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Opinião História do Oeste

Entre a história e a lenda, um grande filme

A Missão, de Roland Joffé, com astros importantes do cinema, retomou o interesse pela cidade jesuítico-indígena de Santa Maria La Mayor

31/05/2020 10h13 Atualizada há 2 meses
Por: Alceu Sperança
O Brasil repartido em dois, em 1621: só o litoral paranaense fazia parte do Brasil
O Brasil repartido em dois, em 1621: só o litoral paranaense fazia parte do Brasil

O rei espanhol Filipe III se tornou também Filipe II de Portugal e rei do Brasil ao ser entronizado em Lisboa, em 1619. Nesse mesmo ano, o bandeirante Raposo Tavares, com “dois mil mamelucos” (mestiços de índio e branco), tomava posse do quadrilátero formado pelos rios Paranapanema, Iguaçu, Tibagi e Paraná, incluindo todo o vale do Rio Ivaí.  

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Havia duas dezenas de instalações jesuíticas nas regiões Oeste e Noroeste do futuro Paraná. As reduções agrupavam os índios da região próxima. Uma vez que os padres não permitiam aos catequizados a resistência armada, os bandeirantes facilmente os capturavam.

O rei Filipe III morre em 31 de março de 1621, subindo ao trono o filho Filipe IV (1605–1665), então com 16 anos. Foi o período em que os holandeses atacaram os centros açucareiros no Brasil e os portugueses se rebelavam contra os altos tributos.

Filipe IV herdou do pai a colônia portuguesa na América do Sul dividida em dois estados: Brasil e Maranhão. O Estado do Brasil era formado pelas capitanias ao sul do Rio Grande do Norte atual. O Estado do Maranhão seguia do cabo São Roque (RN) à Amazônia. 

Tavares, o grande bandeirante 

Enquanto os holandeses criavam a Companhia das Índias Ocidentais e aproveitando as trapalhadas do jovem rei Filipe IV se apossavam da riqueza açucareira do Brasil, os bandeirantes seguiam acossando as posições dos jesuítas no Oeste do Paraná.

Uma das primeiras instaladas na época da ascensão de Filipe IV foi a redução de San Francisco Javier, no vale do Rio Tibagi, onde hoje se encontra o Município de Ibiporã. Surgiu em 1622, ano em que o padre Antonio Montoya recebeu a designação para dirigir a Missão do Guayrá.

O religioso espanhol agilizou a expansão missioneira, mas fracassou ao tentar conter a pressão dos bandeirantes que escravizavam os índios. Concentradas na ofensiva holandesa sobre o litoral, as autoridades espanholas prevaricaram (descuidaram) e a região ficou exposta aos ataques dos caçadores de índios.

A primeira grande bandeira portuguesa veio com Antônio Raposo Tavares (1598–1658). Chegando ao Brasil em 1622 com o pai, Fernão Vieira Tavares, capitão-mor de São Vicente, Raposo aldeou milhares de índios, apanhados no futuro Paraná e escravizados em sua fazenda de Quitaúna (periferia de Osasco, SP). 

O carrasco Céspedes

O governador do Paraguai, Luís Céspedes, sabia das intenções que animavam a formação da “grã bandeira” de Tavares, mas fez um pacto com os bandeirantes: não alertou os jesuítas e impediu qualquer chance de defesa nas aldeias indígenas do Paraná, sem proteção militar.

“Desde logo no governo paraguaio dom Luís mostrou-se contrário ao Estado Independente do Guairá, em mãos dos jesuítas, ocupante de importantes e ricas regiões hidrográficas no Paraná espanhol. Havia por parte de dom Luís, também, o temor de uma nação Guarani organizada e poderosa” (Celso e Junko Sato Prado, Razias).

A redução de Los Angeles, criada junto ao Rio Piquiri, e outras duas no Vale do Tibagi – Nossa Senhora da Encarnação (atual Ortigueira) e San José, entre Ibiporã e Sertanópolis –, segundo o padre Antonio Montoya, foram formadas sobre antigas aldeias Guarani e Jê.

Desarmadas, tiveram como resposta intensos ataques bandeirantes. Sob constante assédio português e forçados a trabalhar para os espanhóis, muitos índios fugiam das aldeias, que em 1623 já haviam encolhido pela metade.

Santa Maria e as Cataratas

Em 1626, ano da criação de Santa Maria La Mayor, intensificava-se a ação dos bandeirantes luso-paulistas na região. Logo em fevereiro desse ano, o bandeirante Francisco Pedroso Xavier prendeu os líderes religiosos da redução de Vila Rica e desarmou a população indígena. Aliás, o pai de Xavier, João Pedroso de Morais, um dos lugares-tenentes de Raposo Tavares na destruição do Guayrá, tinha o apelido de Terror dos Índios.

Há uma polêmica sobre a verdadeira localização da cidade indígena de Santa Maria, supostamente formada pelos jesuítas nos arredores ou dentro do atual Parque Nacional do Iguaçu, nas cercanias de Foz do Iguaçu.

Com poucos registros documentais, a crença na existência da redução ficou reforçada pelo sucesso entre historiadores do filme A Missão (Roland Joffé, 1986). Com astros importantes do cinema, como Robert de Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson, o filme atraiu atenções para as cidades indígenas esmagadas pelos bandeirantes e pôs a nu seus métodos cruéis.

Se faltam dados concretos sobre sítios, não faltam relatos sobre a vida e a cultura dos índios sob os jesuítas. Com base neles, o roteirista Robert Bolt, duas vezes vencedor do Oscar (Doutor Jivago e O Homem que Não vendeu sua Alma) idealizou A Missão, também vencedor da Palma de Ouro, de Cannes.

Trabalhadores e artistas, não guerreiros

A redução Santa Maria La Mayor, estabelecida pelos padres Diogo de Boroa e Cláudio Royer em algum lugar entre o Rio Acaray (margem esquerda do Rio Paraná) e a margem direita do Rio Iguaçu, permanece um registro documental sem confirmação precisa. 

“O local provavelmente deve ter existido dentro do Parque Nacional do Iguaçu, porém não foram encontrados vestígios arqueológicos de sua existência até o presente momento. Esta redução ficava longe das demais reduções jesuíticas que existiam ao longo do território paranaense desde o século XVII” (Fabio Krawulski Nunes, pesquisador catarinense).

No cenário paradisíaco das matas oestinas, a música dos índios foi um elemento marcante: até os rudes caçadores de índios “maravilhavam-se em ver a disciplina dos índios quando cantavam e tocavam seus violinos e até compunham canções que os jesuítas escreviam e imprimiam” (IBGE, [email protected]).

“Em cada uma das reduções, existia uma escola de música – um verdadeiro conservatório – cercado por um florido artesanato que produzia todos os tipos de instrumentos, de violinos a órgãos, de harpas a trombetas” (Gianpaolo Romanato, Música sacra nas Reduções jesuíticas).

Na mesma região é citada a redução de São Carlos, que com esse nome jamais existiu. De qualquer forma, a preocupação de evitar os territórios mais batidos pelos bandeirantes explica porque Santa Maria não está no roteiro das ruínas de reduções criadas pelos jesuítas no atual Paraná.

CLIQUE AQUI e veja outros episódios da Grande História do Oeste. 

Pelo menos no filme A Missão, Santa Maria La Mayor ficava junto às Cataratas do Iguaçu

 

 

 

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista, escritor e historiador.
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