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Opinião História do Oeste

Fazenda Fortaleza, o bastião do interior

O mito do interior despovoado se dissolveu com estudos para construir Itaipu que revelaram sete mil anos de presença indígena no Oeste

27/09/2020 09h09
Por: Alceu Sperança
Índio Kaingangue em traje festivo e arma de combate | Imagem: Thomas P. Bigg-Wither
Índio Kaingangue em traje festivo e arma de combate | Imagem: Thomas P. Bigg-Wither

Estudos arqueológicos feitos na área de Itaipu antes do alagamento identificaram achados com cerca de sete mil anos, confirmando a idade presumível da presença de índios no Paraná. 

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Não há como alegar, portanto, que o interior do atual Paraná era um “vazio” demográfico antes da colonização do Oeste, que erroneamente se supõe espontânea. 

Os relatos dos bandeirantes e dos jesuítas já davam conta de grandes populações indígenas na região. O mito do despovoamento se devia somente à inexistência de recenseamentos das populações indígenas. 

Sem dúvida, a parte já colonizada do Paraná no final do século XVIII ainda era escassamente povoada: resumia-se a apenas 17.288 habitantes em 1779. Toda a região dos “Campos de Curitiba” contava com 6.828 habitantes (Pedro Calil Padis, Formação de uma economia periférica; o caso do Paraná).

Só Campo Erê resistiu

Com ampla presença no Paraná, os Kaingangues, também conhecidos como Coroados, pelo corte raso do cabelo formando uma rodela ou coroa acima da nuca, ao ser massacrados e catequizados foram perdendo a toponímia que empregavam para nominar seus territórios: 

Koran-bang-rê (Campos de Guarapuava); Kreie-bang-rê (Campos de Palmas); Kampo-rê (Campo Erê – Sudoeste); Payquerê (campos entre os rios Ivaí e Piquiri hoje nos município de Campo Mourão, Mamborê, Ubiratã e outros adjacentes); Minkriniarê (campos de Chagu, oeste de Guarapuava no município de Laranjeiras do Sul); e Campos do Inhoó (em São Jerônimo da Serra).

O Oeste do Paraná sob domínio indígena ainda não contava com nenhuma fortificação autorizada pelas autoridades lusas. Havia ordens para não combater os índios, mas o interesse de Afonso Botelho, o comandante da região na época, era o mesmo dos fazendeiros: ampliar pela força a criação de gado nos campos ainda sob controle dos nativos.

Fortim mais capela

Na ação de avançar pelo território e se defender dos ataques indígenas, as posições deveriam se ampliar pelo interior por meio de fortins casados com capelas religiosas, para dar apoio armado ao negócio do gado (tropeirismo) e catequizar os índios capturados.

Um caso emblemático é a Fazenda Fortaleza, que se forma em 1788 e reúne os conceitos de criar, defender e escravizar. O tenente-coronel José Félix da Silva, dono da fazenda, teve uma vida de riqueza iniciada e mantida massacrando índios e abusando da escravidão. 

A Fortaleza começa a se formar quando, à frente de um grupo de aventureiros em busca de diamantes, ele se declarou o “descobridor” dos Campos do Inhoó (nome do cacique Kaingangue cuja tribo vivia na região), a vinte e sete léguas a noroeste de Castro. Ao ocupar a região pela força, os portugueses a renomearam como “Santa Bárbara”.

Ação paramilitar

José Félix da Silva, mencionado em diferentes pesquisas históricas também como José Félix do Canto e Silva e José Félix da Silva Passos, obteve a sua primeira sesmaria em 20 de maio de 1788. 

Ela teria sido um prêmio pela matança de tribos Kaingangues que comandou por meio de força paramilitar no propósito de abrir vanguarda à penetração de novas fazendas. 

Portugal não autorizava os massacres, mas os fazendeiros reportavam frequentemente às autoridades portuguesas que os índios eram um obstáculo à ocupação das terras requeridas. 

Para se vingar dos massacres, os índios invadiam plantações, matavam animais e pessoas, realimentando o rol de queixas contra sua presença entre os Campos Gerais e os Campos de Guarapuava.

Forma-se o latifúndio

Para se fixar nos Campos do Inhoó, José Félix expulsou os Kaingangues que ali viviam e passou a aumentar seu latifúndio.

Sua primeira propriedade foi uma faixa de três léguas de comprimento por uma légua de largura entre os rios Alegre e Faisqueira, afluentes do Tibagi, fechando-se o perímetro com o limite no ribeirão Bromado. Uma légua de sesmaria equivale a 6.600 metros.  

Os detentores de títulos de sesmarias podiam vendê-los e José Félix comprou 21 mil alqueires. A seguir solicitou e lhe foi concedida pela Coroa a maior extensão: 65 mil alqueires. 

Esse número fabuloso é relatado por Hellê Vellozo Fernandes, historiadora da Indústria Klabin, no livro Monte Alegre, Cidade Papel. Assim, na primeira década de 1800 o latifúndio de José Félix abrangia 86 mil alqueires.

Olhos flechados 

Com o crescente movimento de tropeiros, as notícias de ataques indígenas corriam mais rapidamente. José Félix e seu “estado maior”, que tinham cerca de cem escravos em serviço na área, reportavam frequentes ataques à Fazenda Fortaleza pelos índios.

Um dos relatos comunicados era de que um grupo de índios matou Brígido de Castro, amigo de Félix, e espetou a cabeça do morto num dos portões da fazenda, com uma flecha em cada olho.

Em retaliação, José Félix e seu capataz, Antônio Machado Ribeiro, à frente de milícia armada, encontrou um grupo de Kaingangues a 50 quilômetros da Fazenda Fortaleza. Lá, mataram todos os índios, até crianças e mulheres. O sangue tingiu o córrego e os corpos ficaram à mercê dos urubus. 

Conforme o registro de Hellê Fernandes, a “chacina do Tibagi” deu nome ao lugar: “Mortandade”. Assim o lugar ficou conhecido até ser mudado, 150 anos mais tarde: ali foram construídos o hospital e o Hotel Ikapê de Monte Alegre (atualmente município de Telêmaco Borba).

Ciúme, veneno, tesouros

O riquíssimo José Félix, porém, não teve um bom destino. Em viagem por mar entre Santos e Paranaguá, o militar fazendeiro conheceu e se apaixonou pela paulista Onistarda do Rosário, de Taubaté. Com ela viveu um romance de ciúme doentio, que o fez manter a esposa em cárcere privado na fazenda.

Narrativa popular conta que para esconder seu tesouro da mulher escolheu escravos e os levou até um lugar desconhecido: “Conta-se que José Felix tinha grande fortuna. Ela estava escondida em algum canto da fazenda e até hoje se procura esconderijo da fortuna. Os escravos que sabiam não voltaram pra contar pois o tal do José Félix tratou de os matar” (Lendas e Contos Populares do Paraná, Renato Augusto Carneiro Jr).

O miliciano fazendeiro ficou mutilado após sofrer vários atentados contra sua vida, praticados pela esposa, Onistarda, que ele mantinha encarcerada mas teria conseguido envenená-lo com a ajuda de alguém na fazenda, já em idade avançada. Após sua morte ela se tornou a mulher mais rica do Paraná: a baronesa de São Félix.

CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

Onistarda serve comida com veneno ao marido José Félix, em ilustração de Mick Carnicelli

 

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista e escritor.
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