
O que você pensa quando ouve falar da guerra entre Rússia e Ucrânia? Certamente imagina que é algo tão distante e que nada pode ser feito para minimizar o sofrimento das pessoas envolvidas no conflito que se arrasta desde 2022 e já deixou milhares de mortos.
Não para o cascavelense Marcelo Andrade. Aos 37 anos, o socorrista morava nos Estados Unidos e resolveu ‘fazer a diferença’ em um problema que muitos pensam não ser dele.
Há três meses Marcelo está na Ucrânia e, nesses cerca de 90 dias, já viveu muito mais do que muitos possam imaginar.
Em meio a um conflito que parece não ter fim – segundo o que ele mesmo contou ao Preto no Branco, ele vive na esperança de que um dia tudo acabe bem. “Quando falei que viria para a Ucrânia muitas pessoas pensaram que eu estava louco. Mas tudo o que quero é salvar vidas, é isso que estou fazendo aqui”.
Nesse período na guerra, Marcelo viu morrer e salvou. “Perdi amigos, pessoas que seus familiares nunca mais verão nem os corpos. Mas nas missões que tive, também salvei duas pessoas e auxiliei na evacuação de outros quatro”.
Atualmente posicionado em uma estrutura de segurança próxima à localidade de Dnipro, o cascavelense lida com a escassez severa de suprimentos básicos, bombardeios frequentes e a perda de integrantes de sua unidade operacional, mantendo a previsão de encerramento de suas atividades e retorno para casa no mês de agosto deste ano.
O deslocamento até a região de conflito ocorreu a partir do interesse pessoal em intervir diante das condições enfrentadas pelas pessoas e com o objetivo de ganhar experiência na área médica. A decisão gerou manifestações contrárias e questionamentos por parte de conhecidos, que apontavam o risco de ingressar em um embate de proporções internacionais. Marcelo cita que a motivação principal se baseia no propósito de ajudar e reduzir os impactos das hostilidades.
“Muitos questionam a razão de lutar uma guerra que não é considerada deles, mas no mundo existem muitas injustiças e que fazer um pouco de bem não é querer demais.”.
Um dos maiores problemas enfrentados, segundo Marcelo, não são somente os riscos da guerra – que está muito mais tecnológica incluindo drones e radares. Elas envolvem a fome e a ausência prolongada de água potável nos postos de progressão. "Para mim o pior no fronte foi passar fome e sede por falta de comida e de água", conta Marcelo
Atualmente o voluntário está em uma safe house, que é um termo técnico utilizado pelas equipes para designar locais protegidos de monitoramento imediato, onde as condições de infraestrutura permanecem precárias. "Hoje estou na safe house, o mais complicado é falta de banho e as instalações, sem água e sem luz", explica.
O alojamento temporário é compartilhado com outros dez brasileira que exercem funções voluntárias no local e atuam de maneira conjunta nas etapas de suporte de saúde.
A cada missão, abre-se um intervalo de descanso de alguns dias na base física, permitindo a recomposição parcial das forças das equipes.
A atuação em campo aberto exige deslocamentos rápidos e protocolos rígidos de camuflagem devido ao uso intensivo de tecnologias de vigilância. Marcelo detalha que a percepção de risco iminente à própria vida se tornou ainda mais grave durante uma operação específica de evacuação de dois combatentes feridos. Nesta missão, a unidade médica foi submetida ao monitoramento constante de múltiplos drones que sobrevoavam o local. "Muito drone sobre nossas cabeças", recorda Andrade ao mencionar a angústia vivida pela equipe durante o processo de remoção e primeiros socorros dos soldados.
Felizmente, a frequência dos bombardeios e investidas de artilharia não são todos os dias na região de Dnipro. Eles são mais intensificados aos finais de seman "Os ataques são mais nos finais de semana, mas a incerteza sempre existe"
A letalidade dos confrontos se reflete diretamente no volume de corpos espalhados pelas zonas de exclusão e estradas de acesso às trincheiras. Andrade confirma que o cenário de guerra é marcado pela forte presença de cadáveres de militares de diferentes origens, incluindo soldados ucranianos, cidadãos de origem russa e combatentes voluntários. "Campo batalha tem muito cadáveres. Tanto russo como brasileiros e ucranianos", relata o cascavelense. "Perdi 4 amigos nessa guerra, infelizmente", lamenta o profissional.
Apesar das mortes, Marcelo disse que na primeira missão ajudou nos primeiros socorros de duas pessoas e na evacuação de quatro soldados.
Questionado a respeito das vítimas, Marcelo salienta que no fronte de combate, os mortos são soldados, sem o registro de civis. “Sigo na missão de salvar vidas e devo voltar à minha terra Natal, a Cascavel, em agosto, após o encerramento do meu contrato de voluntariado”.
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