
Quando o arquiteto Gustavo Gama Monteiro veio para o Oeste, enviado pelo presidente da Fundação Paranaense de Colonização e Imigração, Djalma Rocha Al-Chueyr, em 1952, sua missão era executar o Projeto de Urbanização Munhoz da Rocha. Dele brotaria uma nova cidade, planejada para ser uma espécie de “capital” da região, deixando para trás Foz do Iguaçu e Cascavel.
Encarregada desde 1947 de intensificar a ocupação das terras devolutas depois do fracassado Território do Iguaçu, a Fundação de Colonização projetou, na entrada do Oeste, a “Colônia A”. Com uma área de 6.080,3 hectares, terras fertilíssimas banhadas pelos rios Tourinho, Melissa e Piquiri, ali seria construída uma grande cidade denominada “Munhoz da Rocha”.
Principal joia do Paraná na época, ambicioso plano de colonização dirigido pelo poder público, nada podia dar errado. Monteiro já dispunha de um levantamento da área na escala de 1:20.000 com o apoio aerofotogramétrico, mas para tirar do papel a cidade planejada e para estudar a área diretamente, veio morar em Cascavel, então distrito de Foz do Iguaçu.
A nova cidade, localizada a 35 km a Nordeste de Cascavel, seria o polo regional do Oeste, anulando as vantagens geográficas da antiga Encruzilhada, destruindo assim as chances de Cascavel se tornar uma futura metrópole.
As obras da Cidade Munhoz da Rocha começaram em 12 de junho de 1954. Enquanto Monteiro trabalhava nesse projeto hospedado em Cascavel, os cascavelenses, com gentileza, seduziram o arquiteto.
Contratado pela Prefeitura e conquistado pelos padres, o que vai passar dele à história será o fracasso da cidade planejada de Munhoz da Rocha e a arquitetura que salta aos olhos nas duas mais expressivas imagens de Cascavel: a Catedral e a Avenida Brasil.
Nos dois casos, entretanto, Monteiro não foi o autor dos projetos originais. A Avenida Brasil resultou do desenvolvimento da Encruzilhada dos Gomes, desde fins do século XIX. A Catedral, embora sempre anunciada como seu projeto, começou antes dele, que entrou com o bonde andando.
Importa que ao adequar a ideia original da igreja às normas técnicas e promover a correção dos problemas que poderiam inviabilizar a obra, Monteiro permitiu que ela se completasse.
A história da Catedral começa em 10 de outubro de 1952, quando o padre Luiz Luíse rezou a primeira missa no local. Foi construída uma igreja provisória de madeira e em seguida um templo arrojado, projeto do famoso arquiteto Bartolomeo Giavina-Bianchi.
Depois de Luíse, o padre Guilherme Maria Heyer vai assumir a Paróquia de Nossa Senhora Aparecida até 1959. Seus sucessores – padres Carlos Nitzko, Luiz Bumppe, José Arz, Santo Pelizzer (1963), Angelo Casagrande (1964) e Palmino Finatto (1965) – foram pressionados pela explosão populacional de Cascavel até sentir que sua bela e original igreja foi atropelada pelo crescimento da cidade.
O desenho inicial da Catedral partiu do padre Pietro Giraudo. Ele veio para Cascavel em outubro de 1965 e permaneceu até setembro de 1968. A pedra fundamental foi plantada no início de 1966 e as obras logo iniciadas pelo construtor Pedro Bruning e sua equipe.
“Houve muita dificuldade inicial para encontrar alguém que se responsabilizasse pela estrutura da parte superior da igreja, porque o vão era grande demais (...) Depois de muito lutar e atrasar a construção da igreja, um arquiteto de Curitiba, Gustavo Gama Monteiro, resolveu o problema” (Amadeus Boscardin).
Em sua versão dos fatos, Gustavo Monteiro conta que o projeto do padre Giraudo “foi muito discutido por ser ousado, tendo que vencer 64 por 84 metros com uma laje plissada”. “A parte lateral foi toda feita em poliéster, um vitral feito pelo padre [Giraudo] e pelo arquiteto [o próprio Monteiro]”.
Segundo Rubens Nascimento (Histórias Venenosas), Monteiro “aproveitou as fundações já existentes de uma construção projetada em Maringá e a adaptou para um projeto novo, com a forma do manto e da cabeça de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira da cidade”.
“A igreja com 60 metros por 80 metros de vão livre coberta por uma laje de concreto plissada mostrava algo ainda mais inusitado – a parede do púlpito”, prossegue Nascimento. “Essa parede foi revestida com três quilos e meio de ouro incorporados a sua cerâmica, resultado de belo trabalho artesanal. E, com a ajuda dos padres da igreja, o arquiteto Gama construiu mais as paredes laterais utilizando ‘cobogó’* de concreto e poliéster colorido formando um ‘vitraux’ original.”
Gustavo Gama Monteiro, portanto, corrigiu os erros e gargalos do projeto original. A inauguração da Catedral se deu em 6 de outubro de 1974, ao fim de oito anos de obras.
*Cobogó: o nome vem das iniciais dos sobrenomes de seus criadores – Coimbra, Boeckmann e Góis
O carroção de quatro rodas, puxadas por parelhas de animais, seus “motores”, transportava cargas maiores, mais bem distribuídas e arranjadas que as suportadas pelas mulas individualmente.
Mesmo assim um carroção levava aproximadamente um mês de viagem entre Guarapuava a Foz do Iguaçu.
As antigas obrages já não ditavam as regras na região e empresas nacionais começavam a aparecer em Foz do Iguaçu, Santa Helena e Guaíra.
Restabelecida a ordem legal, começou a desenvolver-se mais acentuadamente a penetração nacional suspensa temporariamente e um mercado consumidor maior se estabelecia na fronteira.
A propriedade do Rio Cascavel se estendia pelas duas margens. De um lado, os irmãos Antônio Diogo, João Maria Elias Diogo e Francisco Elias. Do outro, Ernesto Schiels, Laurentina e filhos.
Suas lavouras, pomares e criações abasteciam as famílias pioneiras do Cascavel Velho e os aventureiros que já começavam a se espalhar pelo interior em busca de posses.
As carroças lá se abasteciam para partir com as mercadorias excedentes rumo ao Rio Paraná.