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Opinião História do Oeste

Medo e frio, mas nenhum ataque dos índios

Os soldados escolhidos para conquistar o Oeste começaram adoecendo antes de chegar a Curitiba e depois suportaram um rigoroso inverno vigiados pelos nativos

16/11/2020 21h13
Por: Alceu Sperança
Estátua de Diogo Pinto de Azevedo Portugal em Guarapuava | Foto: Marcos Guerra
Estátua de Diogo Pinto de Azevedo Portugal em Guarapuava | Foto: Marcos Guerra

O comandante Diogo Pinto de Azevedo Portugal embarca em Santos e parte rumo a Paranaguá em 19 de junho de 1809. Carrega com ele um calhamaço de decretos, avisos, instruções, ordens e portarias referentes às ações a ser desenvolvidas na conquista do interior do Paraná. 

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De Paranaguá, sede da autoridade regional, segue a Antonina, onde suas tropas desembarcam em 24 de junho para se preparar e seguir a Curitiba. Essa primeira etapa da ação no Paraná não lhes foi nada fácil. 

Depois de transpor a Serra do Mar, “sempre em meio a muita chuva, as tropas alcançaram Curitiba a 2 de agosto, em estado lastimável, sendo a maioria dos soldados internados no hospital” (Arquivo Municipal de Curitiba, Documentos para a história do Paraná [1660 a 1872]).

Além de 200 homens armados que trazia, a expedição se completa em Curitiba com mais uma centena de colonos (voluntários, mulheres e escravos). À frente, sai de Curitiba em 3 de agosto um primeiro grupo de cem homens. 

Pelo menos os militares estão cientes de que os Campos de Guarapuava eram habitados por índios da nação Tapuia ou Jê, descritos como “aguerridos”, embora jamais tenham atacado a vanguarda de penetração.

Paranaguá era a capital

Vai começar, enfim, a definitiva conquista do Oeste. Partindo em 19 de agosto de 1809 para São Felipe, estabelecida como a vanguarda da frente de penetração, ali o chefe militar mandou explorar um caminho para os “Campos do Cupim” (Imbituva). 

A abertura do caminho prosseguiu, “chegando a 15 de novembro na [Serra da] Esperança, onde se fez a terceira roça e um grande quartel, distante de São Felipe de trinta e seis a trinta e sete léguas”, detalharia Diogo Pinto em relatório ao ouvidor João de Medeiros Gomes.

Monitorar o andamento da expedição de conquista ao interior do Paraná não foi o único feito histórico do ouvidor. Ele mudou a sede da Comarca de Paranaguá para Curitiba e provavelmente foi essa decisão que definiu Curitiba – e não Paranaguá, na época em melhores condições – como a capital do futuro Paraná.

Linhares, o pró-inglês

Dos Campos do Cupim, a expedição seguiu até os de Guarapuava, ali chegando a 16 de dezembro, “depois de vencidas catorze a dezesseis léguas”. A jornada ainda seria mais trabalhosa, cumprida só após três tentativas, em 28 de dezembro de 1809, para alcançar uma posição de acordo com as especificações das ordens recebidas.

Já em plena atividade, a abertura da estrada até o destino pretendido avançou em 16 de fevereiro de 1810 com a construção de pontes e aterros rumo a uma posição estratégica, batizada como Abarracamento de Linhares, sete léguas e meia adiante de São Felipe. 

O local homenageia o ministro Rodrigo Sousa Coutinho, o Conde de Linhares, partidário dos ingleses, sinal de que essa tarefa interessava aos planos britânicos para estender seus domínios pela América do Sul.

“Aí foram construídos quartéis, capela, armazém, cozinha, hospital, casas de ferraria e de farinha e também se fez uma roça. Na povoação de Linhares deveria permanecer a sede do Comando da Expedição, até o momento de marchar para Guarapuava” (Roselys Vellozo Roderjan, A Formação de Comunidades Campeiras nos Planaltos Paranaenses e sua Expansão para o Sul).

Medo e frio em Nova Esperança

A exploração e o prosseguimento da abertura da estrada para a circulação das tropas teve um novo marco no momento em que a abertura alcançou a Serra da Esperança, em 29 de abril de 1810. A turma já havia transitado por ali fazendo explorações e definindo o trajeto da via. 

