
Acompanhar caixões ao cemitério e participar de celebrações religiosas a céu aberto é uma prática milenar que a partir das facilidades para a aquisição de automóveis foi transformada em carreata. Ela poderia ser fúnebre, eleitoral ou festiva e mobilizava quase toda a população urbana
Em festas, como a da família Busato, em maio de 1997, para celebrar a emigração da Itália ao Brasil, ou nos difíceis anos 1970, durante a ditadura, na luta para obter cursos universitários, as carreatas mais frequentes eram manifestações contra os sucessivos aumentos de preços dos combustíveis.
Na época da inflação galopante, consequência dos chamados “anos de chumbo”, variando de 215% a 235% até 1985, os motoristas indignados dirigiam seus veículos até a frente dos postos de gasolina para protestar, buzinando e gastando os combustíveis pelos quais pretendiam pagar menos.
Em geral, fossem carreatas, cavalatas ou carroçatas, esses movimentos raramente passavam à história e nem sempre buscavam resultados imediatos. Diferente, em 1997, foi uma bicicleata para chamar a atenção do prefeito Salazar Barreiros.
Tinha a intenção de reforçar a luta dos ciclistas pela construção de ciclovias e, ao contrário de inúmeras manifestações anteriores desprezadas pelo poder no período 1964–1985, a Prefeitura de Cascavel inseriu de imediato e para sempre em seu planejamento as ciclovias que se eternizaram na paisagem urbana local.
Embora apoiassem algumas manifestações, os advogados jamais promoviam passeatas. Suas demandas eram apresentadas diretamente às autoridades e logo respondidas. Houve, porém, um episódio que virou lenda entre os advogados.
Silvanira Fagundes, de Catanduvas, em demanda contra o marido para obter a guarda de uma filha, recorreu sem sucesso a 13 defensores e ficou muito revoltada com o que considerava uma injustiça contra ela.
Na época, em ruidoso episódio, o advogado Cézar Lazzarotto foi agredido por agentes da Polícia Civil nos antigos corredores da 15ª. SDP, atual Centro Cultural, e a classe advocatícia fez uma inédita passeata para protestar.
Silvanira gostou da ideia e foi à imprensa. Convocou uma passeata contra os advogados que não conseguiam fazê-la obter a guarda pretendida.
Os advogados entenderam o episódio como um desabafo da sofrida Silvanira e não uma denúncia por infração ao Código de Ética da classe.
Muito antes, porém, havia as cavalatas. A primeira que se tem registro se deu com um tio do pioneiro cascavelense Antônio José Elias. O homem sobreviveu ao ataque de uma onça feroz e, como era dia da caça, perdeu um olho. Logo depois, pelo trauma do acidente, foi declarado “louco” e o médico recomendou levá-lo a um hospício em Curitiba.
O paciente se recusou e foi preciso formar uma cavalata para conduzi-lo. No meio do caminho havia uma festa de casamento e o suposto louco, amarrado ao cavalo, viu um irmão dançar e tocar gaita no fandango comemorativo, mas só foi solto no hospício, em Curitiba.
O empreiteiro José Neves Formighieri, que em meio às tarefas particulares de agropecuarista abria estradas para o governo, chegou a Cascavel no início da década de 1950 à frente de um grupo de cavaleiros, impressionando a vila então de poucos moradores da qual ele viria a ser o primeiro prefeito. A partir daí, não era raro que grupos de cavaleiros levantassem nuvens de poeira levando faixas, bandeiras e cartazes para festejar ou protestar.
Uma concorrida cavalata em tempos modernos foi promovida em 2008, pelo Sindicato Rural de Cascavel, em protesto contra o então governador Roberto Requião. O caldeirão fervia com os impasses judiciais envolvendo a desapropriação de áreas de transgenia (Caso Syngenta), motivando os ruralistas a se mobilizar em cavalata que chamou as atenções gerais da mídia.
Depois das cavalatas, naturalmente, vieram, as carroçatas. Em 1972, entretanto, elas já haviam sido superadas pelas carreatas. Mesmo assim, o comerciante Pedro Muffato, um dos ícones do automobilismo brasileiro, foi eleito para a Prefeitura de Cascavel nesse ano e não quis comemorar a vitória oculto dentro de um carro.
Para aparecer na TV, requereu uma carroça e assim, à frente do cortejo de carros, Muffato percorreu o centro de Cascavel acenando aos cidadãos que o aplaudiam.
Já entre os anos 1975 e 1995, décadas em que os protestos dos agricultores foram intensos, dezenas de tratoratas foram convocadas em luta contra a asfixia econômica dos agricultores. Provas históricas de que foram tempos difíceis.
Em 1928, quando o professor Aníbal Lopes da Silva, irmão de Laurentina, foi lecionar em Rocinha, distrito de Laranjeiras do Sul, o acordo de arrendamento feito por Antônio José Elias e Jeca Silvério em 1923 foi formalizado em documento porque a família do arrendatário abriu junto à
Encruzilhada uma bodega, espécie de bar e armazém da época.
A família Silvério e agregados já tocavam a criação combinada com plantação no sistema safrista quando o aumento da circulação e viajantes e colonos pela Encruzilhada dos Gomes sugeriu a oportunidade de abrir um estabelecimento comercial.
Personalidade da mais alta importância na história de Cascavel, Otávio Silvério de Siqueira chegou nesse mesmo ano de 1928 trazendo a esposa Cândida Alves Siqueira e o filho de um ano, Antônio Silvério de Siqueira.
O casal construiu um rancho no espaço que hoje seria a Avenida Brasil, esquina com Pio XII, em plena Encruzilhada dos Gomes, por onde passavam os mensus transportando erva-mate para os portos do Rio Paraná.
Ali, no rancho que os colonos chamavam de bodega, Otávio vendia mantimentos para os viajantes. O espaço foi passado a José Silvério de Oliveira, o Nhô Jeca, ao vir se estabelecer em definitivo no local, em 1930.
Lembrar de Siqueira e sua família resgata as histórias que só se referem a Cascavel depois de 1952, como se a história anterior à criação do Município fosse descartável e desprezível.