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Mäder criou Cascavel, mas foi cancelado

Sem habilidade política, o general Mário Tourinho não soube enfrentar no governo do Estado a pressão antiparanista

16/01/2022 às 09h57 Atualizada em 23/01/2022 às 11h26
Por: Alceu Sperança
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A ferrovia projetada entre Ponta Grossa e o Paraguai ignorava centenas de cursos de água que seria preciso transpor para realizar a obra. No destaque, Othon Mäder
A ferrovia projetada entre Ponta Grossa e o Paraguai ignorava centenas de cursos de água que seria preciso transpor para realizar a obra. No destaque, Othon Mäder

Novamente pacificado após a vitória da revolução de 1930, ao menos quanto às ações militares, o país retomava seu ritmo normal, às voltas com a crise econômica e sofrendo com as deficiências estruturais do interior.

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Fatos positivos foram a abertura, pela Marinha, de uma agência em Guaíra, acima das Sete Quedas, e o registro da Cooperativa Agrária de Consumo de Responsabilidade Ltda – A Liberdade, em Vera Guarani, município de Paulo Frontin –, como a primeira do gênero aceita pelo poder público.

Um fator importante que permitiu ao general Mário Tourinho concretizar boa parte das medidas que determinou para o extremo-Oeste do Paraná foi ter nomeado para comandar a Prefeitura de Foz do Iguaçu, em março de 1931, o parnanguara Othon Mäder (1895–1974), ex-secretário de Terras do Estado, que tinha ótimo conhecimento sobre a região.

Foi assim que o prefeito, por ação política, aceitou que uma cidade nascesse do nada: Cascavel. Mäder, também por ação política, seria no futuro ignorado na cidade que ele criou por ser adversário político de Moysés Lupion, que mandava em Cascavel nas décadas de 1940 e 1950.

Para varrer Mäder da história, criou-se a lenda de que a cidade de Cascavel não começou em 1930, nas terras de Jeca Silvério, mas no Cascavel Velho, propriedade rural iniciada em setembro de 1922 em antigo pouso ervateiro da obrage Domingo Barthe, abandonado desde 1901.

Para cancelar Othon Mäder de vez, a rua de Cascavel que tinha seu nome foi alterada em 1963 para “Rua Visconde de Guarapuava” por ação do PTB, partido adversário de Mäder, que o acusava de perseguir Getúlio Vargas e levá-lo ao suicídio. Medida justificável, porque pessoas vivas não podem ser nomes de logradouros públicos. Mäder morreu em 1974.

Ferrovia, a prioridade inviável  

Em 1930, a viagem de Guarapuava a Foz do Iguaçu, de carroça, demorava cerca de três meses, com a velocidade variando de acordo com o clima. O governo revolucionário assumiu o compromisso de construir rodovias e ferrovias que nem o Império nem a Primeira República deram conta.

Em abril de 1931, as propriedades da Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande foram incorporadas à Estrada de Ferro do Paraná, sepultando de vez sob uma grossa lápide de corrupção, tramoia e frustração o sonho de integrar o Oeste pelos trilhos.

Desde pelo menos 1883 era prioridade no plano ferroviário do Império a ligação entre Ponta Grossa e o Paraguai, passando pela ainda inexistente Foz do Iguaçu. O plano era plantar trilhos entre Ponta Grossa e o Rio Iguaçu, margeando o Rio Jordão até sua foz no Iguaçu e a partir daí acompanhar o Iguaçu até sua foz no Rio Paraná.

O plano foi feito sem nenhum estudo do território, que só começou a ser feito em 1889, com a criação da Colônia Militar do Iguaçu. Ignorando a imensidão de cursos de água às margens do Iguaçu, o projeto se arrastou sem sequência até sucumbir por inviabilidade.

Jeca Silvério vira latifundiário

Um mês após a chegada dos revolucionários ao governo do Paraná, em 3 de novembro de 1930, Getúlio Vargas assume as funções de chefe do governo provisório. Nessa mesma data, Mário Tourinho cassa, com o decreto revolucionário nº 300, a concessão outorgada à Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco) para a colonização de terras.

