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Opinião História do Oeste

Algo de podre na conquista de Mourão

Às turras com o vice-rei, o governador e seu primo foram desautorizados pelo rei português a colonizar o interior do Paraná

13/09/2020 11h20 Atualizada há 2 semanas
Por: Alceu Sperança
Desenho de Joaquim Miranda mostra os índios felizes com os presentes entregues pela expedição de Afonso Botelho
Desenho de Joaquim Miranda mostra os índios felizes com os presentes entregues pela expedição de Afonso Botelho

Enquanto prepara no final de 1771 sua pretendida viagem triunfal para declarar “descobertos” os Campos de Guarapuava, o tenente-coronel Afonso Botelho, na época em função equivalente à de governador do Paraná, enviou uma expedição preparatória chefiada pelo guarda-mor Francisco Martins Lustosa.

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Português de Braga, Lustosa se envolveu quando jovem em atritos em Minas Gerais. Foragido e caçado em 1557 por uma bandeira punitiva da Câmara de Curitiba, refugiou-se no sertão do futuro Paraná, onde se declarou descobridor dos diamantes já reportados por Ângelo Pedroso no Tibagi. 

Experiente, já idoso em 1771 e merecendo a confiança do governador Luís Mourão, Francisco Lustosa recebeu “37 praças e 23 aventureiros voluntários” para, oficialmente, encontrar ouro para o povoamento e o custeio das instalações militares projetadas em Iguatemi e Vila Rica, antigo domínio espanhol.

Povoar região povoada

Na verdade, o papel de Lustosa era verificar se o caminho estava livre de índios para que Afonso Botelho pudesse viajar com segurança até a região.

Primo do governador paulista Luís Mourão e encarregado de iniciar a povoação dos Campos de Guarapuava – aliás, já povoados pelos índios –, Afonso Botelho partiu de Curitiba em 10 de novembro de 1771.

Estava acompanhado por 26 homens, dentre os quais os capitães de Auxiliares* Lourenço Ribeiro de Andrade, Francisco Carneiro Lobo e José dos Santos Rosa, um padre capelão, o tenente Domingos Lopes Cascais e os sargentos Manoel Mangazan e José Joaquim César. 

 “A bagagem era composta por mantimentos, armamentos leves para caçada de animais e presentes para estabelecer relações de cordialidade com os indígenas, pois não eram esperadas reações de hostilidade” (Georgeana Barbosa de França, Barragens e Barrageiros).

*Auxiliares – A força armada lusa se dividia em três corpos militares: a tropa de primeira linha, paga; os corpos de auxiliares ou de segunda linha; e os corpos de ordenanças.

Presentes, rezas e armas

No entender de Afonso Botelho, ele só precisava vencer a “natural rudeza e desconfiança dos gentios”. Por isso, anunciou que levaria duas espécies de armas poderosas: 

“A primeira consistia nas missas e rezas. A segunda nos presentes e agrados que, com as luzes da religião, facilmente converteriam os gentios em amigos dóceis e leais. Ante essas armas, render-se-iam eles, felizes e contentes” (Francisco Ribeiro de Azevedo Macedo, Conquista Pacífica de Guarapuava).

Por via das dúvidas, tratou também de levar todo o poder bélico disponível caso os índios resistissem, como de fato resistiram. 

Fez subir para Curitiba o material de guerra disponível em Paranaguá, inclusive artilharia, seguindo o cabo Simão Veloso com trem da expedição e o comandante em chefe “com os seus capitães e o grosso do pessoal” (Romário Martins, Bandeiras e bandeirantes em terras do Paraná).

Para ajudar nas próximas expedições, a meio caminho entre os Campos Gerais e os de Guarapuava foi plantado o Sítio Nossa Senhora da Esperança. 

Em 9 de dezembro de 1771, depois da primeira missa rezada nos Campos de Guarapuava pelo padre Francisco Inácio de Santa Catarina, Botelho relatou ter partido com os capitães Ribeiro de Andrade, Carneiro Lobo e Santos Rosa e um grupo armado com 22 camaradas para buscar um bom local de aquartelamento e fortificação. A conquista se completava,

Miranda, o mensageiro

Botelho despachou em 23 de dezembro o sargento Joaquim José Miranda a São Paulo, para apresentar ao governador os resultados da expedição. Um relatório positivo, apresentando a força militar dando presentes a índios receptivos e gratos.

No entanto, os antagonismos políticos entre o governador Mourão e o Marquês de Lavradio, vice-rei do Brasil, chegaram ao clímax justamente ao chegar o relatório da expedição. Miranda entregou o texto enviado por Botelho mas também narrou sua experiência.

Para Lavradio, tudo somado, a resistência de índios rebeldes, doenças sem possibilidades de tratamento e deserções inviabilizavam a continuidade das ações de Botelho.

Como havia pedras preciosas no Tibagi, para evitar o contrabando de diamantes o governo português decidiu assumir diretamente a exploração diamantífera, estabelecendo a Real Extração. E por ora as decisões não passariam disso. 

Botelho sob pressão 

O vice-rei denunciou que na tentativa de ocupar os Campos de Guarapuava os comandados de Botelho saquearam os depósitos de alimentos dos índios. O chefe militar negou. 

Em sua defesa, narrou que em 8 de janeiro de 1772 “vinham os índios tocando suas gaitas de taquaras” e logo mandou alguns dos seus a recebê-los, com “carinho, e agrado” fora do quartel, “sem as suas costumadas armas, e algumas mulheres, que logo foram vestidas, e adornadas (...) e os homens com tangas de chitas riscadas, e tudo o que apeteciam se lhes dava com demasiada franqueza” (Afonso Botelho, Notícia da Conquista e Descobrimento dos Sertões do Tibagi). 

Índios recebendo invasores com música e soldados distribuindo roupas para índias nuas não foi muito convincente. A realidade não batia com essa versão, contrariada por outra, de um caso de ingratidão dos índios. 

O relatório positivo não conseguiu esconder a reação negativa dos índios às expedições. Sem a colaboração deles, o projeto ficaria inviável. Portugal então se desinteressou pelo desbravamento do vasto interior paranaense, desconhecido mas não despovoado. 

Miranda, entre dois fogos

Botelho precisava noticiar a conquista pacífica e a rendição incondicional dos índios, mas não era fácil esconder as doenças que matavam soldados, a presença de nativos aguerridos e deserções.

Ao ser enviado como portador do relatório, o desenhista Joaquim Miranda, o “fotógrafo” oficial da expedição, pressionado por duas narrativas diferentes, registrou as cenas de paz que interessavam a Botelho mas também cenas de guerra com os índios, mostrados como cruéis e ingratos.

As versões antagônicas vindas da mesma fonte foram enviadas a Lisboa. Armado até os dentes, Botelho teria conquistado os índios com amabilidades? Ou a força militar portuguesa mais uma vez foi expulsa do interior paranaense, como nos tempos de Guairacá?

Botelho reconheceu que os índios o atrapalharam e propôs formar um grande exército para massacrar os desobedientes. O rei preferiu que o exército combatesse os estrangeiros.

CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

Em outra ilustração, os índios são apresentados respondendo com ingratidão e violência aos presentes recebidos 

 

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista e escritor.
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