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Opinião História do Oeste

Ordem aos paranaenses: produzir farinhas

Proposta de transformar aldeias indígenas em cidades criou atritos entre o governador paulista e as lideranças do Paraná

25/10/2020 09h08
Por: Alceu Sperança
Governador Antônio da Franca e Horta: além de se atritar com os Andrades do Paraná, teve briga séria com os Andradas de Santos
Governador Antônio da Franca e Horta: além de se atritar com os Andrades do Paraná, teve briga séria com os Andradas de Santos

1800. O novo século começa com as consequências das guerras napoleônicas. Uma delas – a escassez de alimentos em Portugal –, já afastada a rainha Maria I, tida por louca e fanática religiosa, fez o príncipe regente João de Bragança exigir do Brasil mais farinha para o pão de seus súditos. 

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A ordem para priorizar a produção de farinhas foi repassada a Curitiba e Paranaguá pelo governador paulista, Antônio Manuel de Melo e Castro de Mendonça. Em carta datada de 15 de dezembro de 1801, o governador comunicava ao secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Rodrigo de Souza Coutinho, que determinara o incentivo ao plantio da mandioca na Capitania.

Os preços do açúcar desabavam e os do algodão, requisitada matéria-prima americana, aumentavam significativamente. O perfil da economia mundial mudava, transformando também a estrutura produtiva do Brasil e determinando a vocação agrícola – e agroindustrial – do Paraná. 

A região, a partir daí, fornecerá farinhas para as frentes de batalha no Sul, no Mato Grosso e para o Nordeste resistir a longos períodos de seca.

O clã dos Andrades

Após a morte do líder Lourenço Ribeiro de Andrade, em 1799, seu filho mais velho, Antônio, herdou com os negócios, comércio de gado e fazendas de criar, as funções de capitão-mor de Curitiba, equivalente às de governador. 

Em sua condição de tropeiro, o novo líder de Curitiba tinha uma ativa cumplicidade com bandos de ladrões de gado e contrabandistas de cavalos nas esgarçadas fronteiras sulinas. 

Antônio Andrade ficou ainda mais rico e poderoso que o pai porque, para o contexto da época, a ligação com bandos e as ocupações de terras não constituíam atividades imorais ou criminalmente condenáveis.

O líder guerrilheiro paranaense Maneco Pedroso, por exemplo, foi um dos patriotas que tomaram dos espanhóis a região dos Sete Povos das Missões. 

No governo do clã Ribeiro de Andrade teve início a imposição do capitalismo no Paraná e a ocupação do Oeste. Além de oficial da Câmara da futura capital, Antônio também foi capitão-mor da Freguesia de São José e deve ser reconhecido como precursor dos futuros banqueiros.

Índios, o obstáculo habitual

Resolver a questão indígena era um componente obrigatório para a política de aproveitamento econômico da região, ainda defendida bravamente pelos descendentes do bravo cacique Guairacá, que “em sua fase áurea chegou a liderar cem mil índios, de doze tribos e nações diferentes” (Nivaldo Kruger, Paraná Central: A Primeira República das Américas).

Desde a primeira tentativa de ocupar o interior, em 1776, a proposta do capitão Afonso Botelho, apoiada pelos exploradores do sertão, era repudiada pela religião: sequestrar seus filhos para doutriná-los segundo a cultura europeia, liquidar os guerreiros e acasalar suas mulheres com soldados.

Na Corte em Lisboa ainda prevalecia a inclinação religiosa dos soberanos portugueses. Historicamente, os religiosos se opunham à escravatura dos índios e a rainha Maria herdou de seus antepassados uma extrema fidelidade à Igreja Católica. 

O príncipe João, entretanto, foi aconselhado a vencer e doutrinar os índios combinando a força militar com a catequese religiosa. 

Rendon: plano para dominar os índios 

Com a rainha afastada, crescia na Corte do príncipe João a aceitação à proposta de responder à ofensiva napoleônica formando “um grande império do outro lado do Atlântico”, defendida, dentre outros, pelo ministro Rodrigo de Souza Coutinho. 

Um grandioso império, entretanto, não podia ter uma vasta fronteira desocupada. O projeto de usar a religião e a força combinadas para vencer os índios partiu de José Arouche de Toledo Rendon (1756–1834), diretor-geral das Aldeias da Capitania desde 1798. 

Em 1802 ele apresentou um plano que consistia em “abolir os aldeamentos, transformando-os em núcleos ou povoações comuns”.

Em meio a difíceis tratativas para organizar a campanha de ocupação do interior do Paraná, entre junho e outubro de 1803 a Capitania de São Paulo foi governada, interinamente, por um triunvirato composto pelo bispo d. Matheus de Abreu Pereira, o ouvidor Miguel Antônio de Azevedo Veiga e o intendente da Marinha, José Maria Couto. 

O trio preparou uma excursão às matas inexploradas com a intenção de preparar as bases das futuras cidades.

Os pontos interessantes 

As determinações régias encaminhadas ao governador Antônio Mello e Castro de Mendonça na virada do século recomendavam, segundo ele mesmo, povoar “os pontos interessantes da capitania nos seus limites com Espanha, e os que dominam as cabeceiras dos rios que vão desaguar nos domínios espanhóis ou no Paraguai ou no rio da Prata” (Arquivo Histórico Ultramarino).

O padre curitibano Francisco das Chagas Lima e o militar português Diogo Pinto de Azevedo seriam os encarregados de cumprir os desígnios do príncipe João de tomar as terras do interior dominadas pelos índios. Eles chefiariam o emprego das duas armas recomendadas pelo estrategista Arouche Rendon: a cruz e a espada.

No fim de 1804, Napoleão Bonaparte é coroado Imperador da França em cerimônia referendada pelo papa Pio VII, mais um marco no avanço do capitalismo. Napoleão I, que estimulara os experimentos de Robert Fulton com embarcações e armas, ambicionava unificar a Europa sob seu cetro.

Povoados deveriam ter 18 famílias 

A organização da uma “expedição real de conquista” ao interior do Paraná foi decidida em meio a fortes embates entre o novo governador paulista, Antônio José da Franca e Horta, e as lideranças paranaenses.

 São estabelecidas em Curitiba “as condições e formalidades com que se deve fazer o caminho do Sertão”: “Será muito útil fazerem-se povoações no sertão que não poderão ser menos de dezoito fogos para poderem fazer frente aos bugres” (Raul d’Almeida, História de Rio Negro).

Fogo era a casa ou parte dela em que habita independentemente uma pessoa ou família. Uma casa de três cômodos poderia somar três fogos, desde que fossem indivíduos ou famílias independentes entre si.

Fácil planejar, difícil cumprir. Assim, somente em abril de 1807 começam a se definir os contornos da estratégia de ocupar o vasto interior inexplorado do Paraná. Tudo, porém, ainda dependeria de um movimento no xadrez europeu: o destino da família real portuguesa. 

CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

Arouche Rendon idealizou a fórmula que fez Portugal vencer os índios do interior paranaense 

 

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista e escritor.
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