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90 anos de Aparecida dos Portos

História real comprova sem a mínima dúvida que a cidade não começou a se formar no atual bairro Cascavel Velho 

19/04/2026 às 10h25
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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Até 1969 o Cascavel Velho, no círculo 1, ainda não fazia parte da cidade, formada inicialmente (anos 1930) pelo Patrimônio Velho (2) e acrescida nos anos 1950 pelo Patrimônio Novo (3)
Até 1969 o Cascavel Velho, no círculo 1, ainda não fazia parte da cidade, formada inicialmente (anos 1930) pelo Patrimônio Velho (2) e acrescida nos anos 1950 pelo Patrimônio Novo (3)

O ano foi 1936. Nessa época, a futura Cascavel era conhecida pelos viajantes como “Encruzilhada dos Gomes”. Era um pequeno grupo de casas próximos à atual Praça Getúlio Vargas, mas já dobrava as primeiras cinco moradias do início, em 1930. Segundo Sandálio dos Santos, já eram em doze ranchos de tábua lascada e três de madeira serrada, com um Distrito Policial e uma população restrita a vinte moradores fixos.

Os pioneiros mais antigos chamavam o lugar de “Cascavel”, vinculado ao rio próximo, definido pelo telegrafista Bento dos Santos Barreto ao seguir a lei que determinava dar aos locais o nome do acidente geográfico mais destacado nos arredores.

Mas nem todos. Alguns não apreciavam o nome da cobra associado à vila, preferindo chamá-la de “Aparecida dos Portos” por um motivo: este foi o nome dado ao lugar pelo prelado (bispo) de Foz do Iguaçu, monsenhor Guilherme Maria Thiletzek, que ao visitar o povoado supunha estar próximo a um porto.

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O “batismo” do lugar se deu em 1934. Em sua primeira viagem ao desconhecido Médio-Oeste, monsenhor Guilherme, já adoecido – acabaria por falecer em 1937 – vinha para inaugurar a capelinha católica da vila.

Ele também não gostou do nome “Cascavel” e supondo que visitava um dos diversos povoados às margens do Rio Paraná, deu ao lugar o nome de “Aparecida dos Portos”, adotado por parte da comunidade católica, inclusive os professores.

Assim, o Correio recebia correspondências enviadas a “Cascavel”, mas na escola as crianças eram ensinadas a usar o nome “Aparecida dos Portos”.

“Portos de Cascavel”

O governador Manoel Ribas, exigido a formalizar a criação da cidade por seu secretário Othon Mäder, da Agricultura, decidiu juntar as duas formas e assim, em 16 de abril de 1936, ele criou o “Patrimônio Municipal de Aparecida dos Portos de Cascavel”, que havia sido aprovado já em 4 de setembro de 1933.

Determinava que o primeiro perímetro urbano de Cascavel tinha uma área de 1.001 hectares e, ao contrário do que diz a lenda, não incluía o atual bairro Cascavel Velho, área que na época tinha uma propriedade rural, iniciada em 1922 pela família Elias/Schiels.

O arruamento de todo o Patrimônio Municipal foi organizado pelo engenheiro Hans Marth, sendo de sua responsabilidade o traçado de praticamente todas as ruas entre a igreja de Santo Antônio e a antiga Rua Moysés Lupion, hoje Rua Sete de Setembro.

Como nada ocorre por acaso, justamente em 1936, para atrair moradores, “o governo isentou de impostos a bagagem, móveis, utensílios, veículos e animais dos colonos que procuravam se fixar nas regiões rurais do Estado” (Ana Yara Dania Paulino Lopes, Pioneiros do Capital: A Colonização do Norte Novo do Paraná).

A Cascavel de 1936 era apenas o chamado Patrimônio Velho, que alguns, por ouvir falar, confundem com o Cascavel Velho. É preciso entender que o Cascavel Velho só tardiamente foi incorporado à cidade, após a vertiginosa expansão do perímetro urbano, na década de 1960, decorrente da riqueza trazida pela madeira.

O primeiro perímetro urbano passou a ser chamado “Patrimônio Velho” após a criação do “Patrimônio Novo”, que veio para favorecer a criação do Município, em 1952. O Patrimônio Velho ficava entre os arredores do atual Terminal Rodoviário e a Rua Sete de Setembro.

Os acontecimentos do ano

Já o Patrimônio Novo partia da Rua Sete de Setembro em direção ao Leste, mas nem por isso já alcançava o Cascavel Velho. Só a partir dos anos 1960, com a expansão urbana para várias outras direções, inclusive para o Sudeste, finalmente o Cascavel Velho passou a fazer parte da cidade.

No Brasil, o ano de 1936 foi assinalado pela repressão violenta promovida por Getúlio Vargas aos comunistas, que no ano anterior tentaram conquistar o governo por um golpe militar.  

Foi justamente nesse 1936 que a incipiente comunidade de Cascavel teve seu território atravessado por uma pessoa que seria fundamental para seu desenvolvimento futuro: o farmacêutico Tarquínio Joslin dos Santos, não por caso um dos perseguidos pela repressão anticomunista.

Nascido em Curitiba, em 13 de abril de 1900, Tarquínio ao se casar com Diva Ribeiro se estabeleceu em União da Vitória como farmacêutico. Ganhou muito dinheiro e decidiu investi-lo no Oeste do Paraná, adquirindo uma vasta área de terras nos arredores do arroio M’Boicy, em Foz do Iguaçu, para a qual veio em 1936 acompanhando uma caravana de carroções de desbravadores.