Nessa data foi edificado o Quartel da Nova Esperança, “com capela, armazém, três quartéis, ferraria, cozinhas, monjolos, fábricas de farinha, tudo dentro do abarracamento, além de açude e roça”.

“Muitas pessoas dormem ao relento, junto ao fogo. A noite é tétrica, assombrosa. Mantêm-se fogos bem acesos, com o fim de aquecer e de, pela chama, afugentar as feras e, pela fumarada, os insetos. Há sentinelas alertas, guardas dos animais e guardas dos fogos, com rendição de hora em hora”, relataria o padre Francisco das Chagas Lima.

Um forte no local escolhido

“Nas primeiras noites, poucos dormem”, anotou Chagas Lima.. “Depois, pelo hábito e pela fadiga, dormem todos, menos os oficiais de serviço, as sentinelas e os guardas. Ouvem-se constantemente os brados de alerta. Também, às vezes se ouvem rugidos de feras espavoridas”. 

A vanguarda da expedição portuguesa de conquista inicia a marcha final para alcançar o local pretendido no meio dos Campos de Guarapuava em 10 de junho de 1810. A tropa havia deixado Linhares com cerca de trezentas pessoas: duzentos militares e cem civis. 

“Em plena mata, nela sobressaindo o pinheiro e a imbuia colossais ao lado da modesta erva-mate, o som dos clarins, as vozes do comando e o tropel dos animais se harmonizam com as vozes da natureza na floresta formidável”, relatava Diogo Pinto:

“A expedição seguiu picada aberta pelo guarda-mor Francisco Martins Lustosa, e a 17 de junho de 1810, sem oposição do gentio, saiu próxima à cabeceira de um rio que se denominou Coutinho. Como defesa, o comandante fez levantar o forte Atalaia, onde se construíram as primeiras casas para abrigar a tropa e as famílias” .

“Há de ser bom viver aqui!”

A expedição, aquelas cerca de 300 pessoas, entre soldados, colonos e escravos, observados à distância por sentinelas indígenas, chegou à cabeceira do Rio Coutinho, batizado com esse nome em uma nova homenagem ao ministro português Rodrigo de Souza Coutinho, já homenageado com o nome do Abarracamento de Linhares. 

“Apesar da friagem, que belas paisagens!”, anotou o comandante. “Que ar puro! Que água pura! Como há de ser bom viver aqui!”. 

No auge do inverno, os cavaleiros “tiveram a impressão de penetrar em um mundo fantástico de cristal, tão grande era a beleza dos campos guarapuavanos cobertos de gelo. A natureza caprichara naquela geada para receber os primeiros povoadores” (Gracita Marcondes, Nossa gente conta nossa história). 

Em 2 de julho foi escolhido o local onde a povoação ficaria – Atalaia foi seu primeiro nome. Exatamente como Diogo Pinto de Azevedo previra, em nenhum momento a grande expedição foi perturbada pelos índios. Só começaram a haver atritos quando os portugueses pressionaram os nativos para servi-los em aldeamento, contrariando seus costumes.

Primeiro contato foi pacífico 

Duas semanas depois de levantada a Atalaia, foi atraído o primeiro grupo de índios, provenientes das tribos Camés, Votorões e Cayeres, que habitavam diversos pontos dos campos visados pela ocupação. 

Segundo os cronistas da expedição, o grupo foi “muito bem tratado e agraciado, com presentes, durante sua permanência na povoação”. Desse primeiro contato, porém, resultaria o primeiro foco de atrito no paradisíaco cenário de inverno do centro paranaense.

Ao se retirar, os índios deixaram várias mulheres no acampamento. De acordo com seus costumes, este é um sinal de amizade e reconhecimento. O padre Chagas de imediato reuniu os homens e os exortou a evitar “a tentação de qualquer contato com as índias”. 

A reação que veio a seguir foi como uma declaração de guerra, como será visto na próxima semana.

CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

Representação do cacique Tindiquera no Bairro Alto, em Curitiba, homenageia os índios do Paraná | foto: Washington Cesar Takeuchi

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista e escritor.
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