
A música começa e os alunos da APAE encontram diferentes formas de acompanhar o ritmo. Alguns dançam sozinhos, outros precisam do apoio dos professores e há quem participe sentado. Em Boa Vista da Aparecida, a dança virou parte de um encontro de convivência, inclusão e desenvolvimento.
A cidade recebeu a 6ª edição da Balada das APAEs, que reuniu cerca de 150 alunos das APAEs de Boa Vista da Aparecida, Três Barras do Paraná e Capitão Leônidas Marques. Mais de 60 profissionais e colaboradores participaram da atividade.
Entre os participantes estava Vanessa Duarte, de 36 anos. Ela tem paralisia, não anda e não fala, mas acompanha o que acontece ao seu redor. Segundo a mãe, Ivanilde Monteiro Duarte, as duas desenvolveram ao longo dos anos uma forma própria de comunicação.
Um olhar ou um gesto são suficientes para que mãe e filha se entendam. Vanessa também acompanha o relógio no braço da mãe quando percebe que está próximo o horário de ir para a APAE. Ela gosta de estar arrumada e demonstra quando não aprova uma roupa.
Para Ivanilde, a Balada das APAEs representa muito mais do que uma festa. Ela conta que a filha participa ao lado dos colegas e professores, cada um à sua maneira.
“Os alunos que andam, as professoras dançam com eles e quem está na cadeira de rodas como a minha filha, também. É muito bonito o projeto, eles ficam alegres”, afirma.
A iniciativa é realizada em parceria pelas APAEs dos três municípios. A organização da atividade fica sob responsabilidade de uma das entidades a cada edição.
Segundo o diretor da APAE de Boa Vista da Aparecida, Rafael Berlanda, a música e a dança contribuem para diferentes áreas do desenvolvimento dos alunos, como comunicação, memória, atenção, coordenação motora e expressão corporal.
“Para alguns alunos que têm dificuldade de se comunicar pela fala, por exemplo, a música e o movimento se tornam uma forma de expressar sentimentos e interagir com o mundo”, explica Rafael.
Ele também destaca que as atividades ajudam na autoestima, confiança, socialização, pertencimento e autonomia. Para o diretor, a Balada das APAEs cria um espaço para que os alunos mostrem seus talentos e tenham participação ativa.
A relação de Vanessa com a educação especial começou ainda na infância. Quando ela nasceu, Ivanilde morava em um sítio e trabalhava na roça. Após o nascimento da filha, a família mudou-se para Boa Vista da Aparecida em busca de recursos e assistência.
Nos primeiros dias de vida, um médico percebeu que havia algo diferente. A confirmação veio posteriormente, quando Ivanilde recebeu a notícia de que a filha era uma criança especial.
“Foi um choque, fiquei desesperada e comecei a chorar, mas tive que ser forte”, lembra a mãe.
Quando Vanessa tinha dois anos, começou a receber atendimento na APAE de Cascavel. Durante seis anos, três vezes por semana, Ivanilde percorria o trajeto entre Boa Vista da Aparecida e Cascavel com a filha.
O esforço trouxe resultados que marcaram a família. Segundo Ivanilde, Vanessa, que permanecia deitada, passou a conseguir ficar sentada sozinha na cadeira.
“Depois que ela entrou na APAE eu percebi muita melhora, tudo o que eu falo ela entende. Ela é uma menina muito inteligente”, conta.
A APAE Escola Bom Jesus de Boa Vista da Aparecida funcionou por mais de 32 anos em duas casas adaptadas. Os espaços permitiram a manutenção dos atendimentos, mas não foram construídos originalmente para funcionar como uma escola de educação especial.
Essa realidade mudou com a construção da nova sede, inaugurada em 21 de agosto. O prédio foi viabilizado com recursos do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado das Cidades (Secid), e contou com contrapartida do município superior a R$ 200 mil.
A nova estrutura foi planejada para a educação especial e possui salas que permitem ampliar e qualificar o atendimento multiprofissional. Entre os espaços estão áreas destinadas à terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia e assistência social.
A instituição também realiza atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pelo Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência (PRONAS).
Atualmente, mais de 35 crianças da rede municipal de educação, diagnosticadas com transtorno do espectro autista nos níveis 2 e 3 de suporte, são atendidas nesse trabalho.
A nova estrutura também deverá ganhar uma sala multissensorial. O projeto já foi aprovado pela Secretaria de Estado da Educação (SEDEF) e terá investimento superior a R$ 300 mil.
O espaço será destinado a atividades com diferentes estímulos, incluindo sons, texturas, cheiros, cores e luzes.
Para Rafael Berlanda, a nova escola representa uma mudança na estrutura de atendimento e também a possibilidade de ampliar o trabalho desenvolvido pela instituição.
“A inauguração da nova escola da APAE é a concretização de um sonho que vai permitir ampliar o atendimento, acolher mais pessoas e oferecer um ambiente mais seguro, acessível e preparado para atender às necessidades de cada aluno”, afirma.
Segundo o diretor, a estrutura também representa uma nova etapa para profissionais e famílias atendidas pela instituição.
“Quando falamos em educação especial, investir em estrutura é investir diretamente no desenvolvimento, na aprendizagem e na inclusão”, conclui.
