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Opinião História do Oeste

A crise nacional se reflete no interior

Ao pisar na Constituição, o imperador criava crises que se espalhavam pelo país estimulando o uso da força

10/01/2021 11h06 Atualizada há 2 semanas
Por: Alceu Sperança
Governador Lucas Monteiro de Barros: desavenças com o padre Chagas e o comandante Rocha Loures
Governador Lucas Monteiro de Barros: desavenças com o padre Chagas e o comandante Rocha Loures

Dois meses depois da declaração de independência do Brasil, em dezembro de 1822 o governo paulista considerava Guarapuava bem defendida por Antônio da Rocha Loures e pretendia criar uma colônia militar ao Sul de Guarapuava para dar combate aos índios, descritos como selvagens e sanguinários pelos criadores de gado. 

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Comandante militar do interior, Rocha Loures pensava que seria mais produtivo estimular o desenvolvimento econômico da região favorecendo seu povoamento, mas criar uma colônia militar a Oeste, para proteção da vanguarda de povoamento, ainda não estava nos planos do governo, que miravam o Sul. 

Acusado de permitir a fuga de índios catequizados que partiam do aldeamento de Guarapuava de volta para a mata, deixando assim de trabalhar como escravos para os militares e colonos, Loures defendeu os fugitivos. Justificando seus motivos, viu nisso uma forma de povoar a região pacificamente. 

O apego aos costumes tribais criava resistência entre os índios a obedecer aos rígidos preceitos religiosos de padre Francisco das Chagas Lima, que funcionava como catequista e administrador de Guarapuava, mas voltando à mata com instrução religiosa, os índios poderiam povoar o Oeste sem repressão. Ao contrário, teriam apoio militar para se proteger dos gentios (os índios não catequizados).

Apelo à força

As trapalhadas do jovem imperador Pedro I no Rio de Janeiro, porém, não estimulavam a racionalidade e a paz. Ao contrário, estimulavam imposições autoritárias e o uso da força. 

Por conta disso, no interior do despovoado Paraná dessa época, a defesa de Rocha Loures e do padre Chagas Lima do caráter manso dos índios que povoavam a região foi derrotada pela pressão dos criadores.

O ano de 1823 começou com a posse de Cândido Xavier de Almeida e Sousa (1748–1831) como governante único de São Paulo, substituindo o triunvirato anterior, do qual ele também fez parte. 

Ainda jovem, Cândido Xavier havia experimentado o início da conquista de Guarapuava, em 1770. Com ele, São Paulo passava a ter um governador que conhecia bem o território governado e suas necessidades, mas isso de pouco serviu ao Paraná embrionário dessa época.  

Frustração constitucional

Ao mesmo tempo, os líderes futuro Paraná tinham a esperança de que a primeira Assembleia Geral Constituinte do Brasil, instalada em 3 de maio de 1823 pelo imperador d. Pedro I, pudesse representar autonomia para iniciativas próprias da comunidade.

Chagas Lima e Rocha Loures, por exemplo, tinham um plano de ocupação do Oeste bem definido, que não se limitava à força armada para combater índios e castelhanos.

Mas além de não terem apoio para esse projeto, pois a prioridade do governo estava no Sul, a elaboração da carta constitucional ia mal, manipulada pelos áulicos do imperador, que não viam com bons olhos as tentativas de autonomia. 

Para complicar ainda mais, Cândido Xavier deixou o governo em fins de 1823, assumindo o posto o mineiro Lucas Antônio Monteiro de Barros (1767–1851), que veio a ser hostil ao projeto do padre Chagas e seu cunhado Rocha Loures.

Antes de assumir o governo paulista, Barros havia exercido as funções de juiz de fora de Vila Rica. Depois, foi senador. No governo, preocupou-se com medidas para quebrar a resistência indígena denunciada pelos criadores e se opôs aos planos de Lima e Rocha Loures.

Problemas se acumulam

Os paranaenses sofreram muito com o domínio paulista nessa época. A principal queixa das lideranças regionais era que a política lusa continuava a mesma no Império, que também obrigava o deslocamento de comerciantes do Paraná para povoar o interior do Rio Grande do Sul. 

Enquanto os paranaenses faziam o Norte e Noroeste gaúcho, não havia ações de povoamento autorizadas entre Guarapuava e o Rio Paraná. Mais: a situação na região de Guarapuava era delicada, pela dificuldade do padre curitibano Francisco das Chagas Lima para administrar a rivalidade entre os grupos indígenas Camés e Votorões. 

Sempre um líder vigoroso, ele chegava já debilitado aos 67 anos de idade e afora lidar com os conflitos entre tribos diversas precisava dar respostas às angústias dos colonos. Rocha Loures tinha ordens para apoiar ações no Sul.

Além do deslocamento de seus comerciantes e chefes militares para outras regiões, uma queixa recorrente dos paranaenses era o recrutamento forçado de seus jovens para reforçar as frentes de combate. Neste caso, a independência nada alterou a situação anterior, em que o Paraná perdia seus jovens, escravos e empreendedores. 

A lei do Lobo

No interior do Paraná, sobressaía-se, dentre outros poderosos fazendeiros, Luciano Carneiro Lobo, que recebera como herança do pai, o capitão de cavalos dos Campos Gerais, Francisco Carneiro Lobo, a ação de ocupar os campos por meio do embate com os povos indígenas, pressionando em sentido contrário ao do padre Chagas.

“Este legado do estabelecimento das fazendas de invernada, criando animais e estabelecendo outra guerra, a guerra contra os indígenas, uma guerra silenciosa, mas que estava longe de ser imaginária” (Almir Antonio de Souza, Armas, Pólvora e Chumbo: A Expansão Luso-Brasileira e os Indígenas do Planalto Meridional na Primeira Metade do Século XIX). 

Luciano Carneiro Lobo comandava a organização estratégica das expedições contra os índios: “(...) decidia quem executava as missões, quem as comandava, quando seria realizada, e era quem autorizava a expedição propriamente dita. Utilizava todo seu poder de mando e articulação inclusive para defender seus comandados do recrutamento para as forças imperiais que lutavam nos conflitos com as províncias do Prata”.

Fechar e prender

O coronel Lobo propôs ao Conselho Geral da Província, em 18 de abril de 1823, montar uma guarda com 25 homens e um comandante, “municiados de pólvora e chumbo ficando obrigados a fazerem a guarda do Porto quando seja preciso, e rondarem do Itararé, até o Tibagi”.

Carneiro Lobo, “na prática, apesar de um tom de reverência às autoridades da Província e do Império, na maioria das vezes, não solicitava autorização, mas apenas comunicava suas decisões e o encaminhamento que dava às muitas situações em que estava envolvido, principalmente no que se referia aos indígenas”.

O apelo à força aumentou porque os desajustes no interior refletiam os desajustes nacionais. O Brasil mergulhou em sua primeira grande crise do período independente quando o imperador Pedro I descartou a nova Constituição, em preparo, que ele próprio havia proposto como adesão aos propósitos liberais.

Em recaída no autoritarismo monárquico, desfechou o golpe: mandou o Exército fechar a Assembleia Constituinte, prender e deportar os descontentes por não julgar a Constituição “digna de Mim”. Antônio Carlos de Andrada, ironicamente, saudou com o chapéu “Sua Majestade, o canhão”. As armas da Constituição ainda não tinham força para resistir às armas do golpismo.

CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

Luciano Carneiro Lobo: um dos grandes coronéis do interior paranaense logo após a independência

 

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista e escritor.
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