em Itararé (SP), junto à divisa com o Paraná, para impedir seu avanço. Militares e policiais paranaenses rebeldes se deslocam rapidamente para lá e logo serão seguidos pelos gaúchos.

A vanguarda sulista de Miguel Costa (1874–1959) chega no dia 7 de outubro a Ponta Grossa, seguindo de imediato para Castro. Em Jaguariaíva alcança o Norte Pioneiro aproveitando o ramal ferroviário do Paranapanema.

“A gauchada estava sequiosa para combater e não admitia que tivesse seguido na frente um batalhão do 13º R.I. (força militar paranaense). Eram trezentos homens bem fardados e bem armados” (Alcebíades Miranda, Justitia Vanum Verbum: Episódios da Revolução de 1930).

 

Vencer não foi fácil

A crença de que a revolução de 1930 se deu sem resistência é falsa. Além de escaramuças no Norte Pioneiro (Sengés) e do bloqueio no Vale do Ribeira, para onde seguiram outras forças de Curitiba, havia a forte concentração governista em Itararé.

“A batalha aí travada teve características aparentemente modernas, com trincheiras em toda a frente de combate, arame farpado, ninhos de metralhadoras e artilharia” (Jordan Young, Aspectos Militares da Revolução de 1930).

A operação consistia, no caso de não vencer em Itararé, tomar Bauru para juntar com as forças vindas via Minas Gerais e então fechar sobre o Rio de Janeiro, liquidando a partida.

Em Quatiguá, próximo aos limites com o Estado de São Paulo, aconteceriam os combates mais violentos da revolução de 1930. A batalha prevista para acontecer em Itararé (SP) será travada em território paranaense.

 

O golpe final

Entre os dias 11 e 13 de outubro, as tropas governistas, vindas de São Paulo, enfrentaram os revolucionários paranaenses, reforçados por uma coluna gaúcha ansiosa para dar o troco pela derrota sofrida em 1924.

“O tiroteio cerrou nas suas linhas. Era formidável a sua potência de fogo! As suas metralhadoras pesadas em rajadas sucessivas metralhavam o pequeno lugarejo, completamente aberto, constituído de poucas casas, distanciadas umas das outras” (Wanderley Verás, O Combate de Quatiguá).

A tropa legalista é derrotada e se retira do Paraná destruindo as facilidades para travessia do Rio Paranapanema, como a ponte ferroviária da Viação São Paulo-Paraná. A ponte pênsil rodoviária Manoel Alves de Lima, em Ribeirão Claro, foi danificada com dinamite para bloquear a progressão das forças do Sul.

Seriam os últimos esforços dos militares ainda fiéis ao governo para tentar impedir o inevitável: em 24 de outubro, no Rio de Janeiro, Exército e Marinha desfecham um golpe de Estado e prendem o presidente Washington Luís (1869–1957), seguindo-se negociações pacíficas até a vitória final da revolução.

 

General sob pressão

No governo do Paraná, o general Tourinho não tardou a ser acossado pelo apetite de subalternos ansiosos para lotear o governo entre si. Mas não permitiu. Mesmo contra a vontade de alguns oficiais, promoveu sindicâncias na condição de magistrado, sem favorecimentos.

Ao anular concessões de serviços públicos lesivas aos cofres públicos, porém, ganhou o rancor dos políticos e dos militares ansiosos para levar vantagens com o poder conquistado.

“Mário viu-se, de repente, sob o turbilhão de intrigas que lhe desestabilizavam o governo. Sem o chamado jogo de cintura para aparar arestas e nem satisfazer ambições desmedidas, por ser brioso e justo, obrigou-se a renunciar ao cargo em 29 de dezembro de 1931” (David Carneiro e Túlio Vargas, História Biográfica da República no Paraná).

Assim, o Paraná perdia um de seus mais honestos governadores. Digno, porém desprovido de habilidade para contornar a ganância de líderes sequiosos de poder e fortuna.

 

Classe média + oligarquias

A revolução poderia ser o começo de uma nova era para o País. Pela primeira vez as velhas oligarquias latifundiárias não controlam mais o Brasil ao serviço exclusivo de seus negócios, como havia sido no curso do Império e da Primeira República. Não controlavam mais o País sozinhas, pelo menos.

Do ponto de vista social, a crise comercial do café, a emergência da nova classe média e o avanço da industrialização criaram um novo Brasil, mas as ambições financeiras e os maus costumes políticos permaneciam.

Como constatou o general Mário Tourinho, os apetites econômicos logo se atiçaram e os antigos controladores dos tentáculos do poder em breve se associaram aos novos poderosos.

 

Corrupção não foi provada

As principais propostas revolucionárias, como “extinção progressiva do latifúndio” e “auditoria da corrupção do governo deposto”, jamais saíram do papel. As promessas revolucionárias caem por terra, uma a uma.

O tribunal especial instituído em 28 de novembro de 1930 para julgar os crimes do governo deposto não apurou um só caso de corrupção.

Em agosto de 1931 foi suspensa a interdição dos bens dos membros do governo anterior. Os governantes derrubados pela prática de uma corrupção jamais provada ganhavam assim um óbvio atestado de probidade.

Mesmo isolado e sob pressão, o general Mário Tourinho, tentava impor o ritmo revolucionário no Paraná. A atuação de Tourinho começou a incomodar quando as posses da poderosa família Camargo e de seus beneficiários foram desapropriadas.

Por baixo desse cenário repleto de tensões, por outro lado, nascia a cidade de Cascavel. Foi a desapropriação determinada por Tourinho que fez de Jeca Silvério o dono das terras da futura “capital do Oeste”

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