
Quase dois anos após a queda do voo 2283 da Voepass, a Polícia Federal concluiu o inquérito sobre o acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP). Ao todo, 16 pessoas foram indiciadas, entre elas o proprietário da companhia, José Luiz Felício Filho, comandantes, mecânicos, inspetores e gestores da área de manutenção.
A aeronave decolou de Cascavel na tarde de 9 de agosto de 2024 com destino ao Aeroporto de Guarulhos. Para a Polícia Federal, o acidente foi provocado por uma sucessão de fatores que culminaram na perda de sustentação da aeronave e na queda.
A investigação aponta que os primeiros sinais de anormalidade surgiram cerca de 16 minutos após a decolagem, quando o sistema registrou alerta de formação de gelo.
Logo depois, foi detectada uma falha no sistema de degelo da estrutura da aeronave. O problema permaneceu durante praticamente todo o voo e foi identificado pela própria tripulação nas conversas gravadas pelo equipamento de voz da cabine.
Segundo a perícia, a região apresentava condições favoráveis à formação severa de gelo, situação prevista em avisos meteorológicos emitidos antes da decolagem.
Quando a aeronave voltou a enfrentar uma área com intenso acúmulo de gelo, a tripulação tentou novamente acionar o sistema de proteção.
A gravação da cabine registra o momento em que o copiloto sugere ligar o equipamento e o comandante responde que o sistema não estava funcionando.
Nos minutos seguintes, o avião começou a perder desempenho. Os equipamentos passaram a emitir alertas de velocidade abaixo do recomendado e de degradação da performance.
Às 12h21 foi registrado o primeiro alerta de estol, condição em que a aeronave perde sustentação. O piloto automático foi desligado automaticamente e os avisos permaneceram ativos por cerca de 48 segundos.
Pouco depois, a aeronave entrou em um movimento de rotação que evoluiu para um parafuso. Conforme a Polícia Federal, não houve ruptura estrutural durante o voo. O ATR permaneceu íntegro, mas já não tinha condições de recuperar a estabilidade antes de atingir o solo.
Além da atuação da tripulação, a Polícia Federal investigou os procedimentos de manutenção adotados pela companhia.
Os peritos analisaram registros técnicos, dados dos gravadores de voo, computadores de bordo, documentação operacional e boletins meteorológicos. Também verificaram que a aeronave operava com itens liberados pela Lista de Equipamentos Mínimos (MEL), entre eles os limpadores de para-brisa, cuja inoperância impunha restrições para voos com previsão de precipitação.
Ao final do inquérito, a Polícia Federal concluiu que a tragédia foi resultado de uma combinação de fatores operacionais, meteorológicos e de manutenção.
Dos 16 indiciados, a maioria responderá por atentado contra a segurança do transporte aéreo com resultado morte. O comandante Edson Serra Martins também foi indiciado por falsidade ideológica, por suposta omissão de informações em registros técnicos da aeronave.
