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Opinião História do Oeste

Bandeirantes expulsam os jesuítas

A fuga dos religiosos do Oeste do Paraná atrasou a civilização em dois séculos e meio

14/06/2020 08h52 Atualizada há 2 meses
Por: Alceu Sperança
Em painel de Euro Brandão no Museu Paranaense, padre Antonio de Montoya ordena o êxodo de Guayrá para o Sul
Em painel de Euro Brandão no Museu Paranaense, padre Antonio de Montoya ordena o êxodo de Guayrá para o Sul

Enquanto puderam, os jesuítas fundaram diversas cidades de índios – as reduções. O padre Simão Maceta edificou Jesus-Maria e outras reduções por orientação de seu superior, Antonio Ruiz de Montoya, para criar o fato consumado de que o Oeste do futuro Paraná era espanhol e sob controle jesuíta: uma república de índios para servir de exemplo ao mundo.

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Além de se dispor a catequizar os primeiros dois mil índios que passaram a viver no aldeamento Jesus-Maria e organizar o trabalho para a exploração de “matas abundantes em erva-mate”, Maceta estava obcecado por um objetivo, que determinou como sua grande missão no fim da década de 1620: converter o aguerrido cacique Guairacá ao cristianismo.

A defesa que os jesuítas faziam dos índios, tentando protegê-los de uma exploração impiedosa por parte dos militares espanhóis e de ser levados como escravos para domínios portugueses, acabaria por lhes custar muito caro. 

“As bulas pontificais e os éditos reais contra a escravização dos índios produziram irritação e rebeldia entre os escravagistas de São Paulo e até do Rio” (Afrânio Peixoto, História do Brasil).

Crianças em canoas, os mais fortes a pé

Eles em breve seriam expulsos do Brasil. “Infelizes os jesuítas reais, primeiro desmoralizados, depois expulsos de suas obras, encarcerados, mortos de fome e frio em fortalezas europeias, onde, muitas vezes, nem mesmo receberam um sepultamento decente” (Pedro Ignácio Schmitz, A missão: peripécias das reduções jesuíticas).

Até o sítio completo imposto em 1631 pelos bandeirantes, na batalha final da região, a Ciudad del Guayrá chegou a abrigar cinco mil pessoas, em uma área de 120 hectares, com mais doze mil ao redor. 

Todos fugiram quando os bandeirantes paulistas, armados de arcabuzes, espingardas de pederneiras, pistolas, adagas e espadas, cercaram seus redutos desarmados.  “Está a vila muy apertada e atrincheirada por estar cercada pelos portugueses de São Paulo”, escreveu à Espanha o bispo Cristóvão de Aresti.

Com a aproximação dos bandeirantes a Guayrá, as canoas foram lançadas desesperadamente nas águas. Além do grupo embarcado, com idosos, mulheres e crianças, seguiu outro, a pé. 

A marcha dos doze mil

O padre Montoya foge com cinco mil dos doze mil retirantes e a maior parte se desloca inicialmente para as reduções de Natividad e Santa Maria La Mayor, a misteriosa redução supostamente plantada nos arredores da futura Foz do Iguaçu.

Os demais foram reconstruir as reduções de Loreto e San Ignácio Mini, em território hoje argentino, junto ao Rio Jubaburu, ao cabo de quase dois mil quilômetros de marcha. Era o fim do sonho de civilização no interior do Paraná, que seria qualificado pelo padre Clóvis Lugon como “República Comunista Cristã dos Guaranis”.

As cidades indígenas, bem organizadas e produtivas, foram arrasadas pelos bandeirantes, mas no contexto de uma narrativa hegemônica paulista eles foram transformados em heróis brasileiros. A destruição causada pelos bandeirantes na primeira experiência civilizadora no Oeste do Paraná foi maquiada pela história oficial no mito do “bandeirante herói”.

Os historiadores Afonso Taunay e Alfredo Ellis Jr. preferiram forjar para os caçadores de homens uma imagem positiva, mas ambos sabiam que eles “estavam treinados para escravizar e matar” (Eduardo Bueno, História do Brasil).

A maldição dos bandeirantes

Em 1632, as últimas reduções foram saqueadas e destruídas. A Ciudad Real del Guayrá foi abaixo e em seguida abandonada pelos destruidores. Seus habitantes seguiram para as missões do Rio Grande do Sul, após penosas marchas pelas selvas do Sul brasileiro. 

Mas se o sonho de progresso, cultura e fraternidade dos jesuítas se transformou em ruínas, o destino dos cruéis bandeirantes Raposo Tavares e Manuel Preto não foi melhor.

Manuel Preto foi morto a flechadas em algum ponto entre os futuros Paraná e Santa Catarina, em 22 de julho de 1630. Tavares durou mais. Sua expedição percorreu cerca de dez mil quilômetros em três anos, entre os rios Paraguai e Solimões-Amazonas, até o atual Pará. 

Ali a selva o esmagou: sua tropa se viu reduzida a 59 brancos e alguns índios. Ao retornar a São Paulo, Tavares estava tão doente e desfigurado que sequer os parentes o reconheceram. Morreu em 1658.

Mais fácil que criar a cultivar

A “monocultura” da escravização de índios no interior do atual Paraná para o trabalho nas minas, fazendas de criação e usinas de açúcar de São Vicente e Nordeste sofreu um forte impacto com o despovoamento da região, afetando seriamente os negócios dos bandeirantes.

“Tinham desistido de cultivar suas terras, de cuidar de seu gado, renunciando às doçuras do lar – a caça aos indígenas constituía sua única ocupação; era isso, para eles, uma verdadeira paixão, sendo-lhes também copiosa fonte de riquezas” (Auguste de Saint-Hilaire, Segunda viagem a São Paulo).

A campanha de destruição das povoações dirigidas pelos padres jesuítas iria fazer de Antônio Raposo Tavares, o mais famoso bandeirante, o “responsável pela morte de quinze mil índios, e aprisionamento de outros sessenta e cinco mil, levados acorrentados para São Paulo, onde foram vendidos para servirem de mão-de-obra escrava aos senhores feudais” (João Carlos Vicente Ferreira, O Paraná e seus municípios).

Em cinco anos, além dos aprisionados, “aproximadamente 40 mil fugiram e entre 100 e 150 mil foram mortos e feridos ou simplesmente dizimados” (Omar Fedato Aleksiejuk e Zido Raddatz, IBGE [email protected]).

A perseguição continuou

Com a fácil vitória dos bandeirantes lusitanos sobre os jesuítas espanhóis no Oeste do Paraná e seus índios desarmados, a frente de luta dos luso-brasileiros se desloca para a resistência ao domínio holandês no Nordeste. 

Após a ocupação do Recife, em 1635, da Bahia até o litoral Norte o Brasil agora seria holandês, sob o comando de Maurício de Nassau (1604–1679), por mais de duas décadas.

A preocupação com os holandeses não impediu que os lusitanos, sob o comando de Fernão Dias Paes Leme (c.1608–1681), o célebre Caçador de Esmeraldas, atravessassem os planaltos do Paraná para ultrapassar o Rio Iguaçu e ir atrás dos índios que se deslocaram ao Sul, rumo ao Rio Taquari (Alfredo Ellis Júnior, O Bandeirismo Paulista e o Recuo do Meridiano). 

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista, escritor e historiador.
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