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O eterno mistério das bombas no Incra

O que mais atemoriza o público são tiroteios sem esclarecimento sobre autores e motivos, mas bombas inexplicáveis também causam medo

Alceu Sperança
Por: Alceu Sperança
20/09/2026 às 09h08
O eterno mistério das bombas no Incra
Sede do Incra em Cascavel: sempre aberta aos visitantes

A polícia sempre inicia de imediato investigações sobre autores, vítimas e motivações quando ocorre um tiroteio, mas em muitos casos os envolvidos silenciam. Evitam assim chamar a atenção para outros crimes ainda não esclarecidos, nos quais sua identificação possa levar a consequências posteriores, como prisões e condenações.

A falta de esclarecimento sobre as causas dos tiroteios dissemina o medo de que qualquer pessoa possa ser a próxima vítima. Na insegurança, mais pessoas compram armas e em casos de sustos ou brigas as acionam, causando mais tiroteios. 

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Quando a falta de explicações ocorre em torno de explosões de bombas o temor pode escalar as alturas, situação de pânico que se deu por volta das 6h da manhã de 19 de setembro de 2006, quando dois coquetéis molotov foram atirados contra a sede regional do Incra em Cascavel e colocaram em risco sua mapoteca e 120 mil documentos armazenados em arquivos.

As duas bombas de fabricação caseira foram lançadas contra a porta das instalações da Unidade Avançada do Incra, que ocupam desde 1971 uma espaçosa casa de madeira em um terreno de 11.880 m², no bairro Neva. 

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Durante o dia ali trabalhavam 27 funcionários, mas o expediente daquela manhã ainda não havia começado. A intenção dos criminosos de destruir a casa e a documentação se frustrou pela pronta ação de um guardião, que ao perceber o fogo deu o primeiro combate.

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Chamado de imediato, o Corpo de Bombeiros constatou a evidência de bombas e notificou a Polícia Federal, que coletou o material para as investigações. O chefe da Unidade Avançada do Incra na região, Hélio Dalmagro, informou que o fogo chegou a atingir uma das salas, mas não danificou os papéis.

“Aqui guardamos um acervo de documentos e registros de terras de todo oeste e noroeste do Paraná”, disse ele. “Se o fogo chegasse a esse acervo, perderíamos toda a história agrária dessas regiões”. 

O temor de 2006 parou aí, mas fez lembrar que o mesmo local foi notícia um ano antes, em 28 de setembro de 2005, quando cerca de 400 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) ocuparam o local.

Não houve repressão nem violências e os manifestantes concordaram em desocupar o Incra em troca de promessas feitas em Brasília pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, dentre as quais o assentamento de 100 mil famílias no prazo de um ano, 3 mil das quais ainda em 2005 no Paraná.

Suspeitas desfeitas

O sucesso da ação foi histórico. Nas negociações foi acertada a liberação de R$ 200 milhões para a aquisição de terras para fins da reforma agrária e de outros R$ 100 milhões para investimento, custeio e assistência técnica aos pequenos agricultores, além da atualização dos índices de produtividade.

O próprio Incra foi beneficiado, com a promessa de sua reestruturação e a contratação imediata de 1,3 mil novos servidores. O fogo anônimo um ano depois teria algo a ver com o MST? Houve a suspeita, mas nenhuma evidência concreta ou admissão por parte do Movimento, pois havia acordos em desenvolvimento.

Sem manifesto nem declaração de autoria, as investigações esbarram em nada além de um laudo final de poucos estragos, que no máximo deixava evidente a fragilidade da sede do Incra diante de possíveis ocupações e atentados. 

Isso, entretanto, não rendeu melhorias na vigilância da área, mesmo considerando que os trabalhadores sem terra estavam divididos em pelo menos dois movimentos que se acusavam de omissões ou paralisia nas atividades. Uma nova ocupação para fins midiáticos, nesse caso, não podia ser descartada. 

De fato, na manhã do dia 10 de setembro de 2007, um grupo de 150 trabalhadores rurais invadiu o Incra para chamar a atenção da imprensa à sua pauta de reivindicações, que além da rapidez no processo agrário reclamava a distribuição de cestas básicas para os colonos.

Acordo fácil

A ocupação começou por volta das 7h30, com o bloqueio dos portões de acesso e permissão apenas à chefe Fiorinda Martins Pezzatto e dois funcionários como negociadores. “O nosso protesto é contra a demora do Incra em assentar as famílias acampadas há mais de cinco anos na região”, argumentou Silvana Silva em nome do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), dissidência do MST.

Foi uma ocupação rápida, encerrada no fim da tarde, depois de uma reunião entre representantes do movimento e o superintendente estadual do Incra, Celso Lisboa de Lacerda, em Curitiba. Ele prometeu acelerar a reforma agrária no Estado – dentre outras coisas agilizar a aquisição da fazenda Bom Sucesso, em Cascavel.

Depois dessa manifestação, a abandeira da Reforma Agrária não rendeu mais grandes agitações midiáticas. Tanto que em 2021 foi extinta a sede do Incra em Francisco Beltrão e todo seu acervo e atribuições foram transferidos para Cascavel, que teve ampliado de 47 para 88 o número de municípios atendidos. 

A primeira família: O difícil recomeço 

Tudo era difícil no acampamento. “Não podíamos acender o fogo com medo de incendiar a capoeira ou sermos notados pelos jagunços”, relatou Laurentina. “Os alimentos e a água eram racionados e quando podíamos tomar banho era daqueles tipo canequinha. Mas acabou a revolução.

Os revoltosos não conseguiram tomar Guarapuava e tiveram que fugir. Voltamos para nossos ranchos e recomeçamos tudo outra vez”.

Enquanto a família se escondia no mato, os mantimentos estocados nos ranchos foram levados pelos soldados governistas. A família Elias-Schiels, portanto, perdeu para os dois lados da revolução, sem saber que perderia ainda muito mais na próxima revolução, no final de 1930.

Quando a Revolução Paulista de 1924/25 acabou, Laurentina estava grávida de uma menina, que viria a ter o nome em homenagem à avó Balbina Ferreira de Oliveira, mãe de Ernesto. 

A avó era especialmente querida pela família, por ter criado Constantina, esposa de Antônio José Elias, e ser a mãe dos demais filhos de Ernesto Schiels, que perdeu a primeira esposa ainda muito jovem.

 

O restaurante Ernesto’s herança da família Schiels, a primeira que se estabeleceu em Cascavel

 

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Jornalista, escritor e historiador.
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