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O Paraná expulso do Oeste

ÃA ditadura Vargas paralisou as iniciativas do Estado na região ao criar a “Comissão Especial da Faixa de Fronteira” em 1937

26/04/2026 às 11h40
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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Faixa de fronteira: na ditadura Vargas, área excluída do Paraná 
Faixa de fronteira: na ditadura Vargas, área excluída do Paraná 

O ano de 1937 foi ótimo para o Estado do Paraná em seus primeiros meses, pelo sucesso das atividades internas, mas péssimo na quadra final, por uma ação autoritária e paralisante do governo federal, que se encaminhava para uma ditadura implacável.

Até 5 de março de 1937, quando o governador Manoel Ribas criou a Delegacia de Ordem Política Social, polícia política instituída com a lei 177, evidentemente focada em vigiar as atividades do Partido Comunista Brasileiro (PCB), supunha-se que ele simpatizava com a ideia socialista de distribuir terras aos sertanejos.

Pela existência de muitas terras sem produção e muitas famílias sem ocupação, vêm dessa época a predominância nos discursos partidários e debates da palavra de ordem Reforma Agrária, tema explosivo que encontrou no governador Manoel Ribas um importante defensor:

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“Talvez seja esse programa – tornar cada brasileiro do sertão um proprietário rural – um dos melhores elementos de combate às ideias e campanhas subversivas à ordem social e política da nossa pátria”.

Ribas acenava com a possibilidade de tornar toda família sertaneja dona de um pedaço de terra para contornar a pregação comunista de uma rebelião rural.

As boas intenções de Ribas esbarram, porém, em obstáculos fortíssimos, a começar pela resistência dos latifundiários a se desfazer das terras que usam como estoque de riqueza.

O mundo marchava para a direita, mas não a liberal e democrática: era a rancorosa e violenta extrema-direita que se impunha. Em 26 de abril de 1937, em plena Guerra Civil Espanhola, a aviação aérea nazista bombardeou Guernica, provocando um horrendo massacre que só teria depois paralelo na explosão das bombas atômicas pelos EUA no Japão.

Confiança nas Forças Armadas

No Paraná, a força militar era vista como agente de transformações positivas. Em junho de 1937 foi enviado um apelo ao Ministério do Exército pedindo ajuda para construir uma boa rodovia no lugar do descuidado leito da Rodovia Estratégica.

“A estrada que vai a Guarapuava está transformada em picada, deformada extraordinariamente pela ação do tempo. (...) Uma boa estrada de rodagem facilitará a exportação de mil e mil pinheiros, que os colonos, formando campos como os de Cascavel, derrubam para serem eliminados pelo fogo, causando assim enormes prejuízos para o Estado e para o município”. (Jornal Gazeta do Povo, 18 de junho de 1937).

Com uma soma de eventos forjando a II Guerra Mundial, em julho o Japão invadiu a China, cujo povo se organizou na Guerra de Libertação Nacional, início de sua trajetória rumo à futura potência.

Por essa época, desenvolver o Brasil era uma espécie de frenesi que reunia governo, povo, empresas e interesses estrangeiros. No interior não havia a cultura do “nós” contra “eles” e os produtores rurais não eram divididos entre com e sem terra.

Os esforços unitários resultaram em conquistas importantes, como a vinda do Correio Aéreo Nacional para a diminuta vila de “Encruzilhada de Aparecida dos Portos de Cascavel” em agosto de 1937. 

Ditadura, violência e torturas

Com uma pequena população, Cascavel jamais faria parte de uma rota aérea se não fosse o interesse em aproximar os investidores de um interior ainda inacessível por estradas.

“O CAN realiza no Paraná um percurso que se inicia em Curitiba, seguindo por Prudentópolis, Cascavel, Foz do Iguaçu e Guaíra, penetrando no Mato Grosso. Nas tardes de quarta-feira, a preocupação de toda a pequena população do povoado é presenciar o pouso do monomotor da Aeronáutica” (Carlos e Alceu A. Sperança, Pequena História de Cascavel e do Oeste https://x.gd/fbx8B).

A desunião brasileira só se revelava nas grandes cidades como resistência do empresariado, com maior poder de unificação, à organização dos trabalhadores, sempre divididos em correntes opostas. 

À sombra da ofensiva nazista na Europa e expansão do militarismo japonês na Ásia, em novembro de 1937 o Brasil também abandona a democracia: em 27 de novembro, Getúlio Vargas rasga a Constituição e desfecha um golpe de Estado com o apoio das elites econômicas que viam com simpatia seu controle rígido sobre os trabalhadores.

Vargas ordena às tropas que fechem o Senado e a Câmara dos Deputados e proíbe os partidos políticos. Implanta, com tais ações, a ditadura do “Estado Novo”. Determina que as bandeiras estaduais fossem queimadas publicamente. Todos os direitos e garantias individuais são suspensos.

No livro Falta Alguém em Nuremberg, David Nasser relaciona as formas de violências praticadas: esmagamento de testículos com alicates, extração de unhas e dentes, queima de seios com cigarros, introdução de arame nos ouvidos, aquecimento de órgãos genitais com maçarico e outras torturas cruéis.

