
E se o próximo recurso natural disputado pelo mundo não estiver debaixo da terra, mas dentro de um data center?
Pode parecer estranho, mas é mais ou menos isso que está acontecendo. Servidores de IA precisam de enormes estruturas, muita eletricidade e, dependendo da tecnologia, bastante água. Países como Brasil, Índia, Indonésia, México e África do Sul podem acabar em uma posição curiosa: fornecem território, energia, água e consumidores, enquanto boa parte do dinheiro e da tecnologia continua circulando fora de suas fronteiras.
Durante muito tempo, países em desenvolvimento forneceram matéria-prima para economias mais ricas. Agora, essa matéria-prima pode ser eletricidade, água, espaço físico e processamento. Isso não significa que instalar data centers seja ruim. A questão é outra:
O que fica no país depois que os servidores são ligados?
O Brasil começou a responder a essa pergunta com o Redata, criado pela Lei 15.504/2026. Entre outras exigências, os data centers beneficiados precisam disponibilizar ao mercado interno pelo menos 10% da capacidade de processamento e armazenamento e investir em pesquisa e desenvolvimento.
Mas ter o servidor aqui significa, de fato, ter a tecnologia aqui?
Imagine o data center no Brasil, usando energia e água brasileiras e incentivos fiscais daqui. Só que os chips vêm de fora, os principais modelos de IA são desenvolvidos no exterior e boa parte da capacidade atende clientes de outros países.
É como se o forno estivesse dentro da nossa pizzaria, usando nossa lenha e nosso pizzaiolo. Mas, quando a pizza fica pronta, ela fosse servida na loja do outro lado da rua.
É aí que aparece o colonialismo digital. Não é uma repetição do colonialismo histórico: os recursos físicos estão aqui, enquanto tecnologia, propriedade intelectual e boa parte do dinheiro ficam concentrados em outro lugar.
Um data center precisa de eletricidade e refrigeração para manter as máquinas funcionando. Dependendo da tecnologia, isso também significa consumo de água, com uma fatura ambiental pra pagar. Se os benefícios econômicos ficam em um lugar e os custos ambientais em outro, temos um problema.
Por isso, soberania digital não deveria ser medida apenas pela quantidade de data centers instalados. É preciso perguntar quanto conhecimento é produzido localmente, se universidades e startups terão acesso à capacidade computacional e quanto valor econômico permanece no país.
O Redata prevê condições específicas para estimular investimentos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A ideia é descentralizar a infraestrutura, mas: essas regiões receberão também conhecimento e desenvolvimento ou apenas os servidores, os cabos e a conta?
Não basta hospedar a revolução da inteligência artificial. É preciso participar dela.
Se os países emergentes fornecerem apenas espaço, energia e água para essa revolução, teremos uma tecnologia moderna apoiada em uma relação econômica bastante antiga.
Ainda será colonialismo. Só mudamos o que está dentro das máquinas.