
Primeiro, o colono comprava a terra de uma instituição do governo. Segundo, comprava a mesma terra de uma empresa em litígio com o governo. Terceiro, comprava-a também de grileiros. Se não quisesse comprar, era só ocupar a terra pretendida e se arriscar a ser perseguido pela polícia do governo, pelos advogados da empresa e por jagunços dos grileiros.
Esta situação parece um filme de horror ou comédia, mas chegou a ser vivida pelos colonos pioneiros que escolheram trabalhar no Oeste paranaense na primeira metade do século XX.
Atrasada por diversos fatores, a colonização do Oeste paranaense foi inicialmente proibida pelas antigas obrages controladas por interesses estrangeiros. Só depois da Revolução Paulista (1924/5) o controle estrangeiro imposto pelas obrages começou a ser questionado.
Mais adiante a União e o Estado se engalfinharam em intermináveis demandas judiciais e quem comprou terras do ente federal as teve contestadas pelo estadual. E quando as mesmas terras estavam vendidas a empresas colonizadoras ocorria aquela situação extrema em que os colonos eram intimados a pagar as mesmas terras até a três donos diferentes.
Em 1954, quando foi criado o Instituto Nacional de Imigração e Colonização, futuro Incra, o papel do órgão seria controlar a proliferação de companhias colonizadoras que agiam com titulações superpostas de terras.
No Paraná, eram situações resultantes dos conflitos dominiais existentes entre o Paraná e a União. Em alguns estados a atuação do Inic foi mais simples, mas no Paraná os conflitos do andar de cima atrapalhavam a vida dos colonos que rumavam ao interior atraídos pelo alto rendimento que a terra vermelha apresentava.
Antes sequer de começar o trabalho, o que eles encontravam eram jagunços armados nas cidades, ruas e estradas. Quem conhece a história do colono Severino Gênero, por exemplo, demora a acreditar em tudo que ele passou.
Quando veio para o Oeste em 1955, participando do início da formação de Palotina, Gênero se sentiu perturbado por aquelas pessoas agressivas, desconfiadas e ameaçadoras: “O que assustava um pouco a gente era a presença de jagunços, que estavam principalmente perto do Rio Piquiri e na linha entre Palotina e Terra Roxa”, contou.
“Assim, ainda em 1955, quando eu tive de ir a Guaíra para obter uns documentos, topei com uma turma de jagunços armados de mosquetão e metralhadora. Intimaram a mim e meu companheiro Helmuth que parássemos. Fomos revistados e interrogados (…)” (depoimento ao livro História de Palotina, de Pedro Reginato).
O susto com os jagunços e a preocupação com a legalidade das terras adquiridas da empresa Braviaco se transformou em pavor quando o governador Moysés Lupion, em 4 de junho de 1958, enviou a Polícia Militar para aterrorizar os colonos que o governo considerava invasores. “Eles cercaram a cidade, sem deixar ninguém mais entrar nem sair”, disse o pioneiro.
O cerco a Palotina foi ruidoso, ofensivo e um claro exemplo de terrorismo de Estado, segundo Severino: “Na noite do dia 4 eles tinham pintado o sete, à noite inteira. Gritavam, riam, davam tiros a esmo, pareciam bêbados”.
Ao amanhecer, alguns moradores furaram o cerco para se dirigir às autoridades militares, ao governo federal e à imprensa acusando os policiais de promover arruaças.
“Por sorte que o responsável da firma (Pinho & Terra) Antônio Bordin, conseguiu a vinda do Exército e acabou com aquela baderna”, disse Gênero, em depoimento ao padre Reginato. A intervenção do Exército ocorreu imediatamente, já no dia 5 de junho, ocupando Palotina e desautorizando os policiais-militares.
Abilon de Souza Naves, mais tarde senador pelo Paraná, era diretor da Carteira Agrícola do Banco do Brasil e fez o papel de intermediário entre a colonizadora e o governo da União, pedindo ao general Henrique Teixeira Lott, então ministro da Guerra, que agisse no sentido de resguardar a integridade física dos colonos palotinenses.
Na campanha eleitoral ao governo do Estado, em 1960, Ney Braga prometeu solucionar os problemas agrários, mas antes de lhe passar o cargo, no início de 1961, o governador Moysés Lupion distribuiu títulos de terras na região Oeste.
“O novo governador prometeu legalizar as terras, mas os colonos tiveram que pagar mais vinte mil cruzeiros cada lote e não viram escritura nenhuma”, disse Gênero. A situação tensa ainda se arrastou por três anos, com a força militar a postos para proteger os colonos de boa fé. “Não fosse isso ia ter muita morte e desordem”.
Só em agosto de 1972, depois de uma espera de muitos anos, os títulos de propriedade dos colonos de Palotina foram confirmados com a derrota de um agravo interposto pelo Estado no Supremo Tribunal Federal.
Foi uma vitória dos procuradores da República, advogados Oscar Correa Pina e Antônio Gois Ribeiro, e dos advogados da Braviaco, Wilson Carlos Kuhn e Luiz Carlos de Lima.
Tecnicamente, a questão estava encerrada, mas, na prática, só em 1976 chegou ao fim a dramática situação dos colonos de Palotina, quando o governo federal decretou a desapropriação da região conflitada do Piquiri, determinando a imediata titulação das propriedades pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
“Assim foi que ficamos donos de um pedaço de terra, onde queríamos trabalhar e viver tranquilos, depois de pagar três vezes”, desabafou Severino Gênero. Nascido em junho de 1924 e em Palotina desde 1955, só a partir daí, com mais de 50 anos, o colono teve sossego, de fato.
Foi suplente de vereador em 1993 e no ano seguinte era um dos líderes que reivindicaram ao então governador do Paraná, Mário Pereira, recursos ao Curso de Medicina Veterinária no Campus Palotina da UFPR. Em 1996 se elegeu vereador, até 2000, e morreu em 26 de janeiro de 2023, com 98 anos.