
O sonho da casa ou do investimento em imóvel na planta virou incerteza para compradores no Oeste do Paraná. Em Toledo e Marechal Cândido Rondon, clientes que pagaram valores elevados por unidades prometidas hoje cobram respostas diante de obras paralisadas, canteiros abandonados e uma disputa judicial que envolve contratos, garantias, empréstimos e suspeitas sobre o destino dos recursos.
A Incorporadora Haag & Schug Ltda, administrada pelos sócios fundadores Pedro Haag, engenheiro e arquiteto, e Jonatan Schug, arquiteto, tornou-se alvo de uma série de processos judiciais. O caso também envolve inquérito policial por estelionato, suspeitas de blindagem patrimonial e uma briga aberta entre os próprios sócios sobre a responsabilidade pelo colapso da empresa.
O centro da crise em Toledo está em dois empreendimentos projetados para o Loteamento Biopark 1: Edifício Flat Park e Edifício Studio Park. Documentos judiciais apontam que compradores pagaram valores expressivos, alguns entre R$ 95 mil e R$ 140 mil, chegando perto da quitação integral das unidades. Após sucessivas prorrogações, os canteiros estariam sem trabalhadores, com entulhos e água parada.
A situação se agravou quando compradores descobriram que a incorporadora usou o terreno destinado ao Studio Park como garantia fiduciária para obter empréstimo superior a R$ 1 milhão em uma cooperativa de crédito. O lote teria sido avaliado em R$ 2,3 milhões. A acusação nos autos é de que a gestão captou recursos, esvaziou a garantia real dos clientes e não destinou o dinheiro à obra.
Em Marechal Cândido Rondon, laudo judicial determinado pela Vara Cível revelou irregularidades num prédio de vários andares na Rua 7 de Setembro. O terreno foi avaliado em R$ 1,8 milhão. Sobre ele, a construtora ergueu um prédio com 12 salas comerciais, no térreo e em dois andares superiores, além de apartamentos em construção.
O avaliador informou que o abandono impedia até o acesso aos apartamentos, impossibilitando calcular o valor da edificação. Ao consultar a Prefeitura, o perito constatou que o imóvel não tinha registro nos órgãos públicos, sem fiscalização municipal.
Outro ponto investigado envolve a venda de um lote no Jardim Primavera, em Marechal Cândido Rondon. Segundo a denúncia, Pedro Haag teria comercializado o terreno por R$ 100 mil a uma família de investidores, mãe e filho. A negociação foi intermediada por dois corretores, e as vítimas pagaram R$ 50 mil de entrada.
O terreno, porém, não pertencia a Pedro nem à incorporadora. O proprietário real mantinha apenas uma tratativa preliminar, não concluída, com Pedro para abatimento de dívida antiga. Ele descobriu a situação ao visitar o imóvel e encontrar a família compradora fazendo terraplanagem e descarregando materiais. Em seguida, exigiu a desocupação, deixando os compradores com prejuízo material e financeiro.
Nos processos, o Edifício Rui Barbosa, no centro de Toledo, aparece como alternativa oferecida pela construtora para conter a insatisfação de clientes do Flat Park. Apartamentos avaliados em R$ 480 mil foram propostos como substituição de unidade. A empresa sugeriu usar os valores já pagos como entrada e parcelar o saldo restante. Os compradores rejeitaram a proposta e pediram rescisão contratual, com devolução integral do dinheiro.
O Condomínio Comercial e Residencial Edifício Quatro Pontes, em Quatro Pontes, foi concluído e entregue, mas também chegou à Justiça. Há ações contra a empresa pedindo reparações e indenizações por vícios ocultos nas obras. A crise financeira atingiu o empreendimento: o apartamento 501, com 149,03 m² e avaliado em R$ 530 mil, foi avaliado judicialmente e penhorado para garantir dívidas da incorporadora.
