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A primeira cidade do Oeste

Área escolhida para cumprir funções estratégicas ainda no Império, em 1889, Catanduvas é o ponto de partida da história regional 

Tissiane Merlak
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
26/07/2026 às 08h45
A primeira cidade do Oeste
Em Catanduvas, militares governistas bombardeiam posições revolucionárias

Em 25 de julho de 2013, quando foi inaugurado em Catanduvas o Memorial da Revolução de 1924, o foco nesse ano de referência passou a ideia de que o espaço se destinava a festejar o aniversário da cidade.

No entanto, apesar da relevância da revolução para o Oeste paranaense, a formação de Catanduvas é muito mais antiga. Acumula eventos no mínimo tão importantes historicamente quanto o derrotado movimento revolucionário que teve como expoentes Luiz Carlos Prestes, Juarez Távora e Miguel Costa.

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A história de Catanduvas, de fato, começa em 1880, quando o imperador Pedro II em visita ao Paraná descobriu que não poderia ir ao desconhecido Oeste: de Paranaguá foi a Curitiba e em seguida só a Ponta Grossa e à Lapa. O Paraná dessa época se limitava ao Primeiro Planalto.

Com isso, apenas em setembro de 1881 começa a ser desenhada a estratégia de ocupação do Oeste, por uma portaria imperial determinando a criação de uma Colônia Militar, que viria a ser Chopim, origem da atual cidade de Chopinzinho. O próximo passo virá do colonizador gaúcho Tomás Larangeira (grafia original).

Saindo de Bagé para ganhar a vida em Porto Alegre como balconista de uma loja portuguesa, foi lá, durante a Guerra do Paraguai (1864–1870), que Laranjeira se tornou fornecedor das tropas brasileiras no Mato Grosso. Como pagamento, recebeu carretas de bois para negócios e desbravamento de terras.

Passos históricos

De volta ao Rio Grande do Sul, Larangeira em dezembro de 1882 recebeu do governo imperial a concessão para explorar erva-mate no abandonado extremo-Oeste do Paraná, cabendo-lhe a primeira tentativa empresarial de explorar a região por um projeto de colonização.

No ano seguinte, o paranaense Manuel Alves de Araújo assumiu o Ministério dos Transportes e fez aprovar o Plano Nacional Ferroviário, que propunha uma ligação ferroviária de Curitiba com o Oeste do Paraná, atravessando o Estado. Seria a primeira ferrovia a cortar o Brasil de Leste a Oeste.

Seus escassos quatro meses à frente do Ministério não lhe permitiram ir além do projeto, mas ser deputado geral pelo Paraná e presidente da Câmara dos Deputados o projetava como um dos principais líderes do país. No entanto, sua carreira foi interrompida pelo fim do Império em 1889.

O interior, porém, não ficou paralisado na transição do Império para a República. O ervateiro Augusto Gomes de Oliveira e seu filho do mesmo nome, em 1885, haviam construído a Grande Estrada da Erva-Mate e outras trilhas ervateiras foram abertas nessa época sob a iniciativa de empresas estrangeiras.

Desde o Mato Grosso havia informes de que interesses argentinos e paraguaios penetravam na mata no sentido Oeste-Leste. O governo imperial não estava alheio a esse fato, mas só no fim do inverno de 1888 o ministro João Alfredo Correia de Oliveira (1835–1919), à frente dos Negócios do Império, determinou a rápida ocupação do Oeste.

Confiou ao capitão Belarmino Augusto de Mendonça Lobo (1850–1913) a tarefa de formar uma comissão encarregada de penetrar na mata e nacionalizar o Oeste abandonado.

Chuvas interromperam a marcha

Belarmino, fluminense de Barra Mansa, ex-combatente ferido na Guerra do Paraguai, formou-se engenheiro no Exército em 1878.

Dez anos depois ele instalava em Guarapuava, o núcleo urbano mais próximo à fronteira na época, a comissão que iria explorar o Oeste com a intenção inicial de promover estudos sobre a região.

Entretanto, sob a urgência de conquistar o interior para o Brasil, designou de imediato o segundo-tenente engenheiro José Joaquim Firmino para abrir uma picada rumo à foz do Rio Iguaçu.

O mais jovem dentre os oficiais da Comissão, Firmino partiu em 25 de novembro de 1888, guiado por índios Caingangues, abrindo um descampando com a largura de três metros

No período de abril e maio de 1889 choveu muito na região, dificultando os trabalhos da missão. A comida escasseou, obrigando os exploradores “a alimentar-se da caça que porventura abatiam e que muitas vezes se resumia a pedaços de carne de anta, porco-do-mato, etc, que eram ingeridos sem farinha e sem sal” (Jayme Ballão, A Foz do Iguaçu e as Cataratas, 1921).

A missão foi interrompida porque os rios sofriam cheias intransponíveis. A um dos 16 rios que transpôs em sua marcha, nos arredores de Catanduvas, Firmino deu o nome da namorada Isolina, filha de Belarmino, cujo nome também foi dado a outro rio, próximo a Guaraniaçu.

Barro Preto, ponto de parada

O lugar escolhido para o acampamento provisório que logo se estenderia por semanas recebeu o nome de Barro Preto, onde a primeira estiagem permitiu plantar milho.

Depois o local foi designado como “Catanduvas” por conta da vegetação predominante na área, em que no passado ocorreram amplos incêndios florestais. Na volta, a expedição decidiu parar ali porque o milharal plantado na ida já produzia belas espigas.

