

O Setembro Verde reforça, ao longo deste mês, a importância da doação de órgãos e do diálogo entre familiares. No Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP), a atuação inclui a identificação de possíveis doadores, o acompanhamento dos protocolos e o acolhimento das famílias.
O hospital não realiza transplantes de órgãos, mas participa da rede responsável pela captação. O trabalho é conduzido pela Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT).
Segundo a coordenadora da CIHDOTT, Gelena Castillo, conversar sobre o assunto antes de uma situação de perda pode ajudar a família a conhecer e respeitar a vontade do potencial doador.
“Quem deseja ser doador deve conversar com sua família. Em um momento de dor e despedida, saber qual era a vontade daquele familiar pode trazer mais segurança para a decisão”, afirma.
A autorização familiar é fundamental para que a doação seja efetivada. Em 2024, a recusa familiar ocorreu em 46% das entrevistas realizadas em nível nacional, segundo os dados apresentados pela entrevistada.
Entre as dúvidas que ainda envolvem o tema está a diferença entre coma e morte encefálica. No coma, pode existir atividade cerebral e possibilidade de evolução clínica. Já a morte encefálica representa a morte da pessoa e é diagnosticada por meio de critérios e protocolos específicos.
Outra dúvida está relacionada à definição de quem receberá os órgãos. Essa escolha não é feita pela família, mas pelo Sistema Nacional de Transplantes, com base em critérios técnicos, como compatibilidade, gravidade e tempo de espera.
A retirada dos órgãos também é realizada por equipes especializadas e não impede a realização dos rituais de despedida.
A CIHDOTT atua no HUOP desde 2004. Entre as atribuições estão a busca ativa de possíveis doadores, a identificação de pacientes com suspeita de morte encefálica, o acompanhamento dos protocolos e a manutenção clínica do potencial doador.
A equipe também realiza o acolhimento e a entrevista com os familiares. Quando há autorização para a doação, o hospital articula a captação com a Central Estadual de Transplantes.
Os números mostram a participação do HUOP nesse processo. Em 2024, foram notificados 70 casos de morte encefálica e realizadas 30 captações, com 99 órgãos e tecidos captados. A taxa de autorização familiar chegou a 83%.
Em 2025, foram registradas 77 mortes encefálicas, 57 entrevistas familiares e 36 doações, com autorização familiar de aproximadamente 77%. Em 2026, os dados parciais apontam 42 mortes encefálicas, 35 entrevistas familiares e 26 doações.
Entre as histórias relacionadas ao tema está a de Karen Kruger, de 40 anos. Ela convivia havia cerca de três anos com uma doença renal quando o quadro se agravou e foi necessário iniciar uma hemodiálise de emergência.
A rotina de Karen mudou. Com dois empregos, passou a dedicar cerca de quatro horas, duas vezes por semana, ao tratamento.
“Eu era uma pessoa bem ativa, tinha dois trabalhos, e ter que parar quatro horas, duas vezes na semana, para fazer hemodiálise foi bem difícil”, conta.
Karen permaneceu um ano na fila de espera por um transplante. A possibilidade surgiu por meio de uma doação em vida feita pela mãe, que era compatível.
Após a cirurgia, ela precisou adotar uma série de cuidados, como restrições alimentares, uso de máscara, redução do contato com outras pessoas e atenção para evitar exposições. Com a recuperação, voltou gradualmente à rotina.
“Hoje estou voltando ao normal, trabalhando, fazendo atividade física e cuidando dos meus filhos. Não me sinto mais cansada como me sentia antes”, afirma.
Para Karen, o transplante representou uma nova oportunidade. “Significa vida nova. Uma nova chance de fazer mais pela minha família e pelo próximo. Não se importar com os problemas pequenos e agradecer mais”, diz.
A experiência também reforçou sua percepção sobre a importância da doação. Mesmo tendo recebido um rim de uma doadora viva, ela defende que as famílias conversem previamente sobre a possibilidade de doar órgãos após a morte.
“Entendo que é difícil para uma família, mas é uma forma de transformar uma perda em esperança e recomeço para outras famílias. É uma pessoa que pode voltar a enxergar, outra que pode não precisar mais fazer hemodiálise. A vida precisa continuar”, afirma.
Até novembro de 2025, o Paraná havia realizado 1.715 transplantes, incluindo 410 de rim, 264 de fígado e 29 de coração. O número também inclui transplantes combinados e aproximadamente mil transplantes de córnea.
Embora não seja um centro transplantador, o HUOP integra a estrutura que participa do processo de doação e captação. A atuação envolve profissionais de diferentes áreas, protocolos e a autorização das famílias.
A campanha Setembro Verde busca justamente estimular essa conversa antes que uma situação de perda aconteça. Para quem deseja ser doador, comunicar essa vontade aos familiares é uma das principais formas de deixar clara a decisão.
O dia 27 de setembro é a data escolhida para fomentar a conscientização sobre a doação de órgãos. Em 2026, a data também será marcada no HUOP pela realização da Corrida pela Vida.
As inscrições estão abertas pelo site www.rodrigocirilo.com.br.
