
Às vésperas do segundo turno das eleições de 2026, refletir sobre o voto feminino é também discutir a qualidade da democracia. A participação das mulheres não se limita à escolha de representantes: envolve as condições para disputar eleições, ocupar mandatos e influenciar decisões que afetam a vida coletiva. Essa reflexão permanece necessária para os próximos ciclos eleitorais, inclusive no âmbito municipal, onde as políticas públicas impactam diretamente o cotidiano da população.
No Paraná, as mulheres representam 53% do eleitorado, mais de 4,5 milhões de eleitoras. Essa presença expressiva nas urnas contrasta com a representação política. Das 54 cadeiras na Assembleia Legislativa apenas 9 foram conquistadas na eleição do último dia 4, uma a menos que as 10 na atual legislatura. No cenário nacional, a Câmara dos Deputados terá 109 mulheres a partir de 2027, a maior bancada feminina da história, mas isso representa só 21% das 513 cadeiras. A bancada paranaense segue com apenas 4 dos 30 representantes.
Para compreender essa trajetória, é preciso voltar à história. Em 1932, o reconhecimento nacional do voto feminino abriu caminho para a participação das mulheres na política institucional. No ano seguinte, a médica Carlota Pereira de Queirós tornou-se a primeira mulher eleita deputada federal no Brasil.
Mais de nove décadas depois, o direito de votar e ser votada está consolidado na legislação, mas a igualdade formal não garante as mesmas condições de participação. Medidas como as cotas de candidaturas buscaram ampliar a presença feminina nas disputas eleitorais. Ainda assim, financiamento, visibilidade, apoio partidário e oportunidades de participação interferem no acesso aos mandatos.
Outro obstáculo é a violência política de gênero. Entre janeiro e agosto de 2026, o Ligue 180 registrou 1.564 denúncias de violência política contra mulheres no Brasil, sendo 61 no Paraná. Os dados correspondem às denúncias recebidas pelo serviço, não ao total de episódios ocorridos.
Ameaças, intimidações e tentativas de desqualificar a capacidade das mulheres podem restringir sua participação e impor custos pessoais e profissionais. Quando ocupar um espaço público significa enfrentar violência ou discriminação, o direito formal não assegura, por si só, condições iguais para exercê-lo.
Mas a discussão não termina com o aumento do número de mulheres eleitas. Ter mulheres no poder significa ter as mulheres representadas?
A eleição de mulheres não significa, automaticamente, que todas estejam representadas. Experiências, posições ideológicas e projetos políticos são diversos, e o gênero, por si só, não determina compromissos ou decisões.
Ainda assim, a presença feminina nos espaços de poder importa. O desafio é observar quais experiências e demandas encontram espaço nas decisões públicas, sem pressupor que todas as mulheres pensem da mesma maneira ou defendam as mesmas pautas.
Essa reflexão também diz respeito às eleitoras. A maioria feminina no eleitorado paranaense não representa um voto único nem permite antecipar escolhas. São milhões de decisões individuais que participam da definição dos rumos coletivos. O voto feminino importa como exercício de cidadania, não porque deva seguir uma direção política determinada, mas porque cada escolha integra o processo democrático.
Essa participação também precisa ser valorizada para além das eleições gerais. Nos municípios, decisões sobre saúde, educação, assistência social, mobilidade e proteção de direitos afetam diretamente a vida das mulheres e de toda a população. Ampliar a participação feminina nas disputas locais e nos espaços de decisão é parte da construção de uma democracia que considere a diversidade das experiências e necessidades da sociedade.
Conquistar o direito ao voto foi um marco na história das mulheres. Mas a democracia não se completa quando elas apenas escolhem quem governa. Ela se fortalece quando também podem disputar, ocupar e transformar os espaços de poder.
Ter voz nas urnas é um direito. Ter condições de participar das decisões é parte essencial da democracia.