Em abril de 1896 o então presidente (governador) do Paraná, Alfredo d’Escragnolle Taunay (1843–1899), criou a Sociedade de Imigração do Paiquerê, sob a presidência do Visconde de Guarapuava, com o objetivo de atrair imigrantes para povoar as matas desconhecidas do interior.

Nesse espírito, as famílias de passagem por Barro Preto – casos dos Lacerda, Krammer e Pureza –, aproveitando a área deixada com roças pelos militares, ali se estabelecem. Catanduvas, assim, torna-se uma vila.

Trazidos pelo alferes João Gualberto Gomes de Sá (1874–1912), designado para servir na comissão encarregada da abertura da estrada até a Colônia Militar de Foz do Iguaçu, os fios telegráficos chegaram ao lugar em 1902.

No ano seguinte a Comissão de Estradas Estratégicas decidiu que as obras da rodovia federal a ser construída até a fronteira iriam acompanhar o telégrafo, mas em 1904 o divisor de águas foi definido para a estrada. 

Catanduvas, mais uma vez

Depois de quase quatro anos rasgando o sertão, João Gualberto interrompeu os serviços no Barro Preto, que ao receber a numerosa família Rodrigues da Cunha, em 1907, assumia um lugar nos mapas já figurando como núcleo urbano pertencente ao Município de Laranjeiras do Sul: Catanduvas.

“Além dos ranchos, moradias de sertanejos, havia em Catanduvas as bodeguinhas, uma do telefonista sr. Alexandre José Inácio, ex-praça das antigas comissões de Teodorico Rodrigues da Cunha, este trabalhador e já bem situado e finalmente a que tinha pertencido à dona Florisbela de Souza Leal, saudosa progenitora de Alípio de Souza Leal” (Sandálio dos Santos, Memórias).

Catanduvas se firmou como entreposto entre Laranjeiras e Foz do Iguaçu. Mesmo com a estrada impraticável para carroças desde Laranjeiras, valiam como meios de penetração o cargueiro (muar) e a montaria (cavalo).

Em setembro de 1924, um fato transformou a rotina da pequena cidade: chega à região um contingente de soldados revoltosos, adeptos do “Levante Tenentista”.

A comunidade catanduvense teve que conviver com este estado latente de guerra até abril de 1925, quando tropas legalistas comandadas pelo legendário general Cândido Rondon venceram os revoltosos em sucessivos combates.

A desprezada Encruzilhada

Em março de 1938, com o nome de Rocinha, o distrito de Catanduvas só foi oficializado para a condição de Município em 25 de julho de 1960, por meio da Lei Estadual nº 4.245, com território desmembrado do município de Guaraniaçu.

Na época, os moradores de Catanduvas consideravam a Encruzilhada dos Gomes, a futura Cascavel, um lugar sem atrativos, com um banhado limitante.

No início da década de 1930, com essa impressão, o catanduvense Osório Magalhães rejeitou a oferta da família Pompeu de ocupar terrenos hoje entre a Avenida Brasil e a Praça Wilson Joffre:

“Mas o que eu quero com esse taquaral? Eu morava em Catanduvas e lá era uma cidade. Aqui não havia nada” (Prisma Cascavel, 29.7.1994). A descrição de Cascavel feita por Magalhães antes da formação da vila é curta, grossa e negativa: “A Encruzilhada era um barreiro cheio de anta”.

Devido às contingências da geografia, a Encruzilhada virou um centro-polo e Catanduvas, que começou a se formar como cidade ainda antes de Cascavel e Foz do Iguaçu, só se afirmou no mapa do Brasil ao receber a Penitenciária Federal, de segurança máxima, em 2006.

A primeira família: Profecia ou conhecimento? 

Se apenas em 1923 houve o contato entre Silvério e Elias para arrendar a Encruzilhada, fica a dúvida: o prefeito de Foz do Iguaçu estava fazendo uma profecia sobre o surgimento de uma grande cidade onde hoje está Cascavel, tinha planos para o local ou, bem-informado, sabia de um planejamento estadual nesse sentido?

Era certo, segundo Sandálio dos Santos, que o governo federal pretendia construir um ramal telegráfico de Catanduvas a Porto Mendes. A Companhia Nuñez y Gibaja já possuía um ramal telefônico de Lopeí a Porto São Francisco para seu uso.

Os serviços foram iniciados, mas pela instabilidade nacional logo foram interrompidos. O Brasil começava a viver um estado de conflito entre o governo federal e a jovem oficialidade do Exército.

Era o tenentismo, a reação dos jovens militares ao desconforto da população com um governo incapaz de resolver seus problemas.

Por ausência de cartório local, Maria Francisca, filha de Laurentina e Ernesto, só foi registrada em 30 de maio de 1923, em ida a Guarapuava.

Em 29 de junho desse ano, aliás, nasceu Pedro Rego Filho, que em 1944 viria a ser a genro de Laurentina e Ernesto, casando-se com Maria Balbina.

É dessa época o primeiro contato entre Antônio José Elias e Jeca Silvério, que expandia seu rol de atividades entre Guarapuava e os portos do Rio Paraná mas ainda não havia manifestado a intenção de incluir a Encruzilhada dos Gomes em seu campo de atividades.

Pedro Rego Filho, esposa Maria Balbina e Filhos

 

 

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Alceu Sperança
Jornalista, escritor e historiador.
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