Com a medida, Jeca Silvério deixou de ser arrendatário das terras da Encruzilhada dos Gomes, passando a proprietário. Surge assim o esboço de um projeto: criar uma futura cidade.

Silvério passa a distribuir terrenos a familiares, empregados e viajantes a caminho dos portos do Rio Paraná ou de volta de entregas já feitas a clientes da fronteira.

A nova legislação pretendia evitar o controle estrangeiro da região de fronteira. A lei 19.842, de 12 de dezembro de 1930, restringia o acesso e permanência de empresas estrangeiras e trabalhadores estrangeiros em território brasileiro.

Exigia, dentre outras coisas, que as empresas tivessem, em seu quadro de funcionários, no mínimo 2/3 de funcionários brasileiros. Mas desestimulando os estrangeiros seria preciso estimular os brasileiros a ocupar os territórios liberados do controle externo.

Apoio à colonização

Também em dezembro de 1930 o governo do Paraná outorgava ao empresário Miguel Matte concessão para explorar madeira e erva-mate em vasta área de terras nas cercanias de Foz do Iguaçu. Dessa concessão brotariam várias das atuais cidades da chamada “Rota Oeste”, no trajeto Cascavel-Foz do Iguaçu.

Em Aparecida dos Portos, como a futura Cascavel passou a ser chamada pelos religiosos, por iniciativa do prelado de Foz do Iguaçu, monsenhor Guilherme Thiletzek, o projeto de formar a cidade avançou com a conquista do telégrafo, em 20 de julho de 1931.

O telegrafista Bento dos Santos Barreto (1871–1938), a pedido do líder Jeca Silvério, não expediu o primeiro telegrama como emanado da vila de Aparecida dos Portos. Substituiu o nome religioso por outro: Cascavel.

“Alegou obedecer a uma antiga lei que determinava dar às novas vilas os nomes dos acidentes geográficos mais próximos. Tem início uma polêmica que irá durar décadas em torno do nome da cidade” (Alceu e Regina Sperança, Cascavel: Uma Santa na Encruzilhada).

Em Curitiba, uma polêmica ainda maior está começando. É a guerra política entre os paranistas e os gaúchos que hegemonizam o novo governo, adeptos da entrega de parte do Paraná a colonizadores sul-rio-grandenses respaldados pela União.

Antiparanistas em ação

O projeto antiparanista avançou em julho de 1931, quando Zeno da Silva e Ciro Silva reportaram ao governo haver desinteresse de Santa Catarina e Paraná em desenvolver a região do antigo Contestado e Oeste do Paraná.

Ciro Silva afirmava que as regiões Oeste e Sudoeste do Paraná e Santa Catarina estavam “em pleno abandono”, ameaçando os interesses do Brasil e a “unidade nacional” (jornal Gazeta do Povo, 23 de julho de 1931).

Os paranistas reagem às provocações de Zeno e Ciro Silva repudiando as afirmações de que o Paraná havia abandonado suas regiões Oeste e Sudoeste. Alegavam que embora o controle da fronteira fosse de responsabilidade da União, o povoamento induzido pelo Estado estava em plena marcha.

Os dirigentes paranistas afirmaram que a região da faixa de fronteira era de responsabilidade do governo federal, mas admitiam que o Paraná “não dispunha das grandes somas necessárias para efetivar a colonização e estabelecer limites com a Argentina”.

Fazendo retornar ao patrimônio público as concessões confiadas a empresas estrangeiras e de colonização cujos projetos não tiveram êxito, o Paraná assegurou que estava cumprindo a sua parte.

O ano de 1931 foi especialmente traumático para o Brasil. O ano começou com uma rebelião de soldados, resultando em troca de tiros com a Força Pública em Niterói (RJ).

Nas capitais, onde não ocorreram as mudanças prometidas, os trabalhadores continuavam descontentes. Sentiram que foram usados para fazer uma revolução que não era sua.

CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

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