
Quando se fala em crise climática, é comum pensar primeiro nas grandes imagens: enchentes, incêndios, secas, estradas interrompidas e perdas materiais. Mas os efeitos das mudanças no clima também podem estar presentes em algo aparentemente mais simples: o calor que se prolonga, noites mal dormidas, cansaço, irritação e a piora de condições de saúde já existentes.
Esse cenário pode ser uma oportunidade para ampliar uma discussão que não deveria começar somente depois de um desastre. Em Curitiba, uma pesquisa que analisou mais de 101 mil atendimentos encontrou relação entre o calor extremo e o aumento do risco de atendimentos por problemas de saúde mental.
Essa relação também ajuda a compreender por que algumas pessoas podem sentir os efeitos do calor e das mudanças climáticas de forma mais intensa. Quem já enfrenta uma condição de saúde mental pode ficar mais vulnerável em períodos prolongados de calor. Da mesma forma, a insegurança provocada por perdas econômicas, alterações no trabalho, exposição frequente a temperaturas elevadas ou a preocupação com novos eventos climáticos pode aumentar o desgaste emocional.
Por isso, a saúde mental não deveria aparecer apenas como resposta a uma emergência. Ela precisa estar presente também na prevenção e na preparação, fazendo parte das políticas públicas voltadas às mudanças climáticas e à proteção da população.
Quando se fala em mudanças climáticas, os debates costumam envolver infraestrutura, meio ambiente, economia, planejamento urbano e defesa civil. Todos esses temas são fundamentais. Mas existe uma pergunta que também precisa estar nessa mesa: como as mudanças climáticas estão afetando a saúde mental da população?
Prefeitos, vereadores e gestores públicos têm papel importante para que essa questão entre no debate público e nas decisões que antecedem a emergência. Planejar cidades, preparar serviços, comunicar riscos, proteger grupos mais vulneráveis e organizar redes de cuidado também significa pensar em saúde mental.
A crise climática não acontece apenas quando a água sobe, a lavoura se perde ou uma cidade enfrenta uma situação de emergência. Ela também se manifesta no cotidiano, no corpo e na mente.
Se o clima já interfere na maneira como as pessoas dormem, trabalham, convivem e cuidam da própria saúde, por que a saúde mental ainda ocupa tão pouco espaço quando discutimos o futuro das nossas cidades?
Talvez seja hora de ampliar essa conversa. Porque enfrentar a crise climática também é proteger a saúde das pessoas. Inclusive a saúde mental.