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A receita de ganhar muito sem trabalhar

A fórmula era difícil de ser recusada: a mesma empresa vende a terra, planta nela, colhe, comercializa a produção no mercado e passa 70% dos lucros ao comprador 

28/06/2026 às 09h18
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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Na Avenida Brasil ainda deserta dos anos 1950, a Agrinco preparou milhares de mudas de oliveiras 
Na Avenida Brasil ainda deserta dos anos 1950, a Agrinco preparou milhares de mudas de oliveiras 

Os ganhos com a olivicultura começaram a aparecer nos gráficos de produção do Paraná apenas no terceiro milênio. Tudo o que veio antes da década de 2010 foi apagado pelo tempo e por muita vergonha: o sentimento de ruína de quem apostou tudo numa fórmula mágica pela qual o comprador de terras em regiões desprovidas de infraestrutura teria lucros altíssimos sem trabalhar arduamente com plantio e colheita.

Quem se prejudicou nessa arapuca evitou contar a escondida história que começa em 1951, no Rio de Janeiro, com a ampla divulgação do azeite de oliveira como produto natural quase milagroso, superior às gorduras de origem animal.

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Para Ernesto Baglini, diretor do Instituto de Fisiologia Humana da Universidade de Roma, a transformação do azeite em gordura especificamente humana se processa com muito mais facilidade e economia do que a de outras substâncias graxas.

Mas a oliveira não vem fácil: só começa a produzir depois do terceiro ano, e produzirá o máximo de frutos apenas após o quinto ano. Com interesse na cultura, o governo do Paraná lançou uma concorrência pública para projetos de expansão dessa cultura, vencido pela empresa Agrinco, empresa voltada à colonização e produção agrícola.

Muito dinheiro sem trabalhar

Depois de preparar “em menos de um ano, dois parques com cerca de 16 milhões de m² e a venda de 1.623 sítios”, o presidente da Agrinco, Luiz Jacintho Vergne de Abreu, anunciava em 15 de novembro de 1952 o lançamento de uma “nova e exclusiva modalidade de economia agrícola”, que seria um loteamento agrícola com pequenas células se unindo para formar um todo.

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Prometia fazer o investidor urbano ser um fazendeiro sem precisar sair da cidade nem se preocupar: “Plantação garantida no contrato. Conservação, colheita e venda das safras sem trabalho algum”.

Seria, assim, a criação de um projeto fantástico de aproveitamento de terras ociosas que atestava como produtivas para determinadas culturas pelo desenvolvimento da agronomia. A confiança no projeto vinha das vendas da empresa no Rio de Janeiro: 10 milhões de m² em Magé (RJ) para plantações de bananeiras e outros 4 milhões na Via Dutra, em São Paulo, para parreiras, laranjais e cafeeiros.

Ela vinha a calhar para o que o governo do Paraná pretendia para seu Oeste, cuja ocupação foi prejudicada por pendengas com a União até 1945. A Agrinco mandou um diretor, o engenheiro agrônomo Raymundo Pimentel Gomes, para avaliar as terras paranaenses e ele voltou deslumbrado:

“Terra roxa apurada com cinco e mais metros de profundidade. Imensa riqueza florestal. Na bacia do Piquiri, técnicos da ONU encontraram os solos mais férteis do mundo. Têm vinte metros de profundidade. Em segundo lugar conforme os mesmos técnicos, vêm as afamadas terras negras da Ucrânia.

“Em solos tão bons, as lavouras desenvolveram-se de modo surpreendente. Colhem-se safras recordes de batatinha, milho e feijão. Mil cafeeiros produzem 150 a 180 arrobas de grão beneficiado. Um verdadeiro absurdo”.

O “Plano de Agricultura Incorporada”

O contrato firmado pelo Estado com a Agrinco previa o plantio de um milhão de oliveiras em Guaraniaçu, em terras que a Fundação Paranaense de Colonização e Imigração, com base na presença na área de árvores como palmito, jaborandi rajado, peroba e cedro, atestou como altamente produtivas.

A área prevista para o plantio ficava abaixo do Rio Piquiri, entre os rios Bandeira (Jacaré) e Tourinho, que seria dividida em pequenos lotes oferecidos aos colonos com grandes facilidades de pagamento.

O deputado Napoleão Fontenele, sócio da Agrinco, veio conhecer a região esperando encontrar índios e caboclos e se surpreendeu ao ver nas ruas de Cascavel crianças louras, filhos de colonos poloneses e alemães.

As famílias de origem europeia que vieram a Cascavel para evitar perseguições na área de fronteira na II Guerra Mundial, já ganhavam dinheiro com madeira, suinocultura e comércio e sabiam que guardar os ganhos debaixo do colchão era certeza de desvalorização.

Quando a Agrinco passou a anunciar que seu projeto com oliveiras no Parque Munhoz da Rocha, em Guaraniaçu, era garantia “contra a desvalorização da moeda”, de “incremento do capital” e “das rendas atualizadas”, acrescentou iscas poderosas para quem tinha dinheiro guardado: “a terra é sua, o lucro é seu e o trabalho é nosso”.

“Tudo isso você tem ao seu alcance sem desviar a atenção de suas atividades normais conhecendo o programa de desenvolvimento e fomento agrícola incrementado pelo Plano de Agricultura Incorporada e Colonização da Agrinco”.

