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Opinião História do Oeste

A origem dos gaúchos e o “cacique general”

Complô para desmoralizar Condá tirou seu poder militar mas o levou a um grande papel na história do Sul

04/04/2021 às 09h20
Por: Alceu Sperança
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O cacique Pahy, dos Guaranis Kayová. Ele decidiu abrir mão de seu poder, mas Condá persistiu e teve seu poder militar retirado pelos colonizadores
O cacique Pahy, dos Guaranis Kayová. Ele decidiu abrir mão de seu poder, mas Condá persistiu e teve seu poder militar retirado pelos colonizadores

A rigor, os gaúchos só aparecem como designação de nativos do Rio Grande do Sul com a Guerra do Paraguai (1864–1870). Bem antes, são os sertanistas do Paraná, ao marchar rumo ao Planalto Médio do Rio Grande do Sul, que dão forma à imagem futura do gaúcho tradicional, cristalizada em seu contato com o Uruguai.

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Pelos campos do Sul paulista (o atual Paraná), alastravam-se as criações de animais e os líderes locais eram principalmente descendentes dos tropeiros, atividade já com um século de atividade. 

Duas décadas antes do início da Guerra do Paraguai, em Palmas, cuja exploração havia sido recentemente iniciada, já estavam constituídas cerca de 40 fazendas de criação de animais. 

Havia percalços, mas a conquista do Oeste avançava por ali, pela ação dos gaúchos de Guarapuava e Palmas. 

Paranaenses na história do RS 

O remoto interior rio-grandense foi integrado ao Brasil pelos paranaenses Bernardo Castanho da Rocha e Atanagildo Pinto Martins. 

O primeiro se estabelece em 1811 no Pinheiro Torto. Martins parte em 1815 e se fixa em Cruz Alta, origem de Passo Fundo, Santa Maria e Santo Ângelo.

A etapa final desse processo tem início em 16 de agosto de 1844, quando portaria do governo da Província de São Paulo incumbe o alferes Francisco Ferreira da Rocha Loures (1808–1871), nascido em São José dos Pinhais, de abrir uma picada para possibilitar a passagem pelos Campos de Nonoai até Cruz Alta e a partir dessa localidade rumo às Missões. 

Ligaria assim em definitivo o interior do futuro Paraná à Província do Rio Grande do Sul.

Importante assinalar que até 1853 a região nunca foi chamada como “Paraná”, nome que só veio para homenagear o maior líder político da época – Honório Carneiro Leão, o Marquês do Paraná.

Ligação pelo Oeste 

Francisco da Rocha Loures, o segundo dos sete filhos do comandante militar de Guarapuava, Antônio da Rocha Loures, e de Joana Maria de Jesus, irmã do padre Francisco das Chagas Lima, herdou o prenome do tio, o grande artífice da cidade de Guarapuava e defensor de tratamento humano para os índios. Francisco seguiu, porém, os passos do pai, militar.

A estrada começará a se formar a partir de Palmas e passará pelos campos de Nonoai até atingir as Missões. 

“Começa nessa data o fluxo de tropas de muares pelo caminho das Missões, em demanda de Sorocaba, e começa também o uso dos campos de Guarapuava e Palmas para a invernagem das mesmas, como o maior negócio de que dispunham os fazendeiros” (Edilane Lacheski, Guarapuava no Paraná: Discurso, Memória e Identidade [1950-2000]).

A convocação a Francisco da Rocha Loures pelo governo paulista para construir a integração entre São Paulo e o Rio Grande do Sul logo vai se relacionar com o conflito entre as duas correntes empresariais-militares que disputam a hegemonia sobre a colonização no interior do Paraná.

Poder militar indígena incomodava

Ofício expedido por Domingos Ignácio de Araújo (1783–1851) ao governo de São Paulo, datado de 22 de maio de 1844, sustenta a versão de que o cacique Vitorino Condá e os índios de Palmas seriam responsáveis por assassinatos, ataques a áreas de colonização, raptos e saques.

