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Opinião História do Oeste

Plantar, criar gado ou pegar em armas?

Mourão queria o Paraná povoado por agropecuaristas mestiços, mas o vice-rei preferia soldados para rechaçar espanhóis

07/09/2020 08h39 Atualizada há 2 meses
Por: Alceu Sperança
Maquete da cidade jesuítica Vila Rica do Espírito Santo, junto ao Rio Ivaí, assinalada pela expedição de Estêvão Ribeiro Bayão para ser um quartel na região
Maquete da cidade jesuítica Vila Rica do Espírito Santo, junto ao Rio Ivaí, assinalada pela expedição de Estêvão Ribeiro Bayão para ser um quartel na região

O governador Luís Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, determinara a ocupação e povoamento das fronteiras de sua capitania (Mato Grosso e Oeste do atual Paraná) com os curibocas, “sobre-excesso da população mestiça que andava vagabunda”. 

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Curibocas (ou mamelucos) eram os descendentes de homens brancos (soldados e bandeirantes portugueses) e índias nativas capturadas. Sem oportunidades, criados precariamente e vivendo a esmo entre a mata e as vilas, poderiam engrossar a rebeldia indígena ou virar salteadores desgarrados.

Orientá-los para povoar o remoto interior do Paraná aumentando a miscigenação e reduzindo a resistência indígena foi a tática escolhida por Mourão, mas o vice-rei Luís de Almeida Mascarenhas, o Marquês de Lavradio, preferiu armar a população sob a instrução de oficiais portugueses. 

Em março de 1770, quando tropas coloniais espanholas tentam retomar dos portugueses o controle dos territórios perdidos com o Tratado de Madri, de 1750, a colonização deixou de ser a prioridade do rei José I. 

Deserções em massa

A mão de obra que Mourão pretendia voltada ao desenvolvimento agropecuário do futuro Paraná foi de imediato requisitada para as tarefas defensivas determinadas pelo reino luso.

Como se tratava de organizar do nada um exército treinado, isso exigia muito dos envolvidos, comandantes trazidos da Europa, e dos pecuaristas forçados pelas autoridades a virar militares. 

Quem prosperava transportando e vendendo gado não tinha interesse em abandonar a criação para ser tomada pelos índios. Sair da rendosa e pacífica pecuária para pegar em armas, arriscando a vida frente a tropas espanholas bem preparadas, não era o melhor negócio.

As famílias que lucravam com gado também não queriam bater de frente com os índios, tirando os filhos de uma vida produtiva para arriscar suas vidas em combate. 

Sem vontade de enfrentar índios ferozes e espanhóis aguerridos nas desconhecidas matas do Oeste, as deserções se multiplicavam, minando o esforço para o recrutamento de soldados. 

Comandantes mortos

Um retrato da economia regional no quarto final do século XVIII registra 88 fazendas e 131 sítios com 31.650 cabeças de gado. O negócio hegemônico, então, é o tropeirismo. Fazendeiros e sitiantes relutavam em desmobilizar sua produção para sair à guerra.

A orientação dada pelo governo paulista para ocupar o Oeste paranaense ainda era seguida pelo governador regional, Afonso Botelho, primo do governador Mourão, que enviou diversas expedições ao interior.

A principal missão ao Oeste até o final dos anos 1760 foi chefiada pelo capitão Estêvão Ribeiro Bayão, que fez valiosos registros para subsidiar as próximas expedições ao Rio Paraná. 

A longa e penosa marcha para ocupar matas nunca dantes devassadas não poupou os comandantes das primeiras incursões ao interior do Paraná.

Depois de ter reconhecido o local em que assentou suas tendas como o ponto em que, mais de um século antes, floresceu a cidade hispano-guarani de Vila Rica do Espírito Santo (segunda fundação, hoje, Fênix), Bayão, atacado de impaludismo, viu-se obrigado a regressar com parte de sua turma a Curitiba, onde morreu em 1769.

Sete Quedas

Com a morte de Bayão e também do capitão Francisco Nunes Pereira, acometido de malária, o tenente Francisco Lopes da Silva foi promovido a capitão e assumiu o comando dos remanescentes das companhias dos chefes falecidos.

Coube a quem restou das expedições iniciais, tendo à frente o tenente Silva e o frade Santa Teresa, trabalhar no reconhecimento da navegabilidade do Rio Ivaí.

Chegando à região de Guaíra em 6 de janeiro de 1770, Francisco Lopes da Silva recebe ordens para desfazer tudo e sair com seus homens para socorrer a Praça de Iguatemi, assediada pelos espanhóis. 

“Reconheceram os grandiosos Saltos das Sete Quedas e a encosta ocidental do Paraná, e, tomando o Rio Iguatemi, chegaram à Praça desse nome, última atalaia da dominação portuguesa no ocidente meridional brasileiro” (Romário Martins, Bandeiras e Bandeirantes em Terras do Paraná).

Com a priorização da luta contra as incursões espanholas, o tenente Lopes seguiu para Iguatemi em junho em 1770, deixando na região do antigo Guayrá uma pequena guarda de dez homens ao comando de um sargento. 

Prioridade a Guarapuava

A força militar em operação no Paraná, assim, foi deslocada para defender o Brasil dos ataques espanhóis pelo Sul e pelo Oeste. Um trabalho decisivo – e duradouro – cuja memória foi atribuída aos antigos bandeirantes.

Ocupar o interior deixava de ser a tarefa mais importante. A prioridade agora seria criar uma grande força militar brasileira. Mesmo assim, iniciar uma experiência colonial nos Campos de Guarapuava continuou nos planos de Mourão e do primo Afonso Botelho. Ainda em 1769, com o grupo do capitão Silveira Peixoto misteriosamente desaparecido (anos depois se soube que foi aprisionado pelos castelhanos), Botelho recebeu o sargento-mor Francisco José Monteiro, enviado pelo governo paulista para o resgate da expedição perdida.

Nesses tempos duríssimos, era difícil saber se uma tropa desertou ou foi capturada por inimigos. Em tarefa de buscas, que Botelho também pretendia de povoação, Monteiro partiu de Caiacanga e atingiu o Porto das Capivaras, no Rio Iguaçu. 

Ele teria passado à história como o “descobridor” dos Campos de Guarapuava, mas preferiu enviar o tenente Cândido Xavier para empreender a marcha pela mata rumo ao Norte. Topando com índios bravios, porém, Xavier retrocedeu.

À espera do chefe

Conciliar a iniciativa povoadora com a defesa militar foi a saída que restou ao governador paulista na definição das missões no interior paranaense, “para que sua riqueza convidasse os povos a habitá-lo e desse as utilidades necessárias não só para enriquecer o Real Erário mas também para sustentar as guarnições das duas praças projetadas (Iguatemí e Vila Rica) e alguns fortes que é necessário estabelecer” (governador Luís Botelho Mourão, carta ao Conde de Oeiras, ministro de Portugal, 3 de dezembro de 1770).

O trabalho de reconhecimento do centro paranaense coube ao tenente Cândido Xavier, que em 8 de setembro de 1770 registrava a “descoberta” dos Campos de Guarapuava. 

Xavier recebeu ordens para montar acampamento e aguardar a chegada do chefe geral, o tenente-coronel Afonso Botelho, que viria em nome do primo Luís Mourão, do vice-rei Mascarenhas e do rei José I para proclamar a conquista do Oeste. Só faltava combinar com os índios.

CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

À espera do chefe Afonso Botelho, Cândido Xavier construiu o Forte Nossa Senhora do Carmo, junto à foz do Rio Capivari no Tibagi

 

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista e escritor.
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