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Quando tudo se resolvia no dinheiro vivo

Não havendo bancos, as quantias em espécie ficavam nos colchões e guaiacas, dando origem a histórias incríveis 

Alceu Sperança
Por: Alceu Sperança
01/11/2026 às 10h31
Quando tudo se resolvia no dinheiro vivo
Agostinho Machado: Gabana e Zardo eram suspeitos até prova em contrário 

Sandálio dos Santos nasceu em Quaraí (RS), em outubro de 1902. Até 1913, quando foi criada a primeira escola do lugar, as crianças estudavam no Uruguai. Sandálio só falava o espanhol e quando o pai morreu, ele ainda com 11 anos, a família decidiu enviá-lo a estudar em Montevidéu.

No entanto, o menino desobedeceu. Escutava histórias fantasiosas de viajantes que apareciam na fronteira contando maravilhas do Alto Paraná, onde era possível enriquecer aproveitando a onda da erva-mate, atividade explorada pelas companhias argentinas e inglesas que dominavam toda a área.

Sandálio descartou Montevidéu e decidiu subir o Rio Paraná para tentar a fortuna. Foi à Argentina e embarcou rumo a Porto Mendes, mas em uma escala foi detido pela polícia platina, em razão de seu linguajar espanhol confundido com um menino paraguaio delinquente. Perdeu a mala e o dinheiro que levava (https://x.gd/GhV7z).

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Quando veio participar ao lado de José Silvério de Oliveira da formação da cidade de Cascavel, em 1931, Sandálio lembrou o episódio em que teve seu dinheiro tomado e entre as primeiras preocupações ao organizar a vila estava convencer uma agência bancária a se instalar em

Cascavel para que as economias dos moradores ficassem protegidas.

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Os bancos não se interessaram. E assim, até a primeira agência chegar, foram muitas as histórias envolvendo dinheiro vivo nos tempos pioneiros. 

Os olhos de Gabana e Zardo

Os negócios prosperavam, mas para ir a um banco depositar o dinheiro era preciso vários dias, em marchas penosas a cavalo ou de carroça até Foz do Iguaçu e Laranjeiras do Sul em caminhos intransitáveis nas temporadas de chuva.

Cascavel ainda não tinha banco no início dos anos 1950, quando Agostinho Machado (1938–2015) adquiriu um sítio no atual Município de Catanduvas e passou a comprar gado no Mato Grosso para vendê-lo no Oeste paranaense. 

Como os negócios eram feitos a olho (o comprador dizia “pago tanto” e o vendedor aceitava ou recusava) Agostinho não tinha certeza se os dois compradores que tinha em Cascavel – Pedro Gabana e Hilário Zardo –, pagavam o preço justo pelos animais. 

Eles tinham um abatedouro na Vila Cancelli que fornecia carne para os açougues da região. Machado, então com 22 anos, comprava lotes de 25 a 30 cabeças e depois de um período de engorda em seu sítio, trazia os animais a Cascavel ao cabo de quase dois dias de viagem.

Demorado, mas exato

Sobre um burro, ele partia de madrugada com o gado e chegava ao cair da tarde na localidade São Domingos, onde tinha um potreiro, no qual dormia enquanto os animais descansavam. 

Na manhã seguinte partia para Cascavel, chegando ao matadouro por volta do meio-dia. O acerto de contas entre Gabana, Zardo e Agostinho era definido pelos compradores: “No matadouro não existia balança grande para pesar o gado. Eles calculavam o peso do boi no olho. Senão tinham que abater o boi, dividi-lo em quatro partes e depois pesá-los naquelas balanças de varão”.

Era a balança romana, que media o peso de cargas deslizando um peso móvel em forma de bolinha ao longo da haste graduada. Mas os compradores gostavam de definir tudo no olho, em poucos segundos.

Machado, entretanto, recusou a medição rápida: “Não posso continuar vendendo no cálculo a olho, senão os caras vão me lograr... Eles são tarimbados em calcular o peso de um boi e eu não”.

Assim, preferiu a exatidão, mesmo com a operação demorando alguns dias: os animais eram abatidos e a medição na balança feita com os compradores e o vendedor anotando criteriosamente os dados apresentados pela balança. 

“Fui barra pesada”

À noite, Agostinho dormia em um galpão e durante o dia acompanhava as pesagens. Zardo pagava em dinheiro vivo, pois não havia bancos e ninguém aceitava cheques por não haver onde sacar.

 “Éramos proibidos de receber cheques. Recebíamos em dinheiro vivo. Eu tinha uma pasta grande só pra carregar o dinheiro”, contou Agostinho. “Naquele tempo já aconteciam muitos assaltos a bancos. Eu tinha muito medo de ser assaltado, mas nunca fui. Sempre andei armado com o 38 na cinta...” 

Quando Agostinho se tornou fiscal da Prefeitura de Catanduvas, era comum se deparar com proprietários de cargas que se recusavam a pagar o imposto de circulação de mercadorias. Ele simplesmente sacava o revólver da cintura e fazia a cobrança no grito. “Fui barra pesada”, confessou. 
Ocorreram muitos casos de confronto, discussões acaloradas e tiroteios. Como Agostinho sobreviveu a tudo, não ficaria bem lhe perguntar que fim tiveram os adversários nesses atritos: “Não era só eu que andava armado. Os outros também, e levei sorte”.

Em Toledo, a primeira agência bancária – o antigo Banestado (Banco do Estado do Paraná) –, passou a funcionar em 1953. Em Cascavel, só em 1959. Privatizado em 2000, o Banestado foi adquirido pelo Banco Itaú. 

Fazendeiro acusado injustamente   

Na época em que Agostinho escorava os rebeldes a bala, em Matelândia corria um boato que décadas depois ganhou os contornos de lenda:  o dono de uma pensão na qual os colonos que chegavam para tomar posse de terras se hospedavam os matava e ficava com o dinheiro deles.

Até construir suas moradias nos locais de trabalho, reza essa versão, eles precisavam morar nessa pensão. Desovando os corpos em local distante, o dono da pensão se apropriava do dinheiro e documentos de terras da vítima, ampliando seu patrimônio. 

Relato expondo essa história foi publicado pela pesquisadora Karine Albano (https://x.gd/SSJmm). Provavelmente o único possuidor de terras em Matelândia com grande extensão de terras na época fosse o fazendeiro Francisco de Paula Minolli. Alvo de ataques de posseiros interessados em ficar com as áreas ocupadas, ele teve a origem de suas terras investigada pelo Incra, que as atestou como legais e regulares.

Há muitas histórias reais de grilos de terras, mas raramente as vítimas sobreviviam para denunciar os crimes. Ficaram as lendas, tanto as que tinham fundo de verdade como as calúnias para comprometer inimigos. Andar com dinheiro sempre foi perigoso.   

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Alceu Sperança
Jornalista, escritor e historiador.
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