
Sete décadas depois dos conflitos agrários dos anos 1950, o que sobrou das atrocidades cometidas pelos jagunços das companhias colonizadoras contra os colonos e posseiros de terras nas regiões Oeste e Sudoeste do Paraná são narrativas esparsas e alguns poucos nomes completos.
“Jagunço” é como os sertanejos qualificavam as pessoas armadas sem uniforme militar. Delas, em geral, restaram alguns codinomes, poupando as famílias da pecha de ter pais criminosos.
Mesmo no caso do conflito mais documentado, no Sudoeste, em 1957, restaram raros nomes e só os apelidos atribuídos aos jagunços em ação naquela época – “Pé de Chumbo”, “Maringá”, “Chapéu de Couro”, “Quarenta e Quatro” etc.
Em 8 de abril daquele ano, em Cascavel, o agente regional da Fundação Paranaense de Colonização e Imigração, Alir Silva (1923–2008), também vereador do governista PSD e presidente da Câmara Municipal, rompeu com o governo.
Confessou não suportar mais o regime de terror e ameaças que elementos acobertados por seu próprio partido, dentro e fora do governo, impunham aos colonos. Para Alir, os mais prejudicados, além dos posseiros do Sudoeste, eram os colonos do interior do Município de Cascavel, em áreas de povoamento recente, como Cafelândia, Corbélia e Capitão Leônidas Marques.
As grilagens de terra – grandes companhias e seus jagunços expulsando posseiros e colonos – se tornaram comuns desde o fim da ditadura Vargas e do governo estadual de Manoel Ribas, que estimulava a ocupação imediata de terras pelos despossuídos para depois registrar a posse comprovando produção.
Para os governos seguintes, ocupar terras era “invasão” a ser reprimida pela polícia e pelos empregados das colonizadoras – os jagunços.
Recebendo uma enxurrada de denúncia dos crimes praticados por jagunços, Alir Silva pediu providências governo, mas não teve resposta.
Jornalista, primo do desembargador José Munhoz de Mello, que favoreceu a criação do Município de Cascavel e é o nome do fórum local, o curitibano Alir veio para Cascavel em 1955, enviado pelo governo.
Após a II Guerra Mundial, os colonos ocupavam terras sem donos (devolutas) e requeriam a posse ao Departamento Estadual de Geografia, Terras e Colonização (DGTC). O sistema de posse era simples, mas havia um complicador: os conflitos legais entre a União e o Estado referentes às terras da faixa de fronteira.
Pela Constituição, elas pertenciam à União, mas eram tituladas pelo Estado. Isso deu origem a demoradas demandas judiciais e conflitos. Os posseiros e colonos não conseguiam documentar as terras e eram assediados pelos jagunços. Alir avisou que os posseiros ameaçaram reagir também a bala.
Em maio de 1957, o vereador Pedro José da Silva, o Pedrinho Barbeiro, de Verê, partiu ao Rio de Janeiro com a intenção de denunciar os ataques dos jagunços, mas foi assassinado no caminho pelo pistoleiro Pé de Chumbo, por ordem da colonizadora Comercial, de Francisco Beltrão.
A polícia não apurou o crime e a certeza da impunidade motivou nos jagunços hábitos arrogantes, como cortar as orelhas das vítimas, secá-las e usá-las como troféus em seus chaveiros.
Frente a tais abusos, o senador Othon Mäder, ex-prefeito de Foz do Iguaçu e responsável pela criação de Cascavel, ergueu a voz para comunicar ao Brasil os acontecimentos em curso no Paraná.
Na área de 198 mil alqueires que o grupo Lupion tomou “fraudulentamente”, disse Mäder, “a quantidade de pinheiros ali existentes é de dez milhões, ou seja, as terras valem 1.584 bilhão e os pinheiros dois bilhões de cruzeiros. (...) A lesão sofrida pela União foi enorme. Tão grande que já não é uma lesão, mas um roubo”.
As colonizadoras Comercial e Citla intensificam a tomada de terras com ameaças e violências em agosto de 1957, fornecendo escrituras frias aos agricultores que concordavam em pagar pelas próprias terras.
Uma camionete da colonizadora Citla seguia de Santo Antônio para Capanema em 14 de setembro de 1957 quando teve seus sete ocupantes surpreendidos pela fuzilaria de uma desastrada tocaia feita pelos posseiros. Um dos sete foi identificado como jagunço e acabou chacinado com socos, punhaladas e tiros, mas quatro colonos inocentes também estavam no veículo.
Para o governo do Estado, tais acontecimentos – a “anarquias, assaltos, saques que visavam principalmente à perturbação da ordem social” relatados pela imprensa – eram parte de “um plano organizado de agitação geral da ordem pública com o intuito de depreciar a autoridade do governo, quer federal, quer estadual”. A Justiça, por sua vez, era muda e ausente.
Na futura Santa Tereza, a Central Lupion, incendiada em parte, “restou uma casinha, em que veio se localizar o novo administrador, um argentino de nome Francisco Gabana”, segundo Sandálio dos Santos.
Como Antônio Elias ajudara os governistas em sua passagem, a família passou muito medo quando quem apareceu foram os revolucionários e não os militares do governo para lhes dar proteção.
“Um dia chegou um revoltoso em nossos ranchos. Rondava a gente e usava um lenço vermelho no pescoço. Depois vieram outros jagunços de sua turma. Tivemos que nos trancar dentro de nossos ranchos, vendo pelas frestas eles arrancarem o nosso feijão. (...) mataram porcos e até vacas para se alimentarem” (Laurentina Lopes Schiels, https://bit.ly/3PBubLJ).
Os revolucionários venceram os governistas e chegaram entre novembro de 1924 e o início de abril de 1925, tomando os animais e saqueando as lavouras.
“Uma vez chegou no acampamento dos revoltosos um homem que havia sido ferido a tiros em Catanduvas”, recordou Laurentina.
