
O Oeste do Paraná, uma região de pujança econômica e produtiva com um Produto Interno Bruto próximo dos R$ 100 bilhões, enfrenta desafios significativos no que se refere ao fornecimento e quedas constantes de energia elétrica. As quedas constantes têm se mostrado um gargalo para o desenvolvimento local, impactando diretamente a indústria, o agronegócio e a sociedade como um todo.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) monitora indicadores de qualidade do fornecimento de energia, como o Duração Equivalente da Queda (DEC) e o Frequência Equivalente da Queda (FEC). O DEC mede o tempo que os consumidores ficam sem energia por ano, enquanto o FEC indica a frequência dessas interrupções. No Oeste do Paraná, segundo levantamento apurado com esses órgãos pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), a realidade desses indicadores é preocupante.
Enquanto a meta da Copel para o DEC em 2025 era de oito horas, e a empresa cumpriu uma meta de sete horas, essa é uma média que revela disparidades regionais. Em algumas áreas do Oeste, segundo a Fiep, o DEC é significativamente mais alto, indicando que os consumidores ficam mais tempo sem energia. Da mesma forma, a meta de cinco quedas por ano (FEC) é com frequência superada, especialmente em áreas rurais, onde a frequência de interrupções é considerada maior.
Esse tema foi o foco de um encontro em fevereiro em Cascavel em que reuniu líderes de todo o G7, as sete entidades que representam o setor produtivo do Paraná: Fiep, Faep, Faciap, Ocepar, Fecomércio.
Neste encontro, foi apresentado um mapa da Aneel de 2024 indicando que a situação mais complicada de fornecimento de energia está concentrada nas regiões Oeste e Sudoeste do Paraná, além de algumas áreas de Ponta Grossa e da Região Metropolitana de Curitiba.
Subestações em cidades como Pitanga, Quedas do Iguaçu, Santa Helena e Dois Vizinhos apresentam o DEC acima do limite regulatório, com 44% dos conjuntos na região Oeste.
As deficiências no fornecimento de energia elétrica geram consequências diretas e severas para os setores produtivos do Oeste do Paraná, segundo o presidente da Fiep, Edson Vasconcelos.
O agronegócio, pilar da economia paranaense, é um dos mais afetados. Produtores de peixe, suínos e aves, que dependem de energia constante para a manutenção de suas criações, relatam perdas significativas com as interrupções. A falta de ressarcimento por esses prejuízos agravaria a situação, tornando a atividade ainda mais desafiadora. “A sensibilidade dessas produções à falta de energia é um ponto crítico, e a Copel tem sido cobrada por um serviço que atenda às necessidades específicas desses produtores”, destaca Vasconcelos.
Para a indústria, lembra o presidente da Ocepar José Roberto Ricken, as quedas de energia resultam em paralisações de linhas de produção automatizadas, levando a prejuízos milionários. “Em algumas regiões, empresas relatam desarmes de quatro a cinco vezes por dia, o que impede a continuidade da produção e gera custos adicionais com a retomada das operações”.
A falta de energia disponível também se torna um fator limitante para a atração de novas indústrias de alto valor agregado para a região, comprometendo o crescimento econômico e a geração de empregos, segundo avaliação do presidente da Faep, Ágide Eduardo Meneguette.
Segundo líderes do setor produtivo, diversos fatores contribuem para a situação atual do fornecimento de energia no Oeste do Paraná.
“A infraestrutura energética da região não tem acompanhado o ritmo de crescimento econômico”, afirma Vasconcelos. Isso porque, segundo ele, o planejamento da Copel se baseava em um crescimento do PIB de 2% ao ano, mas o Oeste do Paraná apresenta taxas de crescimento muito superiores, chegando a 7%, 8%, 9%, e até 12% ou 13% em alguns casos. “Essa disparidade resulta em subestações operando acima de sua capacidade, com projeções indicando que muitas delas estarão saturadas em poucos anos se não houver investimentos adequados”.
Cerca de 40% das quedas de energia são atribuídas a problemas com a vegetação, como galhos de árvores que atingem a fiação. A poda e o manejo da vegetação são essenciais, mas esbarram em questões burocráticas e de licenciamento ambiental. A obtenção de licenças para a poda, tanto em áreas da Copel quanto em propriedades rurais, tem sido um desafio, com a necessidade de um "licenciamento guarda-chuva" para agilizar os processos e permitir mutirões de poda.
O setor produtivo também reforça a necessidade de um planejamento de longo prazo e a falta de coordenação entre os diferentes níveis de governo e as entidades envolvidas são apontadas como fatores que contribuem para a persistência dos problemas. “A necessidade de um plano de Brasil para a infraestrutura logística e energética é ressaltada, com foco em um desenvolvimento mais ágil e eficiente”, lembra o superintendente de logística da Fiep, João Arthur Mohr.
Diante dos desafios, diversas iniciativas estão sendo tomadas para buscar soluções e melhorar o fornecimento de energia no Oeste do Paraná.
Um grupo de trabalho, composto por representantes do setor produtivo (G7), da Copel e do governo estadual, foi constituído para discutir e encaminhar soluções. As reuniões regionalizadas, que ocorrem em Curitiba e nas regiões afetadas, têm como objetivo ouvir os gerentes locais da Copel e as comunidades para identificar os problemas específicos de cada área e direcionar os investimentos de forma mais eficaz.
A Copel prevê investimentos significativos nos próximos cinco anos, com a instalação de 50 novas subestações (39 de 138 kV e 11 de 34,5 kV), sendo nove delas destinadas à região Oeste. O desafio é direcionar esses investimentos de forma estratégica, priorizando as áreas mais críticas e garantindo que a capacidade energética acompanhe o crescimento da região.
Uma medida importante é a criação de um cadastro de eletrodependentes, que incluirá produtores rurais e indústrias sensíveis à falta de energia. Quando houver uma interrupção, esses locais terão prioridade no restabelecimento do fornecimento, minimizando os prejuízos.
A Fiep está desenvolvendo um "Observatório de Energia", uma ferramenta semelhante ao Observatório dos Pedágios, que permitirá o acompanhamento da qualidade do serviço e dos investimentos. A ideia é que essa plataforma traga transparência e mobilize a sociedade para pedir o cumprimento das metas e a melhoria contínua do fornecimento.
A tônica das discussões entre o setor produtivo e a Copel é a necessidade de diálogo e colaboração entre a companhia, o setor produtivo e o governo. “A busca por um "pacto" para garantir a robustez da rede elétrica e um planejamento de longo prazo é fundamental para que o Oeste do Paraná possa continuar crescendo e atraindo investimentos”, destaca Vasconcelos. A expectativa é que, com a união de esforços e a implementação de soluções eficazes, a região possa superar os gargalos energéticos e consolidar seu potencial de desenvolvimento em poucos anos.
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