Os relatórios enviados ao governo se dividiam entre elogios ao papel bem-sucedido de algodão entre cristais desempenhado por Condá, pacificando a região, e as denúncias de crimes escassamente descritos e documentados. 

A intenção dos adversários era impedir a formação de uma força militar indígena ao comando de Condá. As acusações, porém, não funcionaram por conta da parceria entre Condá e o comandante Hermógenes Carneiro Lobo Ferreira.

A solução encontrada foi deslocar Vitorino Condá ao projeto de abrir a estrada rumo ao interior rio-grandense. 

A trama contra Condá

Condá deixaria de ser o comandante da força militar indígena, posição em que recuperaria a imagem de Guairacá (Lobo dos Campos e das Águas), cacique Guarani que confederou “dez povos poderosos” (Romário Martins) para defender as terras do Paraná dos invasores ibéricos.

O exército de índios de Condá, ao contrário, iria se diluir nas forças regulares. Apesar de atacado pela segunda corrente de controladores de Palmas, sob as ordens de Pedro de Siqueira Côrtes e João da Silva Machado, o cacique manteria a marca do herói ao participar com sucesso da conquista pacífica do Sul.

“A partir da documentação enviada, em maio [de 1844], para o presidente da Província de São Paulo, as condições de permanência de Condá na região de Palmas ficaram quase que insustentáveis” (Almir Antonio de Souza, A Invasão das Terras Kaingang nos Campos de Palmas). 

Explica-se porque o cacique aceitou o convite de Rocha Loures para a tarefa de viabilizar o caminho Palmas-Cruz Alta-Missões.

Para a história do Sul

Foi assim que Vitorino Condá saiu da história do Paraná, onde não lhe permitiram ser o herói comandante de um exército de índios, para ter seu nome consagrado no processo de ocupação do Sul.

Guiou com segurança os irmãos Francisco e João Cipriano da Rocha Loures desde a partida, ainda em Guarapuava, em 1845, para a longa jornada em que efetivamente alcançaram os Campos de Nonoai, atravessando o Rio Uruguai pelo passo de Goio-En, abrindo o desejado novo caminho para as Missões.

No futuro, Francisco retornaria para se estabelecer na mesma Guarapuava iniciada por sua família. João Cipriano, já nascido em Guarapuava, optou por fixar residência no Rio Grande do Sul. 

Condá, em 1847, será contratado pelo governo do Rio Grande do Sul para atuar nos aldeamentos da região. Jamais seria o “cacique general” que foi no Paraná, voltando à sua condição de guia e mateiro. 

Política falha, crença se impõe

Todo o Sudoeste (entre Palmas e os limites com o Rio Grande do Sul) tinha 37 fazendas de gado e uma população de 2 mil pessoas, menos ainda que a atual população de Iguatu. 

Ansiosos para se livrar do controle paulista, os líderes políticos da região eram coagidos a não enfrentar São Paulo e se voltarem só ao fortalecimento de seus próprios negócios.

Com o Império em crise e a elite paranaense silenciada, o povo desamparado se apegava a crenças religiosas que prometiam um futuro melhor. 

O desapego material e a bondade dos chamados “monges”, que palmilhavam o interior mendigando em troca de serviços espirituais e socorro aos doentes, garantiram para os pregadores religiosos do sertão o carinho e aceitação do povo sofrido e abandonado pelas autoridades.

Em meados do século XIX, quando o descontentamento dos paranaenses crescia, vindo do interior de São Paulo, passa pela primeira vez na região o monge italiano Giovanni Maria de Agostini (conhecido no Brasil como João Maria de Agostini e João Maria de Jesus).

 CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

Tropeiros em Cruz Alta, de onde se originaram as cidades gaúchas de Passo Fundo, Santa Maria e Santo Ângelo

 

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