Faixa de exclusão

Vargas abriu um confronto de terríveis consequências no Paraná ao inserir na Constituição Federal o artigo 165, ampliando a faixa de fronteira para 150 quilômetros de largura.

Com o golpe, Manoel Ribas, acusado de simpatia com os comunistas por apoiar a entrega de terras aos sertanejos paranaenses, deixa de ser governador em 10 de dezembro de 1937, mas como é fiel a Vargas volta a ser designado como interventor.

Com as ações estaduais interrompidas e as federais em maturação, o Departamento Nacional de Estradas e Rodagem foi criado em 1937, implantado no ano seguinte e só em 1941 anunciou o Programa Rodoviário Marcha para o Oeste.

O governo estadual havia traçado um projeto de colonização para as terras das antigas concessões outorgadas no período imperial, mas o bloqueio federal na faixa de fronteira embaraçou o andamento das ações nessa área.

Para contornar a proibição, faz parte do plano estimular posseiros a ocupar lotes na faixa de fronteira, onde o Estado não pode agir por imposição do comando ditatorial, então encastelado no Rio de Janeiro.

O plano alternativo se completa com o estímulo à formação de empresas colonizadoras, que fazem em São Paulo a propaganda da terra como propícia à cafeicultura e extração de madeira.

Esforços paranistas

No Sul, as colonizadoras destacam, além da fertilidade, a amplitude dos lotes, muito atrativa comparando com as terras retalhadas por heranças de sucessivas gerações no RS.

“A valorização dos imóveis por ferrovias e rodovias desencadeia uma intensa febre de interesses e ambições. Bons lotes ocupados por posseiros são cobiçados por empresas colonizadoras que alargam seus territórios cartorialmente ou pela mão armada de seus funcionários – os jagunços” (Quem Manda no Paraná, livro 3 https://x.gd/VbaxO).

Para impor disciplina a essa tendência, o plano de colonização das terras devolutas (ou seja, readquiridas por devolução) determina a fundação, na margem esquerda do Rio Piquiri, das colônias Piquiri, Cantu, Goio-Bang e Goio-Erê. À margem direita do Ivaí, as colônias Manoel Ribas, Muquilão e Mourão.

“Seguiu (o governo) planos de colonização, demarcando os lotes rurais e prevendo áreas para a instalação de núcleos urbanos” (Cecília Maria Westphallen, Brasil Pinheiro Machado e Altiva Pillati, Nota prévia ao estudo da ocupação da terra no Paraná moderno),

Com aumento de seus poderes, Getúlio Vargas abriu caminho para a criação do Território Federal do Iguaçu, com territórios subtraídos do Paraná e Santa Catarina, que expulsou a governança paranaense no Oeste e Sudoeste.

Até o fim da guerra

A faixa territorial de ação federal era fixada em 100 quilômetros. Ao estendê-la a 150 quilômetros, Vargas excluiu toda a região Oeste, desde Foz do Iguaçu até os arredores de Cascavel.

 “Dentro de uma faixa de cento e cinquenta quilômetros ao longo das fronteiras, nenhuma concessão de terras ou de vias de comunicação poderá efetivar-se sem audiência do Conselho Superior de Segurança Nacional” (artigo 165).

Com a existência desse artigo na Constituição federal, ficou o Estado do Paraná impedido de colonizar e abrir estradas ao longo de suas fronteiras com a Argentina e Paraguai. A linha imaginária de 150 quilômetros  atingia em cheio a região das barrancas do rio Paraná.

O território compreendido no artigo 165, a faixa de fronteira, compreendia na época os municípios de Foz do Iguaçu e Clevelândia em sua totalidade e parte dos de Palmas e Guarapuava.

Em consequência desse novo artigo na Constituição Federal, o Estado do Paraná paralisou todos os serviços de colonização na área, justamente quando estava instalando as colônias de Pato Branco e Chopim.

A partir da expulsão e consequente ausência do Estado do Paraná nas atividades em curso no Oeste se deu o pior: paralisia e lentidão até que viesse uma nova aceleração, após a II Guerra e o fim da ditadura. 

A primeira família: Ajustes rodoviários

Sem rodovias nem estrada de ferro, o Paraná só era acessível por mar. O fracasso do projeto ferroviário levou o governo de Affonso Alves de Camargo, em 1917, a priorizar a reconstrução da interrompida rodovia Guarapuava-Foz do Iguaçu.

“Foi empreiteiro-construtor o saudoso e ilustre engenheiro paranaense dr. Francisco Natel de Camargo. Os meios de serviços eram ainda os mais rudes que se pode imaginar e os ganhos em relação ao dia-serviço hoje são inacreditáveis” (Sandálio dos Santos,).

A estrada, então, encontra-se no mais completo abandono, não oferecendo condições nem mesmo ao tráfego de carroças.

Nesse mesmo ano de 1917 o engenheiro João Moreira Garcez concluiu um caminho carroçável ligando Catanduvas a Foz do Iguaçu, mas nada ainda indica movimentação de colonos para ocupar áreas próximas à futura Cascavel.

Isolada, como um universo à parte, a Companhia Matte Larangeira construiu um trecho de 60 quilômetros de ferrovia entre os portos Guaíra e Mendes, mas para uso exclusivo da empresa, com a finalidade de superar o obstáculo das Sete Quedas à navegação fluvial.

 

 

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