
Em 25 de julho de 2013, quando foi inaugurado em Catanduvas o Memorial da Revolução de 1924, o foco nesse ano de referência passou a ideia de que o espaço se destinava a festejar o aniversário da cidade.
No entanto, apesar da relevância da revolução para o Oeste paranaense, a formação de Catanduvas é muito mais antiga. Acumula eventos no mínimo tão importantes historicamente quanto o derrotado movimento revolucionário que teve como expoentes Luiz Carlos Prestes, Juarez Távora e Miguel Costa.
A história de Catanduvas, de fato, começa em 1880, quando o imperador Pedro II em visita ao Paraná descobriu que não poderia ir ao desconhecido Oeste: de Paranaguá foi a Curitiba e em seguida só a Ponta Grossa e à Lapa. O Paraná dessa época se limitava ao Primeiro Planalto.
Com isso, apenas em setembro de 1881 começa a ser desenhada a estratégia de ocupação do Oeste, por uma portaria imperial determinando a criação de uma Colônia Militar, que viria a ser Chopim, origem da atual cidade de Chopinzinho. O próximo passo virá do colonizador gaúcho Tomás Larangeira (grafia original).
Saindo de Bagé para ganhar a vida em Porto Alegre como balconista de uma loja portuguesa, foi lá, durante a Guerra do Paraguai (1864–1870), que Laranjeira se tornou fornecedor das tropas brasileiras no Mato Grosso. Como pagamento, recebeu carretas de bois para negócios e desbravamento de terras.
De volta ao Rio Grande do Sul, Larangeira em dezembro de 1882 recebeu do governo imperial a concessão para explorar erva-mate no abandonado extremo-Oeste do Paraná, cabendo-lhe a primeira tentativa empresarial de explorar a região por um projeto de colonização.
No ano seguinte, o paranaense Manuel Alves de Araújo assumiu o Ministério dos Transportes e fez aprovar o Plano Nacional Ferroviário, que propunha uma ligação ferroviária de Curitiba com o Oeste do Paraná, atravessando o Estado. Seria a primeira ferrovia a cortar o Brasil de Leste a Oeste.
Seus escassos quatro meses à frente do Ministério não lhe permitiram ir além do projeto, mas ser deputado geral pelo Paraná e presidente da Câmara dos Deputados o projetava como um dos principais líderes do país. No entanto, sua carreira foi interrompida pelo fim do Império em 1889.
O interior, porém, não ficou paralisado na transição do Império para a República. O ervateiro Augusto Gomes de Oliveira e seu filho do mesmo nome, em 1885, haviam construído a Grande Estrada da Erva-Mate e outras trilhas ervateiras foram abertas nessa época sob a iniciativa de empresas estrangeiras.
Desde o Mato Grosso havia informes de que interesses argentinos e paraguaios penetravam na mata no sentido Oeste-Leste. O governo imperial não estava alheio a esse fato, mas só no fim do inverno de 1888 o ministro João Alfredo Correia de Oliveira (1835–1919), à frente dos Negócios do Império, determinou a rápida ocupação do Oeste.
Confiou ao capitão Belarmino Augusto de Mendonça Lobo (1850–1913) a tarefa de formar uma comissão encarregada de penetrar na mata e nacionalizar o Oeste abandonado.
Belarmino, fluminense de Barra Mansa, ex-combatente ferido na Guerra do Paraguai, formou-se engenheiro no Exército em 1878.
Dez anos depois ele instalava em Guarapuava, o núcleo urbano mais próximo à fronteira na época, a comissão que iria explorar o Oeste com a intenção inicial de promover estudos sobre a região.
Entretanto, sob a urgência de conquistar o interior para o Brasil, designou de imediato o segundo-tenente engenheiro José Joaquim Firmino para abrir uma picada rumo à foz do Rio Iguaçu.
O mais jovem dentre os oficiais da Comissão, Firmino partiu em 25 de novembro de 1888, guiado por índios Caingangues, abrindo um descampando com a largura de três metros
No período de abril e maio de 1889 choveu muito na região, dificultando os trabalhos da missão. A comida escasseou, obrigando os exploradores “a alimentar-se da caça que porventura abatiam e que muitas vezes se resumia a pedaços de carne de anta, porco-do-mato, etc, que eram ingeridos sem farinha e sem sal” (Jayme Ballão, A Foz do Iguaçu e as Cataratas, 1921).
A missão foi interrompida porque os rios sofriam cheias intransponíveis. A um dos 16 rios que transpôs em sua marcha, nos arredores de Catanduvas, Firmino deu o nome da namorada Isolina, filha de Belarmino, cujo nome também foi dado a outro rio, próximo a Guaraniaçu.
O lugar escolhido para o acampamento provisório que logo se estenderia por semanas recebeu o nome de Barro Preto, onde a primeira estiagem permitiu plantar milho.
Depois o local foi designado como “Catanduvas” por conta da vegetação predominante na área, em que no passado ocorreram amplos incêndios florestais. Na volta, a expedição decidiu parar ali porque o milharal plantado na ida já produzia belas espigas.
