
Em 9 de agosto de 1976, o promotor público Manoel Vicente de Oliveira Mello, pressionado por interesses eleitorais, divulgou a existência do já esquecido processo 166/70, “instaurado para apurar atos de corrupção administrativa e de enriquecimento ilícito” do prefeito Octacílio Mion.
Estava esquecido por se basear em suposições forjadas. Mesmo sem culpa provada, a divulgação liquidou as chances de Mion de chegar ao terceiro mandato à frente da Prefeitura de Cascavel nas eleições de novembro de 1976.
Nascido em Curitiba em 17 de agosto de 1926, a densa biografia de Mion completava meio século na época – comprovando o relativismo da “verdade”: em tempos de ditadura, como em 1976, a “verdade” era a opinião de quem estava no poder.
De família tradicional em Curitiba, o pai, Ângelo Reinaldo Bordignon Mion, nasceu no bairro Bacacheri, Norte da capital, e aos 20 anos se casou com Aurora Emilia Daltrozzo, 19. Octacílio foi o primogênito do jovem casal.
Nada indicava que Mion deixaria a vida confortável na capital para seguir a um interior desconhecido no qual os crimes de morte eram frequentes e impunes, mas em 1954 se casou com Carolina Formighieri, irmã do prefeito de Cascavel, José Neves, e foi nomeado pelo governador Bento Munhoz para organizar um cartório nessa cidade, como tabelião e oficial de Protestos de Títulos.
Mion logo se projetou na comunidade. Foi eleito presidente do Tuiuti Esporte Clube e fundador, além de presidente, do Cascavel Country Clube e da Associação Atlética Comercial.
Com o cunhado José Neves não podendo concorrer a um novo mandato de prefeito, Mion foi o escolhido para representar o PTB nas eleições de 1960 e venceu bem, mas dois dias antes de assumir o mandato, o prédio da Prefeitura, diante do Colégio Rio Branco, atual Marista, na Rua Paraná, foi destruído por um incêndio criminoso.
O PTB atribuiu o crime ao prefeito Helberto Schwarz, que para não ser linchado pelos opositores irados fugiu da cidade alegando inocência. Sem Prefeitura, Mion assumiu o cargo de prefeito em cerimônia rápida no Colégio Rio Branco, na qual se reconheceu como o “prefeito das cinzas” que o vento soprava.
Esse momento de tristeza e preocupação era o pior que já havia passado, mas ele sequer imaginava o que viria pela frente, perseguido por quase duas décadas, sempre sob a ameaça de ser preso de uma hora para outra. “Em duas oportunidades fui obrigado a fugir”, disse Mion.
Ele era acusado de barbaridades que além de perda de mandato o condenariam à prisão: em sua primeira gestão na Prefeitura de Cascavel, acusou o promotor Oliveira Mello, Mion “previamente engendrou um plano de enriquecer ilicitamente, consistente na apropriação, para si, de cinquenta e sete (57) lotes de terrenos, situados na região urbana da cidade”.
A denúncia misturava terrenos da família do prefeito com imóveis que ele ajudou a desembaraçar para várias famílias devido à destruição de documentos no incêndio da Prefeitura, em 1960, antes de sua posse.
Mais facilmente desmentida foi a denúncia de ter feito negociata com o arquiteto Gustavo Gama Monteiro na formação da Estação Rodoviária, então na Rua Carlos Gomes.
Sob pressão, Mion enfim aderiu ao partido da ditadura (Arena), com o que começaram a desaparecer, como que por encanto, as acusações e denúncias, cuja veracidade jamais se comprovou.
Assim, já sem embaraços, elegeu-se para o segundo mandato em 1968, mas as denúncias nunca foram arquivadas. A sistemática divulgação do texto do processo por adversários políticos continuou pelos anos seguintes, voltando à tona a cada campanha eleitoral.
Em 1976 a Arena estava dividida em três alas. Como se não bastasse a ruidosa acusação desferida pelo promotor em agosto, três dias antes da eleição, em novembro, ocorreu um tiroteio. Quando tentava apartar a briga entre agricultor Manoel de Carvalho e um desafeto que o agredia, Oswaldo Lourenço foi alvejado mortalmente pela arma de Carvalho.
Lourenço teve o velório mais impressionante da história. A filha do atirador era sua noiva e se suicidou ali mesmo, dupla tragédia que abalou ainda mais a campanha de Mion. Vencido, Mion nunca mais voltou a concorrer à Prefeitura, mas a família seguiu ativa nas atividades políticas.
Com Carolina Formighieri, falecida em 2014, Octacílio teve seis filhos, um dos quais, Luiz Maurício, o caçula, foi assassinado em 2020 em crime jamais esclarecido. Octacílio morreu em 19 de novembro de 2015, aos 89 anos, reconhecido como um prefeito criterioso e bem-sucedido.
Para assinalar um século de seu nascimento vale destacar suas conquistas como prefeito, como criar a Fecivel, embrião da Universidade do Oeste, e o serviço de água e esgotos. Formou ainda o primeiro Distrito Industrial, concluiu a usina hidrelétrica do Rio Melissa e iniciou a remodelação da Avenida Brasil.
Quando a revolução de 1924 alcançou o Oeste do Paraná, para a família Elias-Schiels, estabelecida no Cascavel Velho, as notícias da “guerra”, como o movimento era chamado pelos sertanejos, eram de que não seria preciso haver preocupações, pois os governistas iriam vencer.
O Regimento de Cavalaria Provisório, composto por uma força mista de Exército, Polícia Militar e voluntários, seguindo para Guaíra, passou pela atual Santa Tereza, na época um depósito da Companhia Domingo Barthe, deslocando-se até a Picada do Benjamim (Céu Azul), de onde seguiu ao Rio Paraná.
Antônio José Elias recebeu a notícia de que os revolucionários estavam chegando, mas se recusou a deixar o Cascavel Velho informado de que o Governo Federal tinha tomado precauções para sustar o avanço revolucionário, construindo provisoriamente trechos da linha telegráfica a Lopeí.