Riquezas incessantes por 10 anos

Segundo o projeto, após a compra do terreno a Agrinco de imediato já iniciava o plantio das oliveiras. A empresa se encarregava de tudo: preparo do solo, plantação, tratos culturais, combate às praças e doenças, assistência técnica e colheita, “de acordo com os processos agronômicos mais modernos, para o que dispõe de corpo de técnicos, material e máquinas indispensáveis”.

Era quase todo o trabalho, mas os atrativos eram ainda maiores: os compradores continuariam a ficar de braços cruzados por dez anos, durante os quais receberiam “sem trabalho algum” 70% da renda obtida, período após o qual também poderiam manter o contrato com a Agrinco. De resto, a Agrinco até faria as vendas, monitorando os melhores preços.

Para encher os olhos dos investidores, anunciava que “uma oliveira produz, no Paraná, em média, mais de cem quilos de azeitonas e há casos de quatrocentos quilos”.

Entre as oliveiras, a Agrinco prometia plantar café, a cultura mais sedutora da época, ampliando os ganhos do proprietário, que também teria em paralelo a produção de mudas para venda a outros colonos com um ano de garantia de apoio e acompanhamento.

Avenida Brasil, canteiro de oliveiras

O ministro da Agricultura, João Cleofas, prometia apoiar o sistema criado pela Agrinco se ela desse os resultados esperados, considerando que até 1960, a expectativa era abastecer o mercado interno com óleo de oliva e azeitonas nacionais. Por sua vez, o Estado promoveria a instalação de fábricas de azeite e azeitonas em conserva próximas aos olivais, o que tornaria o Paraná “o pioneiro da olivicultura econômica no país”.

 No plano nacional, encantado com o projeto, o poeta fluminense Augusto Frederico Schmidt (1906–1965) disse que o novo sistema de loteamento agrícola da Agrinco “permitirá ao homem da cidade participar de um largo plano de fomento da produção, visando principalmente ao incremento do plantio em torno dos grandes centros consumidores”.

Embora o lançamento do projeto no Paraná estivesse marcado para março de 1954, as vendas de lotes no Parque Agrinco Munhoz da Rocha começaram em fins de 1953, com esse detalhe informado ao público pela imprensa: “Os enxertos estão sendo preparados num terreno baldio da Avenida Brasil, em Cascavel”, com a promessa de produzir 5 milhões de mudas e enxertos.

Esse dado esclarece o entusiasmo com que toda a população de Cascavel na época se deixou envolver pelo interesse na produção de oliveiras. A confiança no projeto era tão grande que a população criou um banco para gerir tanta riqueza prevista: o Banquiri.

Só ganhos e nenhuma inflação

Em janeiro de 1954, publicação da Agrinco qualifica seu projeto de “o mais sólido e rendoso negócio da atualidade”, com o parque dividido em sítios de no mínimo 5 mil metros quadrados, com plantação alternada de cafeeiros (600 pés) e oliveiras (50 pés), com a opção de plantar somente oliveiras e a certeza de que no Vale do Piquiri “se anda sobre o dinheiro”.

“A compra de um desses sítios com plantação à sua escolha assegura-lhe uma renda crescente  ua economia, além de lhe garantir um sólido patrimônio cujo valor sobe de ano para ano e põe você a coberto dos efeitos da inflação”.

Com “exaustivos estudos” já feitos, a Agrinco afirmava que em um hectare, 100 oliveiras produziam 5.000 quilos de azeitonas, recomendando as variedades Manzanilha, Arauco e Arbequina, das quais só a terceira de fato se afirmou em alguns locais.

Quem não entraria em um negócio tão promissor? No entanto, a propaganda e as intenções não bastaram. A cultura esbarrou na falta de cultivares de fato adaptadas e pela falta de zoneamento agroclimático adequado.

O projeto quebrou por maus resultados no final da década de 1950. Aqueles que apostaram, perderam, sentiram vergonha pelo erro e o esconderam dos netos. Depois deram a volta por cima com ótimos acertos e viraram nomes de ruas.  

A primeira família: Só índios na Encruzilhada 

Vieram Ernesto, a esposa Laurentina, dois filhos ainda de colo – Joaquim e Maria Francisca –, um irmão de Ernesto, acompanhado pela esposa, e “dois camaradas contratados para ajudar nos serviços”, um deles João Maria Diogo, irmão de Antônio José Elias, exatamente no dia de seu 19º aniversário.

Mesmo penosa, a marcha da carroça carregada teve a facilidade da estrada em melhores condições, com trânsito antes somente possível aos cargueiros. Até 1920, nem as carroças conseguiam passar por conta das más condições da antiga Estrada Estratégica.

A primeira lembrança que Laurentina gravou da passagem pela Encruzilhada, ao chegar, em 8 de setembro de 1922, é que lá havia “acampamentos de índios paraguaios”. Eram mensus transportando erva-mate para o Rio Paraná.

Considera-se que o chamado ciclo regional do mate durou até o período entre as revoluções de 1924/5 e de 1930, mas quando a primeira família chegou para se fixar no antigo pouso ervateiro o foco permanecia ainda todo na coleta, transporte e exportação dessa matéria-prima.

 

João Maria Diogo, importante personagem histórico do Oeste paranaense

 

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