
A menos de um mês para começar a ser implementada, em 2026, a reforma tributária ainda é vista como um território nebuloso por empresários, industriais e, sobretudo, por aqueles que terão a missão de traduzir o novo sistema na prática: os contadores. Entre incertezas normativas, alto grau de complexidade e falta de clareza sobre seus efeitos reais, a mudança estrutural do sistema fiscal brasileiro tem provocado forte preocupação no setor produtivo, especialmente no Paraná.
O presidente da Associação Comercial e Industrial de Cascavel (Acic), Marcio Blazius, resume o clima predominante: incerteza. Para ele, a reforma tem avançado sem oferecer respostas essenciais ao contribuinte e às empresas. “Há muitas dúvidas, falta de esclarecimentos e o temor de que a carga tributária não reduza”, alerta.
Blazius defende que a transição deveria ser acompanhada de maior transparência e diálogo. Segundo ele, a ausência de definições claras coloca empresas em risco, interfere no planejamento financeiro de 2026 e dos próximos anos e compromete a competitividade. “Não há previsibilidade. E sem previsibilidade, qualquer estratégia empresarial fica comprometida”.
Se empresários cobram clareza, os contadores vivem uma espécie de “zona de penumbra”. Profissionais do setor admitem que o impacto da reforma sobre rotinas, sistemas e obrigações acessórias ainda não está totalmente compreendido. É, segundo especialistas, a maior mudança estrutural do sistema tributário desde a Constituição de 1988.
Entre os desafios mais citados estão: Falta de preparo técnico. Levantamentos de diferentes organismos fiscais mostram que grande parte dos contadores não se sente totalmente preparada para implementar as novas regras. O volume de detalhes técnicos, a coexistência de regimes antigos e novos e o acúmulo de normas complementares tornam o processo ainda mais confuso.
Outro desafio, será a gestão do conhecimento em meio a normas em transição. “A reforma exige atualização constante, muitas vezes semanal. Com a legislação sendo editada, ajustada ou regulamentada aos poucos, contadores precisam se adaptar em tempo real — sem margem para erro”, reforça o contador Lucas Hermano.
Isso porque, softwares fiscais, ERPs e plataformas de gestão precisam ser ajustados ao novo modelo. “Empresas que não investiram antecipadamente enfrentam dificuldades operacionais e risco de inconsistências”, alerta.
O período de transição prolongado exige que contadores trabalhem simultaneamente com regras antigas e novas durante anos. Isso não reduz a carga de trabalho, como alguns imaginaram — pelo contrário, aumenta.
Com a regulamentação incompleta, há risco de interpretações divergentes e possíveis autuações. A incerteza jurídica gera receio entre profissionais e empresários.
“O profissional deixa de ser apenas executor das obrigações. Agora precisa atuar como consultor estratégico, orientando clientes sobre formação de preços, impacto nos negócios e reorganização financeira. É uma mudança profunda no perfil da profissão”, completa.
Para enfrentar esse cenário, entidades como a Federação Nacional dos Contadores (Fenacon) recomendam capacitação intensiva, ampliação da automação e atualização constante.
As preocupações com a reforma tributária ecoam também entre presidentes de diferentes entidades que representam o setor produtivo. Eles têm apontado para um consenso: o ambiente de negócios está sufocado pela falta de previsibilidade.
O presidente da Associação dos Empresários do Paraná (Aepar), Carlos Gloger, disse que “a política fiscal atual não premia quem produz, mas quem consome o dinheiro público”. Para ele, o empresariado precisa recuperar protagonismo, já que 2026 será um ano decisivo para o país.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Edson Vasconcelos, concentrou suas críticas no peso da carga tributária e na insegurança regulatória que afeta a indústria paranaense.
“O empresário brasileiro trabalha metade do ano só para pagar impostos. Isso é incompatível com qualquer estratégia de desenvolvimento”, afirmou. Ele defende um pacto de eficiência produtiva e reforça que planejamento e previsibilidade são fundamentais. “Sem estabilidade regulatória, não existe investimento. Sem investimento, não há indústria forte”.
Vasconcelos também destacou que a reforma, da forma como está sendo implementada, pode ampliar custos e gerar dúvidas sobre como o setor industrial deve reorganizar seus processos.
Diversas outras líderes têm reforçado o sentimento de preocupação. Entre elas, representantes do transporte de cargas, do comércio, da indústria moveleira e do agronegócio. Críticas à falta de equilíbrio federativo, ao aumento de obrigações e ao risco de penalização de setores específicos foram recorrentes.
Para todos esses segmentos, a reforma tributária não está sendo acompanhada do ambiente de segurança jurídica necessário para garantir competitividade.
Com a reforma entrando em vigor em janeiro, o país se prepara para enfrentar uma das transições mais complexas de sua história fiscal. “Empresários cobram clareza, indústrias pedem estabilidade, e contadores tentam se preparar para um novo modelo que ainda não está totalmente definido”, reforça a economista Regina Martins.
Ela destaca que, a menos de um mês do início desse novo ciclo, a sensação é de que o Brasil está prestes a operar um sistema tributário reformulado, mas ainda cercado de dúvidas — e com impactos que só serão plenamente compreendidos ao longo dos próximos anos. “Para uma região como o Oeste do Paraná, referência em produção e na transformação com valor agregado, os desafios são imensos e talvez possamos viver algum período de caos até o real entendimento de como passará a operar”, destacou.
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