Enquanto a empresa original acumulava processos, credores denunciaram a formação de um grupo econômico de fato para blindagem patrimonial. Os autos apontam que Pedro passou a atuar por novos CNPJs e Sociedades em Conta de Participação, abertas no mesmo endereço comercial da construtora devedora e com o mesmo objetivo social. Segundo as acusações, a estratégia seria esvaziar a empresa original e manter novos empreendimentos captando investidores com nome limpo.
A pressão dos clientes e a falta de caixa levaram ao rompimento entre Pedro e Jonatan. Jonatan ingressou na Justiça com ação para dissolver a sociedade. A reportagem do Preto no Branco ouviu os dois lados. As versões são opostas: Jonatan diz ter sido usado em um esquema que lesou famílias; Pedro nega fraude e afirma que a empresa enfrenta apenas problema de fluxo de caixa.
Jonatan atribui a Pedro a responsabilidade pelo colapso. Afirma que sua atuação se limitava ao canteiro de obras e ao gerenciamento diário dos projetos, enquanto vendas e decisões financeiras e administrativas ficavam sob comando de Pedro e de uma equipe que também atenderia outras empresas do grupo.
Segundo Jonatan, por constar no contrato social, era pressionado a assinar documentos sob a justificativa de que Pedro sabia o que estava fazendo. Quando os atrasos começaram, o problema teria sido tratado como baixa liquidez, e Pedro teria insistido para que ele colocasse recursos próprios na empresa.
O arquiteto afirma que tentou acessar contratos, balancetes e extratos bancários, mas teve os pedidos negados. Diz ter percebido, então, que as demonstrações financeiras não condiziam com a realidade e que imóveis e bens da empresa não estavam mais disponíveis.
Jonatan acusa Pedro de manter em posse pessoal bens recebidos em permutas, como veículos e imóveis, e de usar esses bens para fins particulares em vez de destinar os bens ao caixa das obras. Também afirma que o padrão de vida de Pedro seria incompatível com suas alegações. O arquiteto sustenta ainda que o antigo sócio tentaria responsabilizar Jonatan por desvios por meio de um laudo que ele considera fraudulento, embora diga ter documentação para justificar seus atos.
Nos autos, Jonatan anexou comprovantes de que precisou pedir R$ 30 mil emprestados ao irmão para pagar despesas básicas, como a escola do filho. Ele afirma ter colocado carreira, patrimônio pessoal e herança à disposição da empresa por acreditar nas promessas de Pedro. Sobre o dinheiro, declarou que quer saber onde os recursos foram parar e que por isso acionou a Justiça.
Pedro, apontado em ações judiciais e pelo próprio sócio como controlador do dinheiro e idealizador dos novos CNPJs, nega ato ilícito e intenção de lesar consumidores. Questionado pela reportagem sobre acusações de desvios, abandono de obras e ocultação de patrimônio, declarou que não existe fraude e que a empresa passa por dificuldade de fluxo de caixa.
Ele também nega falta de diálogo. Segundo Pedro, a incorporadora realiza reuniões periódicas, em grupo e individualmente, com transparência. O empresário afirmou ainda que havia agenda marcada com todos os clientes no dia 09/07 para apresentar plano de reestruturação.
Sobre a investigação policial envolvendo a venda do terreno de terceiro e o recebimento de R$ 50 mil de entrada, Pedro declarou que o episódio já foi esclarecido às autoridades, inclusive com apresentação de conversas por WhatsApp sobre a negociação. Ele não detalhou eventual ressarcimento às vítimas.
Embora não tenha explicitado à reportagem acusações contra Jonatan, a defesa apresentada nos processos e a menção de Jonatan a um laudo indicam que a estratégia de Pedro é atribuir ao antigo sócio falhas operacionais e supostos desvios no canteiro de obras, afastando a culpa exclusiva da gestão administrativa.
Com versões conflitantes, clientes sem imóveis e empreendimentos parados, o caso segue sob análise da Justiça. De um lado, Jonatan afirma ter sido usado em um esquema de desvios. De outro, Pedro sustenta que a empresa enfrenta crise temporária de caixa. No meio da disputa, famílias continuam diante de estruturas abandonadas, sem saber se receberão as chaves dos imóveis ou o dinheiro de volta.
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