
A Grande História do Oeste – 333
No livro “Coopavel 1976 a 1985 – Desenvolvimento e Crise”, o engenheiro florestal Cláudio José Luchesa não conta o que aconteceu com a empresa por ouvir falar: ele estava lá dentro. Administrador qualificado, em um quadro de instabilidade institucional do país e de estruturação então ainda inédita do movimento cooperativista, Luchesa sofreu minuto a minuto a sucessão de dramas e desafios que ao se acumular deixaram a grande cooperativa diante das opções de resistir ou fechar.
Ele conta, passo a passo e distribuindo lições valiosas, tudo que aconteceu nesse período crucial. Escrevi no prefácio do livro que “a Coopavel saiu do céu das soluções quase mágicas, baseadas no aproveitamento das possibilidades e driblar restrições, para o inferno das crises, combinando escolhas forçadas pela velocidade das mudanças e a situação nacional desdobrada em um futuro tão incerto que não se sabia ao amanhecer o que iria acontecer à tarde”.
Hoje, com o cooperativismo vitorioso e as arestas bem aparadas, pode parecer incompreensível aquela situação de escolhas difíceis, sempre a um passo do caos. No entanto, é aconselhável conhecer os problemas do passado para enfrentar com boas iniciativas as situações de instabilidade e acolher positivamente as inovações – pois o cooperativismo brasileiro nos trepidantes anos 1970 era uma novidade repleta de riscos e oportunidades.
Luchesa tem um currículo invejável, reforçado por uma capacidade de escrever que dribla as armadilhas do academicismo pela extensa militância profissional na imprensa. Por isso o livro não é uma tediosa arenga, mas um relato em que até as minúcias se destacam em vibrante narrativa.
Imagens, sinopses e gráficos figuram como complementos necessários à perfeita compreensão dos fatos narrados, e talvez o leitor só possa se queixar de algo que ele já deixa claro desde o início:
“Faço referência explícita e documentada aos personagens que causaram a crise, bem como ao presidente que, com inusitada hombridade e coragem, enfrentou os piores anos. Omito os nomes dos demais diretores para não melindrar suscetibilidades de quem ainda vive”.
O leitor talvez preferisse ver os nomes e as suscetibilidades melindradas, mas ao se aprofundar na leitura verá que nenhum nome faz falta, até porque a situação descrita permitirá a quem se interessar identificá-los se necessário. O que de fato importa são as descrições precisas, sem margem a dúvidas.
Se fosse um filme, o suspense, a tensão e a sinuca em que o protagonista viveu logo no início, no primeiro semestre de 1976, obrigariam o espectador a se agarrar à poltrona no aguardo das emoções seguintes.
Luchesa identificou os “vilões” em quatro dificuldades iniciais que desafiavam a empresa e seu gerente: a necessidade de prestar assistência agronômica, uma das razões para a criação da cooperativa; a venda de insumos, ação elementar para a boa produção; queda no recebimento de cereais, situação extremamente indesejável; e desinformação dos associados, mesmo havendo um jornal e programa semanal de rádio.
Não faltaram tiroteios e troca de murros, ainda que verbais, para estender as emoções do filme, desenvolvido em meio a muitas perguntas que não ficam sem as respostas, obrigatórias à medida que surgem.
Ao abordar a evolução técnica do setor de armazenagem o autor conta que na década de 1970 “o aumento exponencial da produção brasileira de grãos, soja, trigo e milho exigiu das cooperativas investimentos exponenciais em armazéns graneleiros”, mas foram investimentos altos e nem sempre bem-sucedidos.
Armazéns dos mais diversos tipos eram produzidos sem conhecimentos anteriores disponíveis sobre como deveriam ser construídos e usados. Assim, enquanto as estruturas improvisadas se inutilizavam por conta do uso precário os prejuízos se acumulavam.
“Em 1975 foram perdidas ao redor de 80 mil sacas, de soja em um dos armazéns da sede, em Cascavel, como consequência de uma infiltração de água no subsolo, pelo talude daquele armazém”. O segundo da cooperativa, mesmo construído recentemente, “ainda carecia de compactação e impermeabilização do solo adjacente, para impedir a infiltração da água da chuva”.
Problemas estruturais graves, considerando que em um ano o recebimento de soja havia aumentado em 73%. “Naquela época nem se falava em sistemas de aeração e termometria, hoje indispensáveis à conservação de grãos armazenados por longos períodos”.
Tudo era novo, portanto. Não havia modelos ou soluções nas quais se basear na tomada de decisões. No mais, histórias paralelas orlam a história da Coopavel como os diversos arcos de um barril, o maior deles sendo o caso da aquisição do frigorífico.
Criação ousada de uma personalidade ímpar no meio empresarial oestino, Euclides Formighieri, ele próprio dono de uma história singular de pioneirismo, os demais arcos são as indústrias de milho, rações, óleos e o laticínio. No livro, há muito mais, e em detalhes.
A primeira família cascavelense sofreu um abalo em 25 de janeiro de 1927, quando morreu em Laranjeiras do Sul o pai de Ernesto, Francisco Schiels.
Por essa época, um menino de doze anos percorria frequentemente a região e guardou lembranças que permitiriam, quase um século depois, traçar um retrato do que era Cascavel naquela época.
Osório Magalhães, nascido em Laranjeiras do Sul, já com 12 anos, em 1927, bem antes da vila de Cascavel se formar, já passava sempre pela Encruzilhada porque passou a morar com os pais em Catanduvas.
Osório acompanhava o pai, que transportava suínos aos portos do Rio Paraná, com clientes também em Barro Preto, Lopeí, Serra da Lola e Rio das Antas.
“A gente chamava Cascavel de Encruzilhada. Onde tem hoje a Praça do Migrante e a Praça Getúlio Vargas tinha uma encruzilhada (...) Um dos trechos dessa encruzilhada levava para a Fazenda Britânia [onde atualmente é Toledo e cidades próximas] e outra que ia para Foz do Iguaçu” (entrevista a Juliet Manfrin, jornal Hoje).