
Durante décadas, o interior de Cascavel foi visto sob uma lente binária: de um lado a cidade moderna e pujante, do outro, o "rural", quase que como um bloco único e genérico de terra e produção. No entanto, um movimento inédito no Paraná acaba de rasgar essa cortina de fumaça. A partir de uma estratificação minuciosa e científica, a prefeitura, em parceria com o Sebrae e outras instituições como universidades locais, realizou um verdadeiro raio-x de 450 páginas que revela as identidades genéticas distintas de cada um de seus sete distritos rurais. “Não se trata apenas de saber o que se planta, mas de entender a alma vocacional de cada território para transformá-los em potências econômicas independentes”, afirma o prefeito Renato Silva.
Este estudo, capitaneado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e inspirado em modelos de sucesso como o da Serra da Canastra (MG), não é apenas um relatório, é um plano de voo que promete estancar o êxodo rural e colocar o pequeno e médio produtor no centro de uma revolução tecnológica e turística. “Preparem-se para conhecer uma Cascavel que você nunca viu, onde cada curva de estrada esconde um potencial bilionário agora catalogado e pronto para o futuro”, descreve o economista Marcelo Dias.
Para organizar esse oceano de informações, o projeto se estruturou sobre cinco pilares fundamentais, as "alavancas" que vão, segundo Everton Porfírio, diretor da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Cascavel, mover a engrenagem do interior. A primeira, lembra ele, é a Agricultura Familiar, tratada não mais como subsistência, mas como um negócio de alta performance. A segunda é a infraestrutura, focada no escoamento de produção e na qualidade de vida. A terceira, a educação, em que se busca levar o ensino empreendedor e técnico diretamente ao jovem do campo.
“As duas últimas alavancas são o tempero da modernidade: o turismo com gastronômico, rural e de aventura e a inovação. Este último pilar é o que realmente diferencia o projeto, buscando levar conectividade e tecnologias digitais sustentáveis para as propriedades, garantindo que o jovem não precise abandonar suas raízes para estar no mundo digital”, destaca o diretor.
Na entrada da cidade pela BR-163, Sede Alvorada, antigo trecho da BR-467, já se posiciona como a "fronteira inteligente" de Cascavel. O raio-X identificou o distrito como um hub de inovação e logística. Beneficiada pela proximidade com rodovias estratégicas que conectam o Brasil à América Latina, a região é um terreno fértil para a industrialização do agro. Com a duplicação das rodovias vizinhas e a modernização da Ferroeste, o distrito está fadado a ser o grande porto seco terrestre do município, atraindo investimentos que antes ficavam restritos ao perímetro urbano.
Se o futuro é sustentável, o futuro tem o nome de Espigão Azul, lembra o diretor-regional do Sebrae, Augusto Stein. A vocação mapeada ali é a chamada Economia Verde. O distrito se destaca pela produção orgânica, sistemas agroflorestais e um potencial latente para o turismo gastronômico sustentável. “O plano de ação para esta região prevê a implementação de projetos de economia circular e gestão inteligente de resíduos sólidos, transformando a preservação ambiental em um ativo financeiro direto para as famílias locais”, descreve.
Com uma extensão territorial vasta e uma ligação íntima com grandes cooperativas, São João do Oeste foi diagnosticado como o coração da tradição e da agroindustrialização. Everton Porfírio
Lembra que o distrito já abriga indústrias de pequeno a grande porte e, com as melhorias na malha viária e o acesso privilegiado à BR-277 e à Ferroeste, caminha para se tornar um distrito industrial rural de referência, unindo a cultura local à produtividade em escala.
Em São Salvador, a natureza dita as regras do negócio. Localizado em uma zona de preservação, o distrito foi identificado como o polo da Bioeconomia. O foco aqui é a produção leiteira e a criação de pequenos animais, integradas a um patrimônio ambiental que começa a ser visto como um produto de alto valor agregado. “É a prova de que é possível produzir riqueza sem derrubar uma única árvore, utilizando o manejo sustentável como diferencial competitivo”, lembra o diretor de uma das maiores cooperativas do mundo, com sede em Cascavel, a Coopavel, Dilvo Grolli.
Para quem busca refúgio e experiência, o raio-X apontou Rio do Salto como o "Santuário das Águas". Com suas cachoeiras e paisagens exuberantes, a vocação é o turismo de experiência aliado à produção artesanal de alimentos. Queijos, vinhos e sabores que carregam o DNA do interior são as joias da coroa deste distrito, que agora recebe infraestrutura para se tornar um destino turístico oficial no portal "Vem Ver Cascavel".
Lidiane Stein visita a região todos os meses, gosta de estar em contato com o ar puro e fugir da loucura da cidade. “Durante a semana eu vivo a poluição, aos fins de semana eu venho me desintoxicar”, conta sorridente.
Talvez a descoberta mais surpreendente do estudo resida no distrito de Diamante, atrás do Bairro Universitário na região sul de Cascavel. Poucos sabiam, mas esta área possui o maior potencial hídrico de toda a região e, possivelmente, do Paraná, devido à abundância de nascentes e à facilidade de acesso ao Aquífero Guarani. Esse "ouro azul" abre portas para uma explosão na psicultura e na produção de hortifrútis. O estudo sugere que Diamante tem potencial para superar grandes polos produtores de tilápia, como Nova Aurora e Toledo, bastando para isso a organização dos recursos já existentes no solo.
A pequena agricultura Jocelma da Luz é um desses exemplos. Ela produz hortaliças na região e, abundância da água, conciliada às práticas de preservação, lhe conferem um título de produtora orgânica. “Agregamos valor a um produto saudável e que a procura só cresce. Deixar o campo saiu de vez dos planos da família”, conta.
Em Juvinópolis está consolidado o centro de difusão de Agricultura de Precisão. Com propriedades maiores e tecnologia de ponta, o distrito é um berçário tecnológico para a produção de proteína animal, especialmente suínos e aves. “É onde a digitalização do campo atinge seu ápice, servindo como laboratório para novas tecnologias que serão replicadas em todo o município”, reforça Everton Porfírio.
Mais do que números e vocações, este mapeamento é um antídoto contra o êxodo rural, destaca o prefeito de Cascavel. Ao transformar distritos em polos especializados, a prefeitura, o Sebrae e parceiros criam motivos reais para que o jovem permaneça no campo. "A sucessão é um desafio gigantesco e que está sendo vencido. Antes o cenário era de os filhos deixarem as propriedades e isso está mudando", aponta Everton Porfírio, ressaltando que o acesso à informação e à tecnologia é o que manterá as famílias gerando riqueza nas pequenas propriedades, que representam 80% do total do município.
Este trabalho de "mãos dadas" com líderes locais não termina no relatório; ele serve agora como âncora para buscar recursos federais e estaduais, com projetos prontos e fundamentados que provam a viabilidade de cada centavo investido. “Cascavel, ao olhar para dentro, descobriu que o seu interior não é apenas o quintal da cidade, mas sim a sua sala de visitas mais próspera”, completa.
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