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“Foi uma dádiva e uma segunda chance”, afirma Juliane Vieira ao defender pauta da saúde regional

Sobrevivente de incêndio e pré-candidata a deputada estadual relata bastidores do resgate, rotina de reabilitação e atuação política.

Miguel Dias
Por: Miguel Dias
22/08/2026 às 18h28
“Foi uma dádiva e uma segunda chance”, afirma Juliane Vieira ao defender pauta da saúde regional

Após sobreviver a um grave incêndio ocorrido em outubro de 2025 na cidade de Cascavel e passar por meses de reabilitação intensiva, a advogada Juliane Vieira decidiu transformar sua trajetória de superação em uma causa pública. Com 60% do corpo atingido por queimaduras, ela enfrentou tratamentos em UTIs especializadas fora do município e, diante das dificuldades vivenciadas, passou a defender a criação de uma estrutura regional de atendimento para vítimas de queimaduras no Oeste do Paraná. Recém-filiada ao MDB para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), a pré-candidata aborda a falta de estatísticas oficiais sobre esse tipo de trauma, o impacto psicológico e físico nas famílias, os desafios do Sistema Único de Saúde (SUS) e a necessidade de equipar as forças de resgate locais.

No episódio desta semana do podcast Batendo o Guizo, o comunicador Miguel Dias conversou com Juliane Vieira sobre sua trajetória de reabilitação, bastidores políticos e propostas para a saúde pública.

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Preto no Branco: Como está sendo o seu processo de recuperação e quais etapas você já conseguiu superar desde o acidente?
Juliane Vieira: Estou me recuperando bem. Já se passaram dez meses do acidente e desde janeiro estou de alta médica. Venho enfrentando um processo longo e lento de recuperação, mas passei daquele estágio mais grave de não conseguir me alimentar direito ou fazer minha própria higiene, que são necessidades básicas que eu havia perdido por conta do acidente.

Preto no Branco: Como estão a sua mãe e o seu primo que também estavam com você durante o incêndio?
Juliane Vieira: Quando eu os salvei, eles ficaram com pequenas queimaduras e em quinze dias já saíram do hospital. Quem ficou em estado grave mesmo fui eu.

Preto no Branco: Para as pessoas que ainda não a conhecem, qual é a sua origem e a sua trajetória profissional em Cascavel?
Juliane Vieira: Eu sou natural de Nova Aurora, mas passei grande parte da vida em Cafelândia. Quando comecei a faculdade de Direito, vinha para Cascavel todos os dias e, quando me formei na Univel, mudei-me para cá. Já faz quase dez anos que moro na cidade. Advoguei por quase três anos, fui assessora de delegada na Polícia Civil e trabalhei no Ministério Público do Estado do Paraná. Sempre fui concurseira, estudando para carreiras jurídicas e policiais.

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Preto no Branco: O que a motivou a colocar seu nome à disposição como pré-candidata a deputada estadual?
Juliane Vieira: A minha grande motivação vem do período em que estive por três meses internada em Londrina e vi o trabalho imenso que a equipe teve para salvar a minha vida. Eu tinha apenas dez por cento de chance de sobreviver. A minha entrevista ao Fantástico, na época, foi para dar uma satisfação a todos que rezaram e fizeram correntes por mim. Diante dessa segunda chance, entendi que essa causa me escolheu e virou a minha razão de viver.

Preto no Branco: Qual é a situação atual do atendimento especializado para vítimas de queimaduras na nossa região?
Juliane Vieira: Em Cascavel, foi construída uma ala de queimados no Hospital Universitário que nunca foi inaugurada. As médicas e enfermeiras do Centro de Tratamento de Queimados de Londrina me pediram para usar minha voz para ajudar, porque eles perdem pacientes na lista de espera por falta de vagas de UTI. Atualmente, apenas Londrina e Curitiba possuem estrutura, e elas não dão conta de atender o estado inteiro.

Preto no Branco: Qual é o grande obstáculo para que a ala de queimados de Cascavel seja finalmente aberta?
Juliane Vieira: Tentei buscar dados oficiais na Regional de Saúde e no HU, mas as queimaduras não possuem notificação compulsória específica. Elas entram nos registros no mesmo grupo de ferimentos simples, como um corte. Como o dado real não aparece no sistema do Ministério da Saúde, alegam que não há demanda na região Oeste. Mas os centros de Londrina e Curitiba vivem com UTIs lotadas.

Preto no Branco: De que forma uma unidade de queimados em Cascavel ajudaria todo o Paraná e não apenas a cidade?
Juliane Vieira: O sistema de saúde funciona em rede para o estado inteiro. Uma vaga em Cascavel não vai atender apenas o Oeste, mas sim desafogar Curitiba e Londrina, recebendo pacientes de várias regiões. Pela geografia do Paraná, faz todo sentido ter essa estrutura no Oeste para garantir um atendimento rápido, já que as primeiras horas após a queimadura são decisivas para salvar a vida e evitar amputações.

Preto no Branco: Como você avalia as condições de trabalho dos profissionais de saúde que atendem esses casos de emergência?
Juliane Vieira: Temos profissionais excepcionais, mas a saúde em si está pedindo socorro. Os servidores estão sobrecarregados, trabalhando no limite físico e emocional e adoecendo. Quando o profissional está exausto e o paciente desesperado, ocorrem situações de estresse desnecessárias. Se não olharmos com carinho para os profissionais e para a estrutura, a população não terá o atendimento digno de que precisa.

Preto no Branco: Qual é o impacto de um trauma como esse na estrutura familiar do paciente?
Juliane Vieira: A família adoece junta. A minha mãe, dona Sueli, transformou-se em uma mãe leoa para cuidar de mim. Antes tính tínhamos os papéis invertidos na casa, mas ela tirou forças de onde não tinha para me acompanhar no hospital. Passamos por momentos de muita dor e choro, mas nos agarrámos uma à outra para superar.

Preto no Branco: Como você reage às críticas de que estaria aproveitando a repercussão do acidente para ingressar na política?
Juliane Vieira: Algumas pessoas julgam sem saber a dor de ter mais de sessenta por cento do corpo queimado. Para mim, oportunidade é a chance de realizar um projeto bom. Só por meio da política e da legislação é possível mudar essa realidade. Eu não escolhi a vida pública, a vida pública me escolheu através dessa tragédia. Se eu não usar a minha voz agora, ano que vem outras pessoas vão queimar e continuar morrendo por falta de leitos.

Preto no Branco: Qual compromisso você assumiu com as lideranças do seu partido para defender essa pauta?
Juliane Vieira: Apresentei o projeto diretamente às lideranças do MDB e recebi o compromisso de que a ala de queimados será uma pauta prioritária no plano de governo. É um compromisso que faço comigo mesma e com todas as pessoas que torceram pela minha vida.

Preto no Branco: Como você analisa a atuação das equipes de resgate no dia do incêndio e a estrutura dos bombeiros na cidade?
Juliane Vieira: Eu contei a verdade sobre o que aconteceu no meu resgate. Não tenho raiva do profissional bombeiro, porque ele atuou no limite da estrutura que possuía. O culpado é o Estado, que não fornece os equipamentos adequados. Cascavel precisa de uma autoescada mecânica de grande alcance para salvamentos em prédios. Vou defender no legislativo que o Corpo de Bombeiros receba os investimentos e equipamentos necessários para trabalhar com segurança.

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