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Os colonos religiosos contra o Estado-jagunço

As atribulações de Palotina, uma colonização que seria perfeita se não fossem intrigas, ameaças e violências 

09/06/2024 às 09h01
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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Palotina surge da rápida venda de terras feitas pelo padre Hermogênio Borin e de uma longa disputa entre Estado e União 
Palotina surge da rápida venda de terras feitas pelo padre Hermogênio Borin e de uma longa disputa entre Estado e União 

A colonizadora Maripá, que iniciou Toledo, deu origem a diversos braços empresariais. Um deles foi a Companhia Pinho e Terras, que também tinha como acionista o empresário Rui de Castro. Em 1953, Castro e sua empresa adquirem da Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco) o direito de comercializar 25.310 alqueires da Gleba Piquiri, no Município de Guaíra. 

Nessas terras, assinaladas em cinco escrituras públicas documentadas no ofício de registros de Imóveis da Comarca de Toledo, garantia oferecida aos compradores de terras, irá brotar no futuro a cidade de Palotina. Oficialmente fundada em 6 de janeiro de 1954, data da primeira missa, nasceria com Palotina também uma grave questão agrária.

Não se compreende a gravidade da questão sem historiar a origem da Gleba Piquiri (https://x.gd/P6Rpb) e sua transferência à colonizadora Pinho e Terras, esta sob controle acionário de Alfredo Paschoal Ruaro, primeiro dirigente da Maripá no Oeste, Alberto e Luiz Alberto Dalcanalle.
A Pinho e Terras surgiu em 1946, em Céu Azul, integrada ao projeto da Rota Oeste, com finalidades similares a outras empresas do gênero: comércio de terras, extração, exportação e beneficiamento de madeiras.

O interesse em formar uma cidade na Gleba Piquiri veio dos padres do apostolado de São Vicente Palotti (https://x.gd/LRuPu), sediados em Santa Maria (RS). Consultado a respeito, o prelado de Laranjeiras do Sul, d. Manoel Koenner, concordou com a vinda de colonos, atraídos pelo padre e corretor Hermogênio Borin (1921–2010). 

O milagre das vendas rápidas

Borin imprimiu milhares de folhetos prometendo o paraíso a quem comprasse as terras de Palotina – a e o padre Borin ofereciam as melhores do mundo, com exceção da Ucrânia. 

A colonizadora indicava como garantia da legalidade das terras estarem registradas em Foz do Iguaçu. No entanto, omitia (ou ignorava) que eram alvo de disputa judicial entre a União e o Estado.  

“A caravana pioneira que vem para iniciar Palotina sai de Concórdia (SC) formada por uma camioneta, um automóvel e um caminhão Chevrolet Tigre. A iniciativa é do ousado farmacêutico Abud Dequech que, dentre outras proezas, já havia fundado a cidade paranaense de Assaí e a catarinense Ipumirim” (Alceu A. Sperança, 150 Anos de Governança Paranaense). 

Oito meses depois de iniciada, segundo o jornal Correio Riograndense (n° 34, 1º/9/1954), a atração de colonos registrou a venda de mais de 1.500 colônias, além de chácaras e lotes urbanos.

Os colonos, muito religiosos, confiavam muito nos padres. Chegaram ao Oeste do Paraná vindos de minifúndios localizados nos arredores da Serra de São Martinho (RS), estendendo-se pelos municípios de Santa Maria, Cachoeira do Sul e Júlio de Castilhos, além de toda a encosta do Alto Uruguai, segundo o padre Rafael Pivetta (História de Palotina).

Sem ser alertados que as terras estavam sob questionamento, até porque a Pinho e Terras tinha autorização do governo federal para iniciar a colonização, eles compraram e amaram a terra, fundando a cidade de Palotina.

A revelação preocupante 

A comunidade palotinense seguiu em franca prosperidade até que em 1958 a preocupante informação circulou pelas colônias: logo após a revolução de 1930, o interventor do Paraná, Manoel Ribas, por meio do famoso decreto 300, tomou as terras da Braviaco.

A Braviaco fez pouco do decreto estadual e continuou a negociar as terras sob seu controle desde antes da revolução. Ironicamente, o gaúcho Ribas nasceu na região de onde os colonos de Palotina viriam, duas décadas depois. 

Por conta da história antiga, o governo do Paraná “resolveu – sem respeitar a legítima propriedade de Ruy de Castro e de centenas de famílias de agricultores de Palotina –, expedir títulos de domínio pleno sobre as terras de Palotina, em favor de terceiros” (Wilson Carlos Kuhn, advogado defensor dos colonos).

Kuhn, que no futuro (1973) seria prefeito de Toledo e importante líder ruralista em Cascavel e região, chamou os beneficiados pela iniciativa do governo estadual de “agricultores do asfalto”. 

População prisioneira

Segundo Kuhn, a manobra usada para tomar as terras dos colonos foi denominar parte do imóvel Piquiri em duas partes, denominadas “Colônia Rio Azul” (na verdade, o rio deveria ser escrito como “Açu”) e Colônia Piquerobi”. Mesmo assim, os supostos donos da “titulação imoral”, como a qualificou o advogado Kuhn, nunca tomaram posse efetiva de qualquer parte da área.