Quando os carroções transportando cerca de vinte famílias que se dirigiam a Foz do Iguaçu chegaram a uma minúscula vila já oficializada como “Aparecida dos Portos de Cascavel”, em novembro daquele 1936, a caravana foi recebida pelo líder da comunidade: José Silvério de Oliveira, o Nhô Jeca. 

O convite recusado

Silvério acolheu a todos com muita gentileza e ao saber que Tarquínio era farmacêutico praticamente exigiu que ele montasse uma farmácia em Cascavel, onde os únicos remédios disponíveis eram os encontrados na mata ao redor da vila.

Tarquínio ponderou a Silvério que não poderia ficar, pois tinha compromissos já assumidos com a comunidade de Foz do Iguaçu. Trazia no carroção dois filhos (Yolanda e Ozíres) e a esposa Diva grávida do terceiro, Blasco Ibañez. 

A menina Yolanda havia sido mordida por um bicho pouco antes de chegar à Encruzilhada e reclamava muito. Os cavalos não aguentavam mais a jornada e o melhor a fazer seria que todos descansassem, aconselhou Tio Jeca.

Disse a Tarquínio que podia confiar nele, pois era uma espécie de “prefeito” do lugar, habituado a resolver problemas, e fez ver aos viajantes que a situação da caravana inspirava cuidados. “Fiquem à vontade”, disse José Silvério a Tarquínio. “Se precisar de mais alguma coisa, é só falar”.

Jeca alojou a grávida na escolinha ainda em construção e Tarquínio jamais esqueceu o carinho com que foi tratado pelos cascavelenses. Cerca de quinze anos depois, no final da década de 1940, sobreveio o inesperado: Tarquínio contraiu malária. Sentia-se extremamente mal e desmaiava a todo instante, acreditando estar prestes a morrer.

O médico o aconselhou a mudar de clima: seria recomendável um lugar mais alto, longe da temperatura quente e rarefeita de Foz do Iguaçu. Cascavel lhe veio imediatamente à cabeça: para ele, o lugar estava destinado a ser o centro futuro da região, devido à sua localização privilegiada, e agora lhe surgia como escolha obrigatória.

Cascavel, símbolo de saúde

Ao chegar, abriu a primeira botica da cidade: a Farmácia Santos, quase na esquina da atual Rua Sete de Setembro com a Avenida Brasil, onde hoje está o Edifício Emília Saraiva. Com a vinda de Tarquínio, o distrito de Cascavel ganhou força na campanha para se tornar Município, obtido em 1951.

O governador Bento Munhoz chamou Tarquínio para concorrer à Prefeitura. Perdeu por um voto, mas por ser amigo de Munhoz conseguiu com ele criar um posto estadual de saúde em Cascavel, a ser dirigido por seu irmão de criação, o enfermeiro Antônio Massaneiro.

Quando se sentiu plenamente recuperado, em 1960, Tarquínio voltou a Foz do Iguaçu, mas os problemas de saúde persistiram e retornou a Cascavel para viver em sua chácara, próxima ao Cascavel Velho, onde montou um moinho que ajudou a área a ser integrada, finalmente, como parte da cidade.

No início da década de 1970, já idoso, Tarquínio decidiu criar gado em Rondônia. Estava próspero e bem-sucedido quando as dores voltaram, ainda mais fortes. Como Cascavel era para ele um símbolo de saúde, voltou para terminar no Oeste os seus dias. Depois de resistir a três infartos, expirou em 3 de março de 1979.

Para homenageá-lo, o Município de Cascavel deu seu nome a um parque ecológico e ainda a uma rua do Jardim Maria Luíza, paralela à Avenida Carlos Gomes. Foz do Iguaçu o lembra com o nome de uma avenida, justamente onde hoje se encontra o complexo universitário iniciado com a Unioeste.

A história completa está contada no livro Cascavel: Uma Santa na Encruzilhada: https://x.gd/U6P3L.

A primeira família: Os dois rios Cascavel

Seguindo a política de estímulo à colonização, no padrão idealizado pelos irmãos Rebouças – como as pessoas acampavam às margens dos rios, também teriam suas moradias e plantações à beira das ferrovias – a lei estadual 1.209, de 19 de abril de 1912, concedeu ao engenheiro Manoel Francisco Corrêa “ou à empresa que o mesmo organizar o privilégio para o uso e gozo da estrada de ferro que construir e que, partindo de Guarapuava atravessando os rios Cascavel, Coutinho, Lageado Grande, Campo Real, se dirija às cabeceiras do Cavernoso, fraldeando daí em diante a serra do mesmo nome, atravessando os rios Xagu e União até chegar ao lugar Catanduvas e daí até foz do Rio Iguaçu”.

Para desfazer mais uma confusão é preciso notar que esse Rio Cascavel mencionado na lei de 1912 não se refere ao Rio Cascavel do futuro Município de Cascavel.

Nessa época, o Rio Cascavel de Cascavel nem mesmo figurava em mapas ou registros históricos. O rio mencionado na lei é o Rio Cascavel de Guarapuava.

A Companhia Ferroviária São Paulo–Rio Grande empreendeu a exploração, medição e locação em terras às margens do Rio Iguaçu a partir de Porto União até Foz do Iguaçu. Foi uma esperança acalentada por diversos anos.

O fracasso da Colônia Militar do Iguaçu deu lugar em junho de 1914 ao Município e Comarca de Foz do Iguaçu, instalado por Luiz Daniel Cleve, morto no cumprimento dessa missão.

O interior do atual Oeste era todo despovoado. Quando Sandálio dos Santos começou a palmilhar a região, na segunda década do século XX, “à noite, quando acampávamos, na viagem de Cascavel a Foz do Iguaçu, ouvíamos urros de animais ferozes”.

 

Mapa aponta a localização do Rio Cascavel (*) de Guarapuava

 

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