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Opinião História do Oeste

Ameaça de ataque indígena, truque para evitar a guerra

Os coronéis protegiam seus filhos e empregados de ser recrutados para combater os “rijos criollos” dos Pampas

17/01/2021 10h41 Atualizada há 2 meses
Por: Alceu Sperança
Para os coronéis paranaenses, era preferível inventar uma ameaça indígena inexistente a combater os aguerridos patriotas cisplatinos
Para os coronéis paranaenses, era preferível inventar uma ameaça indígena inexistente a combater os aguerridos patriotas cisplatinos

Há na historiografia paranaense muita controvérsia sobre o “perigo indígena” na primeira metade do século XIX. Com o predomínio das ideias agressivas do coronel Luciano Carneiro Lobo em oposição às propostas pacíficas do padre Francisco das Chagas Lima e seu cunhado, o chefe militar do Oeste, Antônio da Rocha Loures, cresceram a partir da década de 1820 as agressões aos índios no Oeste do futuro Paraná.

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Já sem o interesse do governo paulista pelo projeto da dupla Lima-Loures, bombardeado por denúncias de sangrentos ataques indígenas não comprovados, a questão era saber por que os coronéis alardeavam tanto uma ameaça que não existia. 

A versão de que não havia de fato o perigo de agressões indígenas era sustentada principalmente pelo padre Francisco das Chagas Lima, para quem ataques violentos só foram cometidos posteriormente, como reação a vários anos de expedições de caça promovidas pelos militares portugueses. 

Alvo: mulheres e crianças

A manobra dos militares lusos que mais irritava os gentios (índios ainda não catequizados) era usar os índios catequizados para capturar as mulheres e crianças das tribos resistentes ao aldeamento, onde eram forçados ao trabalho escravo.

O alarmismo do coronel Luciano Carneiro Lobo, que propunha às autoridades paulistas a formação de milícias armadas locais para combater os índios, encontrou, porém, mais um opositor no comandante da vila de Itapetininga, o capitão-mor Francisco Xavier de Araújo (1777–1836).

Para este, Carneiro Lobo usava o pretexto de que os índios eram cruéis e violentos para evitar que seus peões e subordinados fossem recrutados para colonizar e combater no Sul, onde estavam as prioridades paulistas.  

Solução: formar milícias 

Os ricos fazendeiros usavam seu poder para proteger os filhos do recrutamento, mas os empregados deles e seus agregados pobres eram recrutados sem escapatória. 

As supostas ameaças indígenas, nesse caso, tinham o propósito de evitar o recrutamento dos peões das fazendas, evitando que fossem à luta na frente sulina, onde estava em jogo o domínio sobre o atual Uruguai. 

Ali teriam que enfrentar não os pobres índios da região, que se dizimavam entre si, incitados pelos portugueses, mas os “rijos criollos” dos Pampas, onde uma população explorada pelos europeus estava sequiosa por liberdade e independência.

O “perigo indígena”, neste caso, foi criado por Carneiro Lobo e elite paranaense para sugerir ao governo paulista a necessidade de criar milícias com os moradores pobres, sob o comando dos filhos dos coronéis, para resistir aos supostos ataques dos selvagens.

Perigo fictício

Para o comandante de Itapetininga, “o perigo indígena alegado por moradores pobres para não serem recrutados era fictício e [...] não existia” (Almir Antonio de Souza, Armas, pólvora e chumbo). 

Em comunicado ao Conselho Geral da Província datado de 14 de maio de 1823, o capitão-mor Xavier de Araújo informou que somente 16 anos antes das queixas sobre a suposta ameaça indígena aconteceu um episódio que nunca mais se repetiu: um grupo de índios “que andavam de corso”*  atravessou a estrada geral que seguia para a Vila de Itapeva, onde causaram algum tumulto mas foram afugentados e nunca mais voltaram.

O argumento mais racional usado pelas famílias abastadas e comerciantes militares locais que tentavam evitar o recrutamento de seus filhos para as Guerras Cisplatinas era de que o esvaziamento populacional do interior do Paraná dessa época deixava um vazio propício à eventualidade de ataques a instalações como portos, paióis e ranchos de lavradores.

* Andar de corso: perambular, apanhando nas andanças o que estiver ao alcance da mão.

Miliciano não tem soldo

Carneiro Lobo, o poderoso chefe militar de Jaguariaíva, propunha aproveitar os habitantes desta vila e arredores, como Ponta Grossa, como “corporação de ordenanças” (uma espécie de polícia), não só por serem moradores da região, mas por ter conhecimento do território. 

Naturalmente, defendia o coronel, sendo proprietários interessados em manter suas posses, a força miliciana local teria mais interesse na conservação das suas propriedades que militares vindos de longe, sem condições de agir imediatamente na mata por não conhecer a região.

O argumento preferido pelo coronel era uma isca ao governo paulista: a milícia local, mantida pelos próprios fazendeiros, “poupa as despesas à fazenda nacional”. Além disso, informava Carneiro Lobo, já estava em ação “uma companhia denominada de Aventureiros”, composta de trinta homens.

Esse grupo de mercenários sertanejos faria as expedições punitivas aos índios com mais eficiência que soldados deslocados de postos militares localizados a cerca de dez léguas. Vinte milicianos residentes nos arredores poderiam dar conta da tarefa, propunha o coronel ao governo paulista, em 17 de dezembro de 1823.

A democracia dos ricos

Em 1824, sem oposição do governo, os coronéis formavam milícias próprias, resguardando os mercenários sertanejos de ser recrutados para combater no Sul.

Trabalhando nas fazendas sob o pretexto de combater supostos índios rebeldes, evitavam cair na mira dos guerrilheiros uruguaios em sua luta por liberdade.

Enquanto isso, no cenário nacional, a primeira Constituição do Brasil foi outorgada em 25 de março de 1824. Atendendo à vontade do imperador Pedro I, criava uma “democracia” ao gosto do monarca.

Para votar, era preciso ser homem, ganhar mais de 100 mil réis por ano e ter mais de 25 anos da idade. Só podia ser candidato a deputado quem ganhasse no mínimo 400 mil réis por ano. Os senadores eram vitalícios. 

A nova Carta instituía em lugar das antigas capitanias a Província, a ser governada por um presidente e não mais por um capitão-general. Os presidentes provinciais seriam escolhidos pelo imperador e podiam ser demitidos por ele ad nutum (a qualquer momento, sem explicações). 

Apesar de tudo, a Constituição permitia o início da luta dos paranaenses pela criação de sua própria Província.

CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

Narrativa lusa: índios obedientes e em fila se submetendo às ordens dos soldados portugueses

 

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista e escritor.
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