Em abril de 1896 o então presidente (governador) do Paraná, Alfredo d’Escragnolle Taunay (1843–1899), criou a Sociedade de Imigração do Paiquerê, sob a presidência do Visconde de Guarapuava, com o objetivo de atrair imigrantes para povoar as matas desconhecidas do interior.
Nesse espírito, as famílias de passagem por Barro Preto – casos dos Lacerda, Krammer e Pureza –, aproveitando a área deixada com roças pelos militares, ali se estabelecem. Catanduvas, assim, torna-se uma vila.
Trazidos pelo alferes João Gualberto Gomes de Sá (1874–1912), designado para servir na comissão encarregada da abertura da estrada até a Colônia Militar de Foz do Iguaçu, os fios telegráficos chegaram ao lugar em 1902.
No ano seguinte a Comissão de Estradas Estratégicas decidiu que as obras da rodovia federal a ser construída até a fronteira iriam acompanhar o telégrafo, mas em 1904 o divisor de águas foi definido para a estrada.
Depois de quase quatro anos rasgando o sertão, João Gualberto interrompeu os serviços no Barro Preto, que ao receber a numerosa família Rodrigues da Cunha, em 1907, assumia um lugar nos mapas já figurando como núcleo urbano pertencente ao Município de Laranjeiras do Sul: Catanduvas.
“Além dos ranchos, moradias de sertanejos, havia em Catanduvas as bodeguinhas, uma do telefonista sr. Alexandre José Inácio, ex-praça das antigas comissões de Teodorico Rodrigues da Cunha, este trabalhador e já bem situado e finalmente a que tinha pertencido à dona Florisbela de Souza Leal, saudosa progenitora de Alípio de Souza Leal” (Sandálio dos Santos, Memórias).
Catanduvas se firmou como entreposto entre Laranjeiras e Foz do Iguaçu. Mesmo com a estrada impraticável para carroças desde Laranjeiras, valiam como meios de penetração o cargueiro (muar) e a montaria (cavalo).
Em setembro de 1924, um fato transformou a rotina da pequena cidade: chega à região um contingente de soldados revoltosos, adeptos do “Levante Tenentista”.
A comunidade catanduvense teve que conviver com este estado latente de guerra até abril de 1925, quando tropas legalistas comandadas pelo legendário general Cândido Rondon venceram os revoltosos em sucessivos combates.
Em março de 1938, com o nome de Rocinha, o distrito de Catanduvas só foi oficializado para a condição de Município em 25 de julho de 1960, por meio da Lei Estadual nº 4.245, com território desmembrado do município de Guaraniaçu.
Na época, os moradores de Catanduvas consideravam a Encruzilhada dos Gomes, a futura Cascavel, um lugar sem atrativos, com um banhado limitante.
No início da década de 1930, com essa impressão, o catanduvense Osório Magalhães rejeitou a oferta da família Pompeu de ocupar terrenos hoje entre a Avenida Brasil e a Praça Wilson Joffre:
“Mas o que eu quero com esse taquaral? Eu morava em Catanduvas e lá era uma cidade. Aqui não havia nada” (Prisma Cascavel, 29.7.1994). A descrição de Cascavel feita por Magalhães antes da formação da vila é curta, grossa e negativa: “A Encruzilhada era um barreiro cheio de anta”.
Devido às contingências da geografia, a Encruzilhada virou um centro-polo e Catanduvas, que começou a se formar como cidade ainda antes de Cascavel e Foz do Iguaçu, só se afirmou no mapa do Brasil ao receber a Penitenciária Federal, de segurança máxima, em 2006.
Se apenas em 1923 houve o contato entre Silvério e Elias para arrendar a Encruzilhada, fica a dúvida: o prefeito de Foz do Iguaçu estava fazendo uma profecia sobre o surgimento de uma grande cidade onde hoje está Cascavel, tinha planos para o local ou, bem-informado, sabia de um planejamento estadual nesse sentido?
Era certo, segundo Sandálio dos Santos, que o governo federal pretendia construir um ramal telegráfico de Catanduvas a Porto Mendes. A Companhia Nuñez y Gibaja já possuía um ramal telefônico de Lopeí a Porto São Francisco para seu uso.
Os serviços foram iniciados, mas pela instabilidade nacional logo foram interrompidos. O Brasil começava a viver um estado de conflito entre o governo federal e a jovem oficialidade do Exército.
Era o tenentismo, a reação dos jovens militares ao desconforto da população com um governo incapaz de resolver seus problemas.
Por ausência de cartório local, Maria Francisca, filha de Laurentina e Ernesto, só foi registrada em 30 de maio de 1923, em ida a Guarapuava.
Em 29 de junho desse ano, aliás, nasceu Pedro Rego Filho, que em 1944 viria a ser a genro de Laurentina e Ernesto, casando-se com Maria Balbina.
É dessa época o primeiro contato entre Antônio José Elias e Jeca Silvério, que expandia seu rol de atividades entre Guarapuava e os portos do Rio Paraná mas ainda não havia manifestado a intenção de incluir a Encruzilhada dos Gomes em seu campo de atividades.