A tentativa de tomar posse esbarrou na resistência dos colonos, em 4 de julho de 1958. Dois esquadrões de policiais enviados pelo governador Moysés Lupion sitiaram Palotina: ninguém podia entrar nem sair da cidade durante o cerco. 

“Do conflito resultaram pelo menos dois mortos, e vários outros posseiros estão feridos. [...] A escolta policial do Paraná era comandada pelo major Aroldo Cruz, delegado regional de polícia em Cascavel e obedecia a instruções do Departamento de Terras do Estado” (jornal Última Hora, Rio de Janeiro, 9/7/1958). 

Na noite do dia 5, os policiais promoveram arruaças pela cidade amedrontada. “Gritavam riam, davam tiros a esmo, pareciam bêbados”, contou Severino Gênero. Furando o cerco, o colonizador Hélio Bordin partiu por um picadão antigo rumo a Foz do Iguaçu, onde conseguiu com o Exército o envio de um pelotão para socorrer e tranquilizar a população. 

A tutela militar

Foi o inverno mais tenso da região. Os colonos revoltados ainda tinham frescas na memória as notícias sobre as barbaridades cometidas contra os colonos em Porecatu e as violências praticadas pelos jagunços no Sudoeste, que resultaram na rebelião de outubro de 1957.

Era o próprio Estado que assumia o papel de jagunço a serviço dos interesses dos grileiros, enfrentando a Justiça Federal e usando sua polícia como milícia privada, a tal ponto que a União se obrigou a enviar o Exército para desmontar o cerco sobre Palotina.

Em episódio raríssimo na República, o Exército manteve a proteção dos colonos palotinenses contra o Estado-Jagunço ao longo de três anos. Nesse ínterim, uma assembleia popular foi convocada para o Cine Real em 29 de setembro de 1958, para a aproveitar a presença do governador Moysés Lupion,.

Posto contra a parede pelo prefeito Celino de Araujo, de Guaíra, Lupion ouviu do padre Rafael que o povo local não estava contra os poderes constituídos, aos quais pedia apoio para sua justa reivindicação. 

Governo insistiu até o fim

Lupion prometeu que o colono de boa-fé não seria prejudicado e os contratos feitos seriam respeitados. Longe da pressão, empurrou o ao Supremo Tribunal Federal caso sem favor aos colonos palotinenses. A decisão do STF saiu em 21 de novembro: contrariando o governo do Paraná, dava ganho de causa aos colonos por unanimidade.

Imediatamente o Estado apelou e questão se arrastou pelos anos. “Tal estado de coisas paralisou o estímulo ao comércio e indústria toda produção”, escreveu padre Pedro Reginato. “A Sadia estivera com projetos de se estabelecer na cidade, mas desistiu ante a insegurança”. 

“O que assustava um pouco a gente era a presença de jagunços, que estava principalmente perto do Rio Piquiri e na linha entre Palotina e Terra Roxa”, contou Severino Gênero, que chegou à região em março de 1955. “Quando eu tive que ir a Guaíra para obter uns documentos, topei com uma turma de jagunços armados de mosquetão e metralhadora”.   

Regularização foi de 1972 a 1976

Muitos se desfizeram do que tinham e migraram para o Acre, Mato Grosso, Rondônia e Goiás, regiões em que não ficariam dependendo de uma sentença judicial que sempre lhes dava ganho de causa, mas nunca era aplicada. 

Com a criação do Município e a eleição do governador Ney Braga em 1960, a regularização final mais uma vez foi prometida. “Os colonos tiveram que pagar mais 20 mil cruzeiros cada lote e não viram escritura nenhuma”, reclamou Severino Gênero. 

Após o golpe de 1º de abril de 1964 também se esperou solução, mas nada houve nem depois que o governo civil-militar sofreu um golpe interno e se tornou ditadura com a edição do AI-5, em 1968. 

Nada mudava, a não ser o STF continuar dando ganho de causa aos colonos: ao derrotar agravo interposto pelo Estado, em 23 de agosto de 1972, permitiu o início dos processos de desapropriação e escrituração por parte do Incra, que se estenderam até o final do imbróglio, em 1976.

100 anos da revolução: Cascavel não existia 

O presidente Artur Bernardes assumiu em 1922 já em meio às agitações tenentistas. Os movimentos de 1922 (São Paulo) e 1923 (Rio Grande do Sul) desaguariam, nesses dois Estados, em uma nova revolução brasileira.

Cascavel não existia nessa época. Desde setembro de 1922, só havia uma propriedade rural com apenas cinco choupanas às margens do Rio Cascavel, onde o pioneiro Antônio José Elias, o cunhado Ernesto Schiels e família prestavam serviços à companhia ervateira Barthe.

No fim de fevereiro de 1924, Caetano Munhoz da Rocha iniciava novo mandato no governo do Paraná, reafirmando a supremacia política estadual da oligarquia Camargo-Munhoz.

Era essa a situação no Oeste quando a revolução irrompe, em 5 de junho de 1924, em São Paulo. Ainda confusa, embrionária e desorganizada, não tinha um ideário claro. Só propostas pontuais que não questionavam de fato o sistema de poder.

Retratava a classe média brasileira em seu estágio na época, que sofria, mas confiava nas instituições e nos líderes, enquanto o povo pobre e oprimido se socorria em crenças de verniz religioso, como a santidade de monges e curandeiros.

Revolucionários em São Paulo preparam canhão para disparar

 

 

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