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Opinião História do Oeste

Para coronéis, padre era louco e valia leiloar índios

Defendendo a venda de índios capturados, acusavam o catequista de escravizá-los

31/01/2021 10h39
Por: Alceu Sperança
Teoricamente, bandeirantes caçavam riquezas e retornavam. Entradas ocupavam territórios e mantinham posições
Teoricamente, bandeirantes caçavam riquezas e retornavam. Entradas ocupavam territórios e mantinham posições

Em ofício datado de 3 de agosto de 1825, o irritado governador paulista Lucas Antônio Monteiro de Barros advertiu o comandante Rocha Loures que era seu dever manter na vila e na aldeia de Atalaia (atual Guarapuava) “a prática dos bons costumes”. 

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Com base no relatório que recebera do padre Francisco das Chagas Lima, o governador concluiu que a causa do arrasador ataque indígena à vila em 24 de abril de 1825 foi “a desobediência e repreensível procedimento dos índios aldeados em irem procurar e ofender os que se acharam pacíficos em suas habitações” (Arquivo Público do Estado de São Paulo, Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo).

As tribos atacaram porque sistematicamente perdiam suas mulheres e filhos para os soldados lusos e índios catequizados pelo padre Chagas Lima. Eles saíam armados pelo mato invadindo aldeias na ausência dos guerreiros e levavam para Atalaia as mulheres e as crianças capturadas para vendê-las em leilões aos fazendeiros. 

Padre seria “louco”

O padre Francisco das Chagas Lima, tido como “louco” pela milícia paramilitar sertaneja que capturava mulheres e crianças, tentava sem sucesso impedir que os índios fossem escravizados pelos fazendeiros.

O padre continuava sustentando que dominar os índios pela catequese, mantendo-os disciplinados em aldeamento organizado pelos brancos, era a receita para ocupá-los nas fazendas e nas obras de desbravamento do interior paranaense, ações que a religião considerava justas.

Na visão dos coronéis do sertão, porém, era loucura não escravizar, deixando livres na mata os índios que rejeitavam a catequese e não aceitavam se tornar escravos dos fazendeiros.

Para eles, permitir a liberdade dos nativos seria criar inimigos que poderiam criar obstáculos ao avanço das estradas e à formação das colônias, agora com a vinda de imigrantes para substituir a mão de obra escrava.

Telhas contra flechas incendiárias

O governador paulista reprovou o comportamento dos índios aldeados, que a serviço dos coronéis caçavam as mulheres e crianças das tribos livres no mato. Considerava assim ineficaz o sistema montado pelo padre Chagas Lima e seu cunhado, Antônio da Rocha Loures na futura Guarapuava.

Para evitar flechas incendiárias sobre as choupanas, apontadas como a origem da destruição da vila, Barros recomendou um progresso: contratar um oleiro para fabricar telhas e com elas cobrir as casas. 

Quanto aos índios catequizados, segundo o governador, a autoridade local deveria ter sempre em vista empregá-los efetivamente na agricultura e outras tarefas necessárias e “ao mesmo tempo ir habilitando a alguns índios moços e que não tenham vícios para o Serviço Militar”.

Monteiro de Barros ainda mandou cuidar dos “índios que restam”, fornecendo-lhes cobertores, peças de algodão e uma quantia de 150 mil réis. Esses “índios que restam” – ou seja, os que sobreviveram ao ataque, passariam a compor uma aldeia à parte, mas junto à vila.

Ótimo negócio

O governador paulista condenava a perseguição aos índios refratários, mas a repressão paramilitar dos coronéis não cessou. 

Eles negavam que fizessem leilões em praça pública com os índios apreendidos, mas concordavam “que fossem vendidos pelas pessoas que participavam das entradas*, e que o dinheiro era repartido metade para o dono da entrada e a outra metade pelos demais participantes” (Almir Antonio de Souza, Armas, Pólvora e Chumbo).

Negavam o que confessavam, portanto. Aprisionar índios, sobretudo mulheres e crianças, e vender seus “serviços” aos fazendeiros, durante o prazo de quinze anos, previsto em lei, era um negócio rendoso, considerado estruturante para a ocupação do interior paranaense.

*Entradas eram expedições governamentais. Bandeiras eram as expedições privadas. 

Chegam os ingleses

A erva-mate já enriquecia os líderes paranaenses no segundo quarto do século XIX. Em 1826, o produto representava 70% das exportações regionais. As ótimas possibilidades da extração, preparo e exportação do mate atraíram a atenção dos interesses britânicos que já dominavam a Argentina.

Progressivamente, começando no Império e se estendendo pela República, os interesses anglo-argentinos foram controlando passo a passo toda a cadeia do negócio ervateiro, desde o litoral até as inexploradas matas do Oeste.

Aproveitavam a facilidade com que o governo imperial brasileiro distribuía concessões de terras na faixa de fronteira. Tais interesses, formando empresas conhecidas como obrages, passam a tomar conta do interior do Paraná, empregando mão de obra paraguaia.

Escravos para São Paulo

A presença do controle britânico sobre o Paraná se manifestava desde o monitoramento da burla dos fazendeiros à lei restritiva ao tráfico de escravos da África ao Brasil até o controle de qualidade da erva-mate industrializada.

A cafeicultura paulista em franco desenvolvimento usava os escravos introduzidos clandestinamente pelos portos do Paraná. Não trabalhavam aqui: só transitavam pelo Paraná e seguiam a São Paulo.

A região, sem escravos para trabalhar, também perdia seus jovens, levados para as guerras no Sul. 

Pagar a independência com empréstimos tomados junto aos banqueiros britânicos e altamente lesivos aos interesses brasileiros pôs o imperador Pedro I frente a um Tesouro Nacional desprovido de ouro. 

Seu pai, o rei João VI, havia raspado os cofres brasileiros como indenização pelos “benefícios” trazidos pela Corte à Colônia.

Inovação derrubou o Brasil 

Pedro I tentou abater a dívida enviando à Inglaterra 50 quintais (três toneladas) de toras de pau-brasil para leiloá-las em Londres. 

“A esperança do Imperador de saldar a dívida com o pau-de-tinta esbarrou numa inovação tecnológica: o advento da indústria de anilinas reduzira em muito o valor da árvore-símbolo do Brasil. Os juros foram pagos com atraso. Em dinheiro, não em paus” (Eduardo Bueno, História do Brasil).

O Brasil se perdia, mas o Paraná tinha futuro. As origens do ciclo migratório europeu pós-Portugal ao Paraná estão no desenvolvimento das obras da estratégica Estrada da Mata, um dos caminhos tropeiros que ligaram São Paulo e Rio Grande do Sul.

A via se constituiu no principal eixo da circulação de riquezas no Brasil nessa época. Os imigrantes alemães seriam selecionados para receber, com as terras, a missão não contratual de rechaçar a presença indígena nos arredores. 

CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

Símbolo do atraso brasileiro: quando Pedro I quis pagar a dívida com o pau-brasil, a inovação das anilinas derrubou seu valor

 

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Sobre Alceu Sperança
Jornalista e escritor.
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