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Opinião História do Oeste

Exército se forma com a missão de ocupar o Oeste

Rei ordenou armar a todos (brancos, nobres, mestiços, plebeus) para combater a ofensiva castelhana

09/08/2020 10h27
Por: Alceu Sperança
Rei José I: crises e guerras obrigaram a ênfase à organização militar
Rei José I: crises e guerras obrigaram a ênfase à organização militar

Portugal precisava ocupar logo o Oeste paranaense, mas ainda na segunda metade do século XVIII não havia interessados nessa empreitada. Além da resistência indígena no interior e das incertezas quanto às fronteiras, que se moviam a cada tratado entre Espanha e Portugal, havia terras fartas entre os Campos Gerais e os de Guarapuava e Palmas propícios à criação de gado. 

O Tratado de El Pardo, de 1761, atendeu aos interesses lusitanos que pretendiam recuperar Sacramento. Servia também às Missões porque os jesuítas queriam se proteger dos bandeirantes que os perseguiam.

No entanto, o estado de beligerância entre portugueses e espanhóis iria se estender até o início do século XIX. A imprecisão sobre limites, mesmo por longo tempo discutidos e por fim resolvidos pacificamente, prosseguiu até o século XX, depois do fim do Império e do tumultuado início da República.

Guerra Mundial número Zero

El Pardo anulava o Tratado de Madri, mas não reduzia – ao contrário, intensificava – as hostilidades entre os reinos europeus, porque o mundo vivia a Guerra dos Sete Anos, conflito que envolveu diversas nações europeias e suas colônias na Ásia e nas Américas. 

Ganhando amplitude em 1756, essa que deveria ser considerada a primeira guerra mundial se estenderá até 1763: de um lado, França, Áustria, Saxônia, Rússia, Suécia e Espanha; do outro, Inglaterra, Portugal, Prússia e Hanôver.

O Oeste era um dos territórios em disputa. Em abril de 1762 se justificou o temor de quem receava se estabelecer a Oeste: no interior do Mato Grosso, forças espanholas transportadas em quarenta canoas pelo Rio Itonamas – entre 800 e 1.200 homens – atacaram o forte de Nossa Senhora da Conceição.

Era urgente interiorizar a presença militar portuguesa no interior. Com esse objetivo, o Brasil Colônia foi oficializado por uma Carta Régia e passava à condição de Vice-Reino de Portugal em junho de 1763. 

Mourão, a solução

Com o Vice-Reino e a mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, Portugal priorizava a reconquista das posições perdidas no Sul e a ocupação das vastidões dos atuais Paraná e Mato Grosso (Norte e Sul).

O rei José I comunicou em fevereiro de 1764 ao vice-rei do Brasil, Antônio Álvares da Cunha, a recriação da Capitania de São Paulo, desligando-a do Rio de Janeiro. 

São Paulo ficará sob as ordens do capitão-general Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, que vai governar quase metade do atual Brasil. 

Chegando em junho de 1765, com Mourão a região de São Paulo iniciará a escalada que a fará a “locomotiva” do Brasil. Sob suas ordens haverá a ocupação territorial do Paraná ainda controlado pelos índios que escaparam do genocídio e da escravização empreendidos pelos bandeirantes. 

“Um dos primeiros atos do morgado é o de fazer povoar metodicamente os sertões de Curitiba e todos os imensos campos da região, até a margem direita dos rios Pelotas e Uruguai. O forte argumento para essa tomada de decisão é o de fazer frente aos espanhóis confinantes, que haviam ocupado uma grande parte do território do Rio Grande do Sul” (Edson Day, História do Contestado).

A origem de Foz do Iguaçu 

O Conde de Oeiras, que os brasileiros viriam a conhecer melhor por seu próximo título – Marquês de Pombal –, recomendou ao governador de São Paulo fundar um estabelecimento militar na fronteira com o Paraguai, em território hoje paranaense. 

Pode-se considerar este o marco inicial das ações que levariam à formação de Foz do Iguaçu, mais de um século depois. A partir dessa ordem, Mourão mandou elaborar um completo levantamento da imensa Capitania que vinha governar. 

Ao receber as informações, interessou-se pelos Campos Gerais, assinalados como parte do “Distrito da Vila de Curitiba”, com uma população já expressiva estabelecida pelo tropeirismo. Decidiu enviar um representante de sua confiança para avaliar o potencial econômico e militar da região. 

Para a tarefa, designou Afonso Botelho de Sampayo e Souza, “aparentado seu, com ele vindo de Portugal seu ajudante-de-ordens, dando-lhe a incumbência de inspecionar as fortalezas e reorganizar em Santos os Regimentos de Milícias” (Roselys Vellozo Roderjan, A Formação de Comunidades Campeiras nos Planaltos Paranaenses e sua Expansão para o Sul).

Antes dos colonos, os militares

Os Regimentos de Milícias eram uma forma de reorganização dos antigos “Terços de Auxiliares”. Em seguida, Afonso Botelho se desloca para a 2ª Comarca (Paranaguá) em dezembro de 1766, encarregado de comandar militarmente a área e inspecionar as obras da Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres. 

Sua outra tarefa será enviar expedições militares para fazer o reconhecimento do interior, explorando as antigas posses espanholas.

“Havia uma carta régia de 1765 que autorizava ao governador da capitania a conquista do Tibagi. Sabe-se que havia intuito de agressão à província [por parte] do Paraguai, daí o interesse de criar estabelecimentos nos sertões do Tibagi e de Guarapuava” (Osvaldo Pilotto, Sinopse Histórica do Paraná). 

Não se tratava, portanto, povoar já a região, mas antes de estabelecer seu controle militar.

Pode-se identificar na ação de Afonso Botelho, assim, o início efetivo do Exército como força armada permanente. “Exército regular, só o teve a colônia depois de 1764” (Pedro Calmon, História da Civilização Brasileira).

A respeito da estruturação das Forças, é digno de nota que o vice-rei Antônio da Cunha criou no Rio de Janeiro o Arsenal da Marinha, em 1763.  

Cada cidadão seria um soldado

Na véspera do Natal de 1764 embarcaram para o Brasil setenta oficiais encarregados de aplicar aqui o regulamento do Conde de Lippe (1724–1777), inspirado na formação militar inglesa de Gustavo Adolfo, que institui a milícia governamental paga.

Preparar soldados profissionais e promover a defesa dos domínios portugueses na América, assediados pelos espanhóis, foi, portanto, a função central do Paraná na época do Brasil como Vice-Reino. 

Com a vinda dos instrutores militares, em consequência, cresce o recrutamento de homens para fazer a defesa do Sul contra a ofensiva espanhola. 

Em 1766, Aviso Régio dirigido ao governador Luís Antônio Mourão ordena que no território de sua Capitania “fizesse alistar toda a gente sem exceção de nobres, plebeus, brancos, mestiços, ingênuos [NR: filhos de escravo nascidos livres]; e libertos” (Antônio Vieira dos Santos, Memória Histórica da Cidade de Paranaguá e seu Município). Todos no Exército. Afinal, são tempos de guerra.

CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e historiador Alceu Sperança.

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista e escritor.
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