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Opinião História do Oeste

Brasil desgovernado e revolução vitoriosa

Com o país em frangalhos e a revolução liberal irradiando da França, o imperador Pedro I entrega a nação a uma criança de seis anos

14/02/2021 11h08
Por: Alceu Sperança
Os Campos de Palmas eram habitados por índios que não aceitavam a escravidão
Os Campos de Palmas eram habitados por índios que não aceitavam a escravidão

Em 1830 já se consolidara a pecuária entre os Campos Gerais e os de Guarapuava. As criações se expandem por vastos latifúndios, as fazendas se multiplicam e os coronéis se queixam da falta de terras tomadas definitivamente aos índios, para estender mais estabelecimentos e ampliar o controle do vastíssimo interior do futuro Paraná.

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“Fazendeiros, tropeiros, comerciantes se embrenham pelos campos e matas abrindo picadas que facilitassem as comunicações (...) Os Campos de Palmas são a nova opção para o estabelecimento de mais fazendas” (Roselys Vellozo Roderjan, A Formação de Comunidades Campeiras nos Planaltos Paranaenses e sua Expansão para o Sul).

A estratégia de exploração dos Campos de Palmas seria aplicada por dois grupos distintos, envolvendo interesses de Curitiba e dos Campos Gerais.

“Muitos de seus sócios participaram da Conquista ou são seus descendentes. Outros tornaram-se posteriormente proprietários de fazendas nos Campos de Guarapuava, a maioria deles fazendo parte de uma vasta parentela que se gerou nas comunidades originadas das vilas de Curitiba, Castro e Paranaguá e seus distritos” (Roselys Vellozo Roderjan).

Revolução e imigração

Um evento ocorrido na Europa em 1830 viria a ter influência marcante no Brasil e determinar o futuro do Paraná. Depois de um confronto dramático, a vitoriosa Revolução Liberal na França, em 29 de julho, após três dias de barricadas em Paris, culminava na deposição do rei Carlos X.

O povo europeu sofria. Sua opção era resignar-se à miséria, aderir à revolução ou migrar para o Novo Mundo. 

Entendimentos com o governo brasileiro para a transferência de grupos de famílias europeias para substituir a mão de obra escrava resultaram em uma legislação imperial para regular a prestação de serviços por estrangeiros.

Em setembro de 1830, para incentivar o desenvolvimento da agricultura brasileira, o governo estabelece regras rígidas para o cumprimento por parte dos imigrantes. Facilitava aos proprietários de terras para explorar a nova mão de obra como lhes fosse mais conveniente.

O espírito da revolução se alastra

A experiência pioneira de assentamento de imigrantes em Rio Negro, no Paraná, insere-se no amplo programa de colonização promovido pelo Império, mas com o Brasil endividado, os gastos públicos sofriam restrições e cortes.

As verbas públicas para formar núcleos coloniais com estrangeiros foram sacrificadas e “uma lei oficializou a proibição desses gastos, retraindo o processo imigratório” (Etelvina Maria de Castro Trindade e Maria Luiza Andreazza, Cultura e educação no Paraná). 

Os embaraços à vinda de imigrantes ao Brasil agravaram o ímpeto das rebeliões dos povos europeus. A burguesia ascendente, apoiada pela revolta popular na França, punha o absolutismo em xeque ao desencadear a Revolução Liberal, cujas sementes também germinariam rapidamente em solo brasileiro. 

As primeiras notícias da nova revolução europeia, que de Paris se alastrou para outros cantos da Europa, inclusive Portugal, logo também chegam ao Brasil. 

Resistir ao imperador

O Paraná, que seria chamado em breve a decidir o confronto entre conservadores e liberais, também vivia um momento conflituoso entre forças políticas e econômicas então em movimento para afirmar sua hegemonia na região.

A situação do Brasil nos meses finais de 1830 é de resistência ao autoritarismo do imperador Pedro I. Em outubro, os professores paulistas se negaram a festejar o aniversário do monarca.

A doutrina liberal, base da Revolução Francesa, já se espalhava pelo Brasil e cresciam as manifestações pela autonomia das regiões, reivindicação que disfarçava a aspiração republicana.

Sintoma liberal, na sessão da Câmara paulista de 3 de novembro um parecer da Comissão de Colonização e Catequese, da qual também fazia parte o ex-presidente provincial Lucas Monteiro de Barros, repudiou a prática de escravidão imposta aos índios da região do futuro Paraná.

“(...) chegando a barbaridade a ponto de [os índios] serem vendidos em leilão, pretextando que se vendiam os serviços não de quinze anos, mas talvez perpétuos, e, o que era pior ainda, dos filhos destes índios, e dos filhos destes filhos”.

País descontente e revoltado

No interior, mesmo distante dos tensos acontecimentos de São Paulo e Rio de Janeiro, a falta de respostas às reivindicações da desassistida colonização em Guarapuava se somava ao estado de insatisfação reinante no Brasil. Na região, a prioridade absoluta era a abertura e manutenção de caminhos para a movimentação de tropas e mercadorias.

Muitas queixas surgiram com a paralisação do projeto de assentamento de imigrantes no interior do Paraná, que se esgotou na experiência pioneira de Rio Negro, onde os imigrantes alemães foram abandonados à própria sorte em. Só ao chegar no local souberam que precisariam disputar com os índios as terras do assentamento. 

Imigrantes abandonados

Depois de uma ampla campanha para atrair mão de obra destinada a substituir os escravos, encetada nos países europeus mais afetados pela crise produzida pela ascensão do capitalismo, a experiência pioneira de assentamento colonial com imigrantes europeus em Rio Negro se perdeu em abandono e o descarte de novos projetos.

A lei orçamentária aprovada em 15 de dezembro de 1830 não só punha fim aos créditos anteriormente reservados à colonização com estrangeiros como reduzia a pó os valores ainda devidos na forma de ajuda ao assentamento de colonos já estabelecidos em seus locais de destino.

Os colonos também lamentaram de imediato a precariedade da infraestrutura existente nesse Paraná ainda despovoado na primeira metade do século XIX.

Povo e tropa expulsam imperador

A “revolta do povo e da tropa” levou o imperador a negociar sua abdicação em favor do filho, então com 5 anos, depois do que redigiu rapidamente estas poucas palavras: 

“Usando do direito que a Constituição me concede, declaro que hei muito voluntariamente abdicado na pessoa de meu muito amado e prezado filho o Senhor D. Pedro de Alcântara. Boa Vista, 7 de abril de mil oitocentos e trinta e um, décimo da Independência e do Império”.

Desde o início de 1831 já fermentavam em diversos pontos do Brasil rebeliões liberais que desafiavam o despotismo imperial e se alimentavam da crise econômico-social, caracterizada pelo endividamento nacional, dificuldades financeiras para a população, escassez de recursos para a infraestrutura e rigores climáticos.

A essa altura, a nação havia sido entregue pelo imperador desacreditado a uma criança de seis anos de idade: Pedro II.

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Sobre Alceu Sperança
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