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Antes dos prefeitos havia Horácio

Ele foi um dos principais organizadores da cidade e intercedeu para criar o Município de Cascavel  

Alceu Sperança
Por: Alceu Sperança
06/09/2026 às 08h57
Antes dos prefeitos havia Horácio
Horácio Ribeiro dos Reis em dois momentos de sua história: servidor dos Correios e comerciante 

Quando Horácio Ribeiro dos Reis nasceu, em 3 de maio de 1912, em Guarapuava, o Brasil era governado pelo marechal Hermes da Fonseca. Nesse período houve a Guerra do Contestado, tragédia que, entretanto, não alcançou o sertão paranaense, onde Horácio viveu a infância e recebeu boa educação pelos pais, Oscar Ribeiro de Assunção e Adriana Garcia.

Cumprindo o curso de Comércio e Contabilidade, Horácio ingressou nos Correios em 1929, aos 17 anos, para atuar no trecho entre Catanduvas e Porto Mendes, quando Cascavel ainda nem existia.

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Vinha de Catanduvas, passava pela propriedade rural da família Elias/Schiels, no Cascavel Velho, e seguia por Lopeí até Porto Mendes, onde coletava correspondência vinda de navio.

A vila de Cascavel, iniciada em março de 1930, ganha sua agência postal já em 1931, ano em que Horácio se casa com a professora Alvina, filha de Manoel Ludgero Pompeu. O casal teve quatro filhas (Anadir, a Mana; Avanir, Agripina e Áurea) e o futuro advogado Aírton, secretário de Estado no governo Richa.

De Catanduvas para Cascavel

O comando dos Correios ampliou seus serviços no Paraná em 5 de setembro de 1933 e designou Horácio para auxiliar a agência de Cascavel. Pensando na família, ainda com criança de colo, ele rejeitou vir morar na pequenina vila, preferindo ficar em Catanduvas.

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Mas em 1938, com a morte do chefe dos Correios, Bento Barreto, Horácio foi designado para substituí-lo. A vila já era maior que em 1933, mas ainda só um apanhado de casas espalhadas nos dois lados da rodovia federal.

Horácio concordou em ficar em Cascavel, mas só até a nomeação de um novo agente, Paulo Maceno. Até Maceno chegar, porém, Horácio travou fortes relações com os cascavelenses, sobretudo ao se associar a Aníbal Lopes da Silva em uma próspera casa comercial.

Aníbal era irmão de Laurentina Lopes Schiels, a matriarca do Cascavel Velho, que ficou viúva do marido, Ernesto Schiels, justamente em 1938.

Sociedade com Aníbal

Horácio costumava hospedar amigos e parentes na casa comercial, mas a circulação pela vila aumentou tanto nos anos 1940 que Alvina precisava colocar colchões até por cima dos balcões.

Foi quando a família decidiu construir o Hotel Pompeu dos Reis, com 62 leitos. Alvina comandava o hotel e obrigou o açougueiro Pedro Gabana, vizinho do hotel, na Avenida Brasil, esquina com Presidente Bernardes, a lhe reservar as melhores carnes das reses abatidas.

Nos anos 1940 e 1950, o hotel era o centro de convívio da vila. Ali tudo se discutia, desde reparos nas estradas até quem ia jogar nas partidas de futebol na quadra da futura Praça Getúlio Vargas.

Assim, não foi por acaso que em uma reunião no Hotel Pompeu dos Reis surgiu o primeiro clube social da cidade: o Tuiuti, em 25 de agosto de 1949.

Futebol, a grande paixão

Apaixonado por futebol, Horácio trouxe para Cascavel boa parte da Seleção do Paraguai para jogar pelo Tuiuti.

Hospedados em seu hotel, vários jogadores guaranis conseguiram bons contratos em grandes clubes brasileiros, como a Sociedade Esportiva Palmeiras, ou se entrosaram com a comunidade, optando por viver em Cascavel, caso de Benito Britez.

Mas Cascavel ainda era uma vila desassistida. Precisava de força política e por isso, em 1950, Horácio criou um comitê do PTB. Designado como delegado de polícia, a DP era quase uma Prefeitura do lugar.

A vila passou a prosperar, mas aí soou um sinal de alerta: o farmacêutico Antônio Massaneiro descobriu que Cascavel iria se tornar distrito do futuro Município de Toledo em 1951.

Contrariados, Reis e Massaneiro foram à capital e em contato com o deputado Antônio Anibelli conseguiram criar o Município de Cascavel em 14 novembro de 1951.

As primeiras eleições para prefeito foram marcadas para o dia 9 de novembro de 1952. Horácio seria um candidato natural, mas decidiu que o melhor prefeito seria o agropecuarista José Neves Formighieri, por sua família estar ligada às obras da rodovia (atual BR-277).

Vitória por um voto

Na vila, a preferência era pelo farmacêutico Tarquínio Joslin dos Santos, mas por este ser ligado ao Partido Comunista Brasileiro, de oposição ao governo, Horácio quis um prefeito ligado ao PTB de Vargas.

Neves recusou a indicação. Não queria cargos políticos, não havia recursos para o município e ele, vivendo no interior, nem morava na vila:

– O Massaneiro e o Horácio Reis chegaram e disseram: “Você vai ser o prefeito!” Eu disse: “Larguem mão de folia. Eu não tenho tempo a perder!”

Massaneiro e Reis chamaram Manoel Ludgero Pompeu, líder regional getulista, para aumentar a pressão. Neves só se rendeu quando viu os folhetos de propaganda já pagos e prontos para distribuir.

A campanha foi difícil, mas Neves venceu por um voto porque o candidato adversário, Tarquínio Santos, encalhou na estrada no chuvoso dia da eleição e não chegou à urna em tempo de votar.  

Horácio Reis passou o comando político de Cascavel a Formighieri e ao médico Wilson Joffre, aposentando-se dos Correios depois de 36 anos de serviço, em 1973. Morreu em 24 de fevereiro de 1987, com 74 anos.

A primeira família: O primeiro jagunço

“Só mesmo o primeiro jagunço permaneceu no local”, segundo Laurentina Lopes Schiels, a matriarca do Cascavel Velho.

“Fez amizade com a gente e viveu mais dois anos em nosso quintal. Durante estes anos outros revoltosos e legalistas acamparam ali. Quando uma gangue estava para chegar, a outra partia”.

O “primeiro jagunço” não era outro senão Eduardo Agostini (https://x.gd/4gUFJ ), um dos pioneiros da formação da cidade de Santa Tereza.

 Segundo Agostini, no curso da Revolução Paulista foi baleado um soldado da Polícia de São Paulo.

“Os companheiros levaram ele para a Central [Barthe, origem de Santa Tereza do Oeste], um casarão onde os doentes eram tratados precariamente, pois sequer havia médico. O homem não resistiu e morreu”.

 

Eduardo Agostini: filho adotivo de Alípio de Souza Leal

 

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Alceu Sperança
Jornalista, escritor e historiador.
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