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Opinião História do Oeste

Milagreiro santificado e política demonizada

Poder místico antirrepublicano se forjou na ausência de governo: a fé no monge e a descrença na política levariam a banhos de sangue

25/04/2021 às 10h08
Por: Alceu Sperança
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Monge João Maria de Agostini em imagem de 1863, no interior da Argentina
Monge João Maria de Agostini em imagem de 1863, no interior da Argentina

Vindo para a América em 1838, depois de passagens pelos EUA e México o andarilho italiano Giovanni Maria de Agostini (conhecido no Brasil como João Maria de Agostini e João Maria de Jesus) tentou se radicar na Venezuela, onde recebeu apoio das autoridades para fazer pregação religiosa e trabalhar com objetos sacros. 

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No entanto, fez uma pregação contrária aos interesses das autoridades e fugiu para os Andes. Partindo para a Argentina, onde Rosas o aceitou para catequizar os índios Charruas, também não cumpriu o acordo e foi preso. 

A repressão ao italiano teve como único resultado criar para o monge rebelde a fama de “santo”. Há relatos de que ele passou pelo Brasil a partir de 1843, mas transitou depois por outras nações sul-americanas até junho de 1849, quando foi notificada sua chegada ao Porto de Santos.

Em suas andanças, escapou dos conflitos armados e viu o final da década de 1840 marcado por uma epidemia de febre amarela.

Guerra e varíola 

O monge D’Agostini, por onde passava, dizia ter vindo para curar. Na peregrinação rumo ao Paraná ele se propôs trazer a cura a um país doente.

Sua fama de “santo” se espalhava entre os caboclos sofridos do interior. Os locais em que repousou – ele preferia grutas, cavernas ou o alto de montes – também foram considerados lugares santificados.

“Nas grutas ou cavernas, a pedra onde descansava transmutava-se em pedra santa; dentro das grutas, quase sempre, brotavam fontes de água límpida que eram usadas pelo eremita para saciar sua sede; para o povo devoto, a fonte cristalina transformava-se em água milagrosa que a tudo curava” (Alexandre de Oliveira Karsburg, O peregrino que foi eremita, missionário, artesão e curandeiro).

Quando o monge João Maria chega a Mafra, então parte de Rio Negro, em 1851, encontra uma população sofrida com a Guerra dos Farrapos e dizimada por uma epidemia de varíola.

Cruzes pela prosperidade 

Para trazer a prosperidade, o monge recomendou que 19 (para alguns, 14) cruzes fossem erguidas entre a capela e a ponte. Nas ofensivas revolucionárias, as tropas vindas do Sul derrubaram várias cruzes, mas foi mantida a de 30 de junho de 1851 para representar “a fé do catolicismo rústico do homem simples” (Prefeitura Municipal de Mafra, Histórico).

Ironicamente, a manutenção da pobreza engendrada pela lei agrária de 1850 facilitou a pregação do monge Agostini.

Ao sugerir a possibilidade de conquistar um país mais justo pela fé e com luta, passou a ser perseguido pelo ministro Eusébio de Queiroz, da Justiça, dando assim origem ao fanatismo dos sertanejos e à arrogância político-militar que levaram à tragédia do Contestado.

Prioridade: trazer imigrantes

No fim da década de 1840 havia grande esperança na atração de imigrantes para povoar os imensos campos do futuro Paraná. Em outubro de 1848 o Império determinou alterações decisivas na política de imigração, criada para substituir o comércio escravagista e levar os estrangeiros aos locais mais necessitados de mão de obra.

A lei nº 514 dispunha sobre as condições requeridas para a colonização em terras devolutas, designação dada às áreas públicas desabitadas e tratava de outra questão importante para a região: o aproveitamento dos recursos hidroviários. 

“(...) as províncias do Império receberam concessão, em diferentes lugares de seus territórios, de seis léguas de quadras de terras devolutas que se deveriam ser destinadas à colonização e não poderiam ser roteadas (aradas, cultivadas, tratadas) por braços escravos” (Edrielton dos Santos Garcia, Colonização em Assunguy: A Experiência do Colono Nacional entre 1860 e 1870).

Excesso de restrições

As terras concedidas pelo governo não poderiam ser transferidas pelos colonos enquanto não comprovassem aproveitamento efetivo e cultivo regular pelo prazo de cinco anos. Se não houvesse interesse pela ocupação, exefcifa pela exploração do solo com finalidades produtivas, as terras retornariam ao domínio público.

A lei criou limitações aos processos de colonização. As expedições para a tomada de posse de terras tiveram prazo mínimo para fazer a ocupação porque em 1850 veio a nova Lei de Terras e a partir dela só se poderia possuir terras legalmente por meio de compra. 

A manobra evitava que os índios fossem possuidores e imigrantes vindos apenas com a roupa do corpo e vontade de trabalhar adquirissem de imediato posses que os tornassem independentes, sem ter que alugar sua força de trabalho aos fazendeiros. Essa foi uma das causas do atraso brasileiro.   

A expedição Rohan-Lélis

Desde as primeiras incursões em busca de ouro até os ciclos tropeiro e ervateiro, os cativos (índios e africanos) foram o motor do enriquecimento regional, que alimentou e reforçou as ideias de emancipar a Comarca de Curitiba do domínio paulista.

Com o Brasil sob pressão para por fim ao trabalho escravo, a lei orçamentária nacional de 1848 procurou se antecipar à crise de abastecimento que se avizinhava, estimulando as Províncias a promover a imigração.

Oferecia facilidades para a concessão de terras devolutas e criação de núcleos coloniais. Esse pano de fundo legal deu a base para uma nova aventura em busca de estruturar o Oeste do Paraná para receber seus povoadores.

Entre o final de 1848 e o início do ano seguinte, o capitão Henrique Beaurepaire Rohan e Camilo Lélis da Silva, segundo tenente da Marinha, abriram uma picada de Guarapuava ao Xagu, onde já havia um aldeamento de “índios mansos”.

Seguir o Rio Iguaçu 

A formação da comunidade no Xagu foi um dos passos iniciais para a marcha ao Oeste. Beaurepaire Rohan e Camilo Lélis percorrem cerca de 320 km no sentido Leste-Oeste, seguindo paralelamente ao curso do Rio Iguaçu até os limites a fronteira com a República do Paraguai.

Ao retornar da extenuante aventura, Lélis da Silva trazia um diário de viagem, que publicou em 1865 na Revista Trimensal do Instituto Histórico Geographico e Ethnographico do Brasil. Acrescentou ao diário uma interessante “Resenha da caça, peixe e abelheiras”. 

A rota para a conquista do Oeste estava definida: seria acompanhar o Rio Iguaçu rumo à sua foz, no Rio Paraná. 

No entanto, mais de vinte anos depois da publicação de Lélis da Silva o governo imperial ainda não havia feito nada nesse sentido. Mas argentinos já dominavam a foz do Iguaçu e os portos que eles próprios abriram no Rio Paraná.

 CLIQUE AQUI e veja episódios anteriores sobre A Grande História do Oeste, narrados pelo jornalista e escritor Alceu Sperança.

Rio Xagu, de onde partiram Lélis e Rohan (destaque), que foi governador do Paraná e ministro da Guerra

 

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