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O voto foi conquistado. E o poder?

Maioria do eleitorado paranaense, as mulheres ainda enfrentam desafios para ampliar sua presença nos espaços de decisão.

Vanessa Ripp
Por: Vanessa Ripp
13/10/2026 às 17h33 Atualizada em 13/10/2026 às 17h48
O voto foi conquistado. E o poder?
Imagem gerada por IA

Às vésperas do segundo turno das eleições de 2026, refletir sobre o voto feminino é também discutir a qualidade da democracia. A participação das mulheres não se limita à escolha de representantes: envolve as condições para disputar eleições, ocupar mandatos e influenciar decisões que afetam a vida coletiva. Essa reflexão permanece necessária para os próximos ciclos eleitorais, inclusive no âmbito municipal, onde as políticas públicas impactam diretamente o cotidiano da população.

No Paraná, as mulheres representam 53% do eleitorado, mais de 4,5 milhões de eleitoras. Essa presença expressiva nas urnas contrasta com a representação política. Das 54 cadeiras na Assembleia Legislativa apenas 9 foram conquistadas na eleição do último dia 4, uma a menos que as 10 na atual legislatura. No cenário nacional, a Câmara dos Deputados terá 109 mulheres a partir de 2027, a maior bancada feminina da história, mas isso representa só 21% das 513 cadeiras. A bancada paranaense segue com apenas 4 dos 30 representantes.

Para compreender essa trajetória, é preciso voltar à história. Em 1932, o reconhecimento nacional do voto feminino abriu caminho para a participação das mulheres na política institucional. No ano seguinte, a médica Carlota Pereira de Queirós tornou-se a primeira mulher eleita deputada federal no Brasil.

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Mais de nove décadas depois, o direito de votar e ser votada está consolidado na legislação, mas a igualdade formal não garante as mesmas condições de participação. Medidas como as cotas de candidaturas buscaram ampliar a presença feminina nas disputas eleitorais. Ainda assim, financiamento, visibilidade, apoio partidário e oportunidades de participação interferem no acesso aos mandatos.

Outro obstáculo é a violência política de gênero. Entre janeiro e agosto de 2026, o Ligue 180 registrou 1.564 denúncias de violência política contra mulheres no Brasil, sendo 61 no Paraná. Os dados correspondem às denúncias recebidas pelo serviço, não ao total de episódios ocorridos.

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Ameaças, intimidações e tentativas de desqualificar a capacidade das mulheres podem restringir sua participação e impor custos pessoais e profissionais. Quando ocupar um espaço público significa enfrentar violência ou discriminação, o direito formal não assegura, por si só, condições iguais para exercê-lo.

Mas a discussão não termina com o aumento do número de mulheres eleitas. Ter mulheres no poder significa ter as mulheres representadas?

A eleição de mulheres não significa, automaticamente, que todas estejam representadas. Experiências, posições ideológicas e projetos políticos são diversos, e o gênero, por si só, não determina compromissos ou decisões.

Ainda assim, a presença feminina nos espaços de poder importa. O desafio é observar quais experiências e demandas encontram espaço nas decisões públicas, sem pressupor que todas as mulheres pensem da mesma maneira ou defendam as mesmas pautas.

Essa reflexão também diz respeito às eleitoras. A maioria feminina no eleitorado paranaense não representa um voto único nem permite antecipar escolhas. São milhões de decisões individuais que participam da definição dos rumos coletivos. O voto feminino importa como exercício de cidadania, não porque deva seguir uma direção política determinada, mas porque cada escolha integra o processo democrático.

Essa participação também precisa ser valorizada para além das eleições gerais. Nos municípios, decisões sobre saúde, educação, assistência social, mobilidade e proteção de direitos afetam diretamente a vida das mulheres e de toda a população. Ampliar a participação feminina nas disputas locais e nos espaços de decisão é parte da construção de uma democracia que considere a diversidade das experiências e necessidades da sociedade.

Conquistar o direito ao voto foi um marco na história das mulheres. Mas a democracia não se completa quando elas apenas escolhem quem governa. Ela se fortalece quando também podem disputar, ocupar e transformar os espaços de poder.

Ter voz nas urnas é um direito. Ter condições de participar das decisões é parte essencial da democracia.

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Vanessa Ripp
Vanessa Ripp
Psicóloga e mestra em Direito, com dez anos no serviço público. Escreve sobre o comportamento por trás das decisões coletivas, das políticas públicas às escolhas de cada